sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 20 de setembro de 2011

“Aprende a saber esperar!”

“Aprende a saber esperar!”
Parece que ainda ouço o meu pai a dizer…
E ele fumava tranquilamente o seu cigarro…
Eu olhava-o cá de baixo,
surpreendida com a paciência dele,
a calma,
o aspecto tranquilo de quem pode esperar uma eternidade.

Eu nunca soube esperar.
Nunca gostei de esperar.
Não aprendi a saber esperar, desculpa papá…
Até nisso fui uma desilusão!

Os meses que faltavam até ao Natal eram tantos!...
Os dias que iriam ser precisos para ter aquela boneca da montra não tinham fim!...
Os minutos de espera pelas bolinhas doces de chocolate eram devastadores…
Todo o tempo que faltava para a escola finalmente acabar
e começarem as férias grandes, era longo demais!...

“Aprende a saber esperar”
E á nossa frente,
Uma fila interminável de pessoas,
com papeis nas mãos e desespero no coração.
Tantos papeis!
Fotocopias carimbadas, fotocopias autenticadas,
requerimentos, despachos, certidões…
Horas e horas de espera sem fim!
Já o dia ia .quase a acabar.
Já as últimas pessoas se acomodavam para passar a noite de encontro ao muro,
Sentadas, enroscadas no cimento do passeio,
para assim garantir lugar para o dia seguinte,
E o meu pai continuava calmo, sereno.
“-Papá, falta quanto tempo? Ainda há tanta gente!!”
Ele olhava para mim, com a sua cara sofrida e tão bonita,
“-Eu disse que ia ser assim. Porque insististe em vir?”
Mas eu ia sempre.
Aonde ele fosse, eu ia atrás.
E ele levava-me.
Para desespero da minha mãe que me imaginava a dormir ao relento
coberta de picadelas de mosquitos,
a tremer de paludismo,
exposta a perigos sem fim.

“Aprende a saber esperar”
Eu ficava lá,
Encostada ás pernas dele,
A tagarelar,
Mas esperar calmamente,
isso não esperava.
Ficar numa aceitação muda e quieta das horas que faltavam
até podermos entrar no consulado,
na embaixada, no gabinete disto ou daquilo,
isso não era comigo.
Apesar de não sair dali,
A minha maneira de esperar era sempre diferente da das outras pessoas.

Eles ficavam de olhos no chão, parados, absortos.
Uns choravam,
outros suspiravam.
Como se estivéssemos num velório gigantesco
pela alma de um defunto comum a todos.
Eu não.
Eu continuava a falar
a rir,
a contar histórias…
Se me obrigavam a ficar ali parada,
Pelo menos não me obrigavam a ficar triste, nem angustiada.

Não havia lá mais crianças.
Não era lugar para crianças.
Crianças não vão a sítios tristes, não participam na vida real dos pais.
Eu não.
Eu sempre fui a todo o lado,
Vi todas as coisas.
Estive sempre a par do que se passava ao meu redor.
Sabia que estávamos a fugir, a ir embora.
Sabia que todos aqueles malditos papeis carimbados
eram precisos para podermos deixar a nossa terra.
E apesar da minha mãe me ter tentado enganar ao principio,
dizendo que vínhamos só de férias,
como de costume, ver as tias,
ficar uns dias com as tias,
eu sabia que não íamos voltar mais.
E o meu pai sabia que eu sabia.

“Aprende a saber esperar!”
Aos poucos e poucos,
As pessoas mais perto de nós começavam a interessar-se pela minha tagarelice.
Faziam-me perguntas,
Riam-se das minhas observações,
naquele grupinho mais chegado a nós,
naquela parcela de muro e de chão de cimento,
aonde estávamos exilados ,
a tristeza não era tanta, nem a angústia era tão pesada.
“-Que Deus abençoe esta criança pela sua alegria!”
E o meu pai sorria, de cigarro ao canto da boca.
“- É boa pequena. Irrequieta, mas boa pequena!”

Lembro-me de algumas daquelas pessoas das filas de espera,
nos últimos tempos de Moçambique.
Eles deixavam os nomes,
as moradas de para onde pensavam ir quando desembarcassem,
“Quem sabe lá na Metrópole nos encontramos todos. Quem sabe?”
Não nos encontrámos.
E os que encontrámos já não são os mesmos que deixámos.

“Aprende a saber esperar!”
Nunca aprendi.
Posso ficar no mesmo sítio,
posso até não dar um passo dali,
mas esperar quieta e queda,
não sou capaz.
Arranjo sempre forma de empurrar o tempo para ele se apressar,
de chamar o que quero para não se desencaminhar de mim pelo caminho.
Até choro, e sofro, e morro um bocadinho por dentro a cada dia,
Mas não desisto enquanto acho que há alguma hipótese para experimentar,
para apressar.
Quem sabe se…
E se eu fizesse…
E se eu fosse…
E se eu dissesse…

“Aprende a saber esperar!”
Não consigo. Não sou capaz.

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