sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Até aonde ele consegue ir, para me agarrar?

O Destino…
Temos que vivê-lo.
Podemos, mudá-lo,
podemos alterá-lo,
ou, apenas temos que sofrê-lo?

Ensinaram-me que não.
Que não se muda o destino.
Que quando nascemos,
já trazemos um,
escrito e bem delineado.
Tal e qual uma condenação de tribunal,
feita sem a presença do acusado.

Quando cresci e perguntei á minha mãe
porque é que ela nunca tinha ido embora,
ela respondeu que era o Destino dela ficar.
Quando no meio da pobreza e da miséria,
perguntei ao meu pai porque é que não voltávamos para casa,
ele apenas disse que não era isso que tinha sido escrito para nós.

Em tantas outras vicissitudes da vida,
nas alturas mais tristes,
nas mais infelizes,
naquelas de maior solidão,
lá estava sempre a resposta esclarecedora: o destino.

Nasceu doente, foi o destino que quis que não tivesse saúde…
Bebe, estava no destino que ia ser alcoólico….
Mortes, nascimentos, casamentos e divórcios,
tudo,
tudo mesmo
estava já arquitectado pelo destino.
Nunca havia volta a dar,
tão pouco méritos a atribuir,
ou culpas a perdoar.
Impossível haver maneira de fugir ao que tinha sido escrito nas estrelas,
mesmo antes de termos nascido…

Nunca acreditei nisso!
Sempre pensei que tinha o meu destino nas mãos!

Desde a altura em que a minha mãe ensaiava comigo e com a minha irmã,
as respostas bem educadas e elegantes
que tínhamos que dar ás visitas de casa,
e depois, na altura,
eu respondia sempre o que bem me apetecesse,
para horror da minha pobre mãe e divertimento do meu pai,
e acho que divertimento até das visitas,
que se riam comigo e perguntavam mais…

Passando pela vez em que fugi da professora do colégio infantil,
no dia em que a carrinha da escola chegou atrasada.
E arrastei a pobre senhora gorducha numa corrida em círculos
á volta do pátio de entrada do meu prédio,
perante o olhar atónito dos outros miúdos que espreitavam
de nariz esborrachado de encontro ás vidraças.
E me neguei a entrar com ela e a sentar-me na carrinha.
O que me valeu umas boas palmadas da minha escandalizada mãe,
Mas também fez com que o meu pai me matriculasse finalmente
numa escola pública,
e me livrasse do espartilho do colégio particular…

Até na ocasião em que saí de casa,
com os meus dezoito anos libertadores feitos.
As mãos cheias de nada.
O coração cheio de sonhos.
Sem destino certo.
Sem morada, sem rumo.
Com todas as estradas do mundo á frente,
e todas as estrelas para me iluminarem.
Sem roupas, nem livros,
nem as minhas bonecas preferidas,
ou os posters de cantores da moda.
Sem destino marcado.
Livre do destino finalmente!
Livre para escrever o que quisesse na minha própria edição limitada.

Quando desfiz a ilusão de perfeição,
de respeitabilidade, de segurança.
E quando sai do caminho tão bem marcado a tinta branca,
cheio de linhas continuas, sinais de stop…
Todas essas indicações preciosas
que nos dizem para onde ir.
E fiquei outra vez á entrada da estrada.
Outra vez sem rumo, sem direcção…
As mesmas estrelas,
o mesmo céu.
Tantos anos depois dos meus dezoito!
Tenho passado a vida a fazer fintas ao destino...

Tenho mudado e remudado tantas vezes o que era para ser.
Escrito por cima do que já estava seco e passado a limpo.
Alterado o guião,
introduzido novas personagens,
novos cenários.
novos discursos.

Tenho-me sentido sozinha e triste,
pequenina e indefesa.
Sempre em luta com o que é muito maior,
mais forte
e mais poderoso do que eu.

Mas não desisti até agora!
Quando dói demais, quando não consigo suportar mais, desfaço e faço tudo de novo.

E tinha a veleidade e a pretensão
de me achar muito corajosa,
rebelde e empreendedora…

Até ao dia em que a minha maninha linda,
do alto do seu juízo e da sua sabedoria, me disse com a calma dela:
“-Tudo isso que tens andado a fazer…
Também já estava escrito que ia ser assim”

Será?
Será que até ao fugir tanto,
Ao não me deixar apanhar,
agarrar
prender,
encarcerar,
até aí estou a obedecer ao que determinaram para mim,
antes de eu poder escolher?

Que vontade danada de não me conformar…
De parar, fazer birra, não andar…
Não ir para mais lado nenhum.
Não decidir mais nada.
Só ficar sem ficar.
Deixar o corpo para enganar,
seguir em alma sem ninguém a controlar.

Sempre queria ver
até aonde o destino conseguia ir...
para me conseguir apanhar!...

Porque muito sinceramente,
já estou bem cansada de lutar...

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