sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Brinco, tatuagens... Barracuda. Em que mar?

De todos os meus queridos amigos antigos,
ele era o mais especial.
Nunca cheguei a saber o nome verdadeiro dele.
Conhecia-lhe a alcunha, Barracuda.
Era sempre assim que o chamávamos.
O Barracuda tinha os braços cobertos de tatuagens.
Foi a primeira pessoa amante de tatuagens que conheci.
Nos braços,
no pescoço,
até no rosto tinha algumas pequeninas.
Usava um brinco de brilhante,
os cabelos revoltos e sem penteado definido.
Tinha olhos verdes bonitos,
um sorriso trocista,
e um vocabulário capaz de fazer corar um carroceiro,
como se costuma dizer.
Como era mais velho do que todos os outros rapazes do nosso grupo,
e porque lhe reconheciam mérito e habilidade na arte de bem vagabundear,
e de fazer outras coisas menos aconselháveis, do que apenas vagabundear,
o Barracuda era o líder nato dos meus amigos de Verão.

Apesar do aspecto duro, rude e um pouco assustador,
não era capaz de fazer mal a ninguém,
Era simpático e cuidadoso com os mais novos,
apartava muitas brigas,
terminava com muitas discussões,
fazia com que todos aqueles rapazes rebeldes e indomáveis se dessem bem,
e fazia de nós todos um verdadeiro caso á parte,
na história dos grupinhos marginais daquela altura.
Era muito meu amigo,
e muito meu amigo ficou,
mesmo depois de passado o nosso caso, namoro, curte, ficamento,
enfim o que lhe queiramos chamar..
“Respeitinho com a princesa”, como ele dizia sempre…
Ai de quem ousasse ofender-me, magoar-me,
não os nossos, claro, esses eram meus irmãos de coração,
mas os de fora que se atrevessem a mexer comigo,
tinham logo o Barracuda no encalço,
E ter o Barracuda no encalço não era coisa aconselhável para ninguém!
Podia não ser um grande exemplo de vida,
mas era sem dúvida alguém muito querido,
de quem tenho muitas saudades.
Ter o braço forte dele para me proteger,
tem-me feito uma falta danada um bom par de vezes na vida!…
Aliás, todos eles me têm feito muita falta!
Assim como me tem feito falta
aquele tempo em que tinha uma porção
de irmãos mais velhos
para me protegerem…
Nunca mais voltei a sentir isso!
Aquela sensação de estar bem, confortável na vida
rodeada de pessoas queridas…
E eram tão diferentes de mim!

Nestes poucos dias em que estive fora,
fiquei a saber que o Barracuda tinha partido.
Já andava mal, há uns tempos,
desde que trocou as drogas leves que faziam as delicias deles todos,
(mas que sempre têm o grande inconveniente
de com o tempo se irem tornando leves demais,
e deixarem de ter aquele efeito avassalador de subir ás estrelas e voltar, dentro de uma montanha russa deliciosa)
por outras bem piores e mais duras.
Não foi o primeiro dos meus amigos antigos a morrer assim,
Dessa forma inútil e sem sentido.
Já se foram vários deles,
amigos, conhecidos, antigos vizinhos, antigos amores
Mas saber que o Barracuda partiu causou-me uma tristeza enorme!

Durante estes anos todos,
nunca deixei de pensar que ele estivesse bem!
Via-o com o brinco,
os cabelos despenteados,
os braços tatuados e fortes,
aquela forma de falar que ao principio tanto me tinha chocado,
mas que lhe assentava tão bem como uma segunda pele.
Ouvia-o a conversar com os outros, a dar opiniões…
Sentia ainda às vezes como que um roçar no rosto,
uma lembrança gostosa dos beijos no tempo em que namorámos…
Saber que partiu foi mau, muito mau!

Saber que partiu e não me despedi dele,
foi pior ainda!
De uma forma ou de outra,
Sempre acreditei que somos capazes de pressentir quando alguém de quem gostamos está mal.
Mas ultimamente esse meu radar anda um pouco avariado, ou desligou-se sem eu dar por isso.
Já faltei a tantas despedidas,
já estive ausente de tantas situações importantes,
já perdi tantas pessoas queridas para o outro lado da vida!
Quando chegar a minha altura,
vou ter um grande comité de recepção á minha espera.
Espero encontrar lá o Barracuda,
Com o seu aspecto desengonçado e rufião,
as suas tatuagens todas no mesmo lugar aonde me lembro que estavam,
o brinco atrevido na orelha,
o sorriso trocista.
Aí aproximo-me dele,
e dou-lhe um beijo cheio de saudades e de recriminações
por não se ter sabido cuidar como deve de ser,
por ter ido embora sem me chamar, sem se despedir.
E ele diz-me
“Olá princesa, há quanto tempo! O que é feito de ti, miúda?”
Quem sabe,
podemos ficar amigos para sempre?
Uma vez que aqui não foi possível…

Não me devia ter afastado deles para tão longe!
Devia ter procurado, devia ter tentado saber...

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