sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 11 de setembro de 2011

Fazenda... há quanto tempo!

Encontrei ontem
dois pedaços soltos do meu passado.
Doutros tempos,
noutros lugares.
Duas pessoas das quais,
se calhar se falava à nossa mesa, ou no sofá a noite,
enquanto ouvíamos rádio,
e a minha mãe costurava,
o meu pai lia o jornal e fumava,
e nós, miúdas, brincávamos com as bonecas no tapete castanho da sala.

Quem me dera que o meu pai
ainda cá estivesse!
Ele ia gostar tanto de saber!
Encontrei dois colegas antigos do trabalho dele…

Vi uma fotografia do sítio aonde ele trabalhava!
Depois de tantos anos…

Lembrei-me dele.
Do fato bem engomado,
de que nunca abdicava,
mesmo debaixo do sol escaldante de África.
Da gravata,
do chapéu na cabeça.
Dos botões de punho a condizerem com o alfinete da gravata.
Até do cheiro dos cigarros dele,
das cigarrilhas, que largavam um aroma de chocolate,
dos charutos nos dias de grande boa disposição…

Recordei os dias em que ele me levava a “trabalhar”.
Eram grandes dias!
A Fazenda tinha tantas escadas,
tantos corredores,
tantas portas,
tantos ecos!
Era tão enorme e majestosa,
cheia de arcos, de pedras claras.
E tinha muitos eucaliptos lá perto!
Era um lugar tão lindo!
Lindo demais!
Nunca saiu dos meus sonhos,
nem das minhas lembranças.

Ele sentava-me numa cadeira com rodinhas,
confortável, macia,
que rolava para onde eu mandasse.
Ás vezes era preciso uma altura por baixo para eu conseguir chegar á secretária.
E dava-me impressos que já não eram precisos,
carimbos,
canetas.
E eu ficava ali.
Sentadinha, a escrever,
a “despachar”, como ele dizia,
a carimbar,
a fazer desenhos…

Lembro-me que os colegas do meu pai gostavam muito de mim!
Davam-me rebuçados, chocolates, levavam-me a passear com eles
pelos corredores enormes de tecto tão alto!…
E eu sentia-me feliz!
Tão contente de ver todas aquelas pessoas
com aspecto importante,
vestidas da mesma maneira do meu pai,
com secretárias imponentes iguais á dele,
e cadeiras com rodinhas como ele tinha.
Tudo parecia tão sólido,
tão para sempre!

O meu pai parecia tão para sempre!
Tão forte, indestrutível, valente.
O edifício da Fazenda, feito para durar até ao fim dos tempos!
Aqueles colegas simpáticos,
homens, mulheres,
pareciam destinados a ficar nas nossas vidas eternamente.
Todos rostos conhecidos,
todos nomes familiares,
todos presentes na minha vida desde que me lembro de ser pessoa!

Eu era muito pequena,
muito criança,
mas já precisava de ter certezas.
Já tinha a mesma necessidade que ainda tenho hoje
de me sentir em segurança.
Já olhava para o mundo
como se este fosse acabar de um momento para o outro,
e eu não fosse ter tempo para me esconder em baixo da árvore mais próxima.

Ali, na Fazenda, naqueles dias
em que ia “trabalhar” com o meu pai,
em que me sentava ao colo do “colega chefe” dele,
em que ouvia o matraquear imparável das máquinas de escrever,
as conversas calorosas e amigáveis de toda a gente,
em que sentia o meu pai descontraído,
melhor do que quando estava em família,
ali passei os melhores momentos da minha infância triste e solitária.

Encontrei dois daqueles colegas…
Que pena que ele já não está por cá para saber!
E, por momentos, voltei a sentir como se estivesse de volta ao meu lugar.
Como se pudesse de novo ser a mesma menina pequenina,
que seguia pelos corredores,
de mão dada com o pai,
de respiração suspensa a ouvir as conversas,
os ruídos, o cheirinho bom a papel…


Papá,
tens-me feito muita falta, sabes?
Não tenho tido ninguém para tomar conta de mim.
Tenho andado muito perdida e muito sozinha.
A vida não foi tão fácil como nos filmes que tu me contavas.
O herói não quis saber da heroína,
nem teve força para lutar com os maus, nem a atirou para a garupa do cavalo
e fugiu com ela atravessando o deserto.
Nem conseguiu sequer pedir para ela ficar…
Preferia as histórias que me contavas…
Preferia que ainda estivesses aqui.
Preferia que nada tivesse acontecido,
e ainda estivéssemos lá.
E eu e a mana tivéssemos crescido, e tu e a mamã envelhecido.
Que nós as duas tivéssemos ido trabalhar para a Fazenda.
Que fossemos casadas com bons rapazes, filhos de amigos teus.
Estivéssemos todos felizes, tranquilos, em paz.

Encontrei dois antigos colegas teus, papá.
Dos tempos de Moçambique.
Eu sei que já não falas comigo, mas
não me vais dizer ao menos se te lembras dos nomes deles?

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