sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Não é amor, é desejo

O resto do corpo é tão mais fácil de convencer do que o coração…

Basta uma brisa mais morna,
não é preciso mais do que uma aragem,
ou uma palavra sussurrada de encontro ao ouvido,
o corpo, que é vadio, reage sempre…

Por vezes um simples olhar
que trocamos com quem por nós passa na rua…
ou um roçar de mãos acidental
quando pagamos a conta no supermercado…
até mesmo um sentar mais próximo no assento do comboio,
faz com que qualquer coisa primitiva e quente
acenda por dentro e fique a morder de forma gostosa…

Não é nada.
Não tem nome.
Não tem interesse.
Não se chama paixão.
Não se chama sentimento.
É apenas isso mesmo, desejo.

Não são só os homens que sentem desejos passageiros
por quem se atravessa uma única vez nos seus caminhos.
Nós, mulheres, sentimos exactamente a mesma coisa.
Ou pelo menos eu sinto exactamente a mesma coisa,
se bem que como exemplo,
eu deixe um bocadinho a desejar.
Eu, sempre cheia de fantasias,
de sonhos mirabolantes,
de visões impossíveis…

Quando estou muito triste,
quando o meu céu fica coberto de nuvens escuras,
daquelas que tapam o sol e fazem descer sombras no coração,
é quando se torna mais fácil chegar até mim.
Quando estou mais infeliz, mais desprotegida e tão sozinha,
mais carente de colo e de carinho,
naqueles dias em que chove sempre por dentro de mim,
fica tão mais aberto o portão para a minha alma!…

Quando me sinto muito pequenina e indefesa,
frente a um mundo tão grande e tão agressivo,
quando só queria encostar a cabeça no ombro de alguém
e chorar sem me importar de ficar com os olhos inchados e vermelhos,
quando tenho a certeza de mais ninguém se importa comigo
e preciso de um abraço gostoso a proteger-me com força
mais do que tudo na vida,
é nessas alturas que quem tiver jeito e paciência,
consegue entrar e vir até mim.

E não é que eu me apaixone pela pessoa,
logo ali, de caras.
Nem que o meu coração passe de mim para ele,
como uma mercadoria barata em dia de feira fraca.
É simplesmente porque precisava muito de alguém,
e a pessoa que aparece é esse alguém que eu precisava.

E não preciso mais do que uma palavra de conforto,
um olhar de carinho,
um afago nos cabelos,
um toque no rosto para secar as lágrimas.
Uma palavra que me faça sentir melhor,
mais feliz,
mais de bem com a vida toda e com o mundo em redor.

Mas ás vezes,
O olhar de carinho não traz só carinho.
Ás vezes o afago nos cabelos não se fica pelo passar leve e inofensivo,
o toque no rosto vai para além do que seria necessário para secar as lágrimas.
As palavras falam de algo mais do que conforto e segurança,
e o abraço transmite mais do que protecção.

Ás vezes o choro passa e a respiração acelera,
e o corpo deixa de estar inerte dentro do abraço apertado e protector.
E o abraço começa a ser mais do que protector,
começa a ser envolvente, ousado, quente.
E a mão que afaga os cabelos começa a ser mais demorada, mais insinuante.
E o beijo simples no rosto procura mais, desce pelo pescoço, ronda a boca.
E a visão começa a turvar-se,
a tristeza a dar lugar a outra sensação mais urgente, mais gostosa.
As mãos que só queriam estar no regaço, tristes a descansarem
Começam a subir, a explorar.
A boca que pedia colo de amigo entreabre-se e pede muito mais…
E quando a mão se insinua por baixo da camisola,
Com meiguice, com cuidado,
E o mundo todo roda demais para ser controlado,
E já não dá para pensar em mais nada,
É aí que o corpo, que é vadio,
se deixa amar
sem precisar do coração para nada.

Acontece. Pode acontecer.
Não é amor.
Não é paixão.
Não é importante.
É desejo.

Vais-me deixar ir mesmo assim?

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