sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 18 de setembro de 2011

Não sei como posso lutar...

Sempre fui muito sozinha.
Desde pequenita, que éramos só eu e a minha irmã contra o mundo.
O mundo, naquela altura eram os gritos do meu pai,
os desvarios da minha mãe.
Não havia mais mundo para além das quatro paredes.
Tios, tias, de cá, de lá, primos e primas,
amigos da casa, colegas do meu pai,
todos eles passavam do lado de fora da nossa vida.
Eram como que personalidades de romance,
irreais,
que apareciam para almoçar, para jantar.
Passantes a quem a minha mãe servia na melhor louça da casa,
numa cerimónia adulta para gente desconhecida
e que em seguida desapareciam pela porta,
desciam pelo elevador e sumiam na rua.

Habituei-me a só contar comigo para tudo.
A minha irmã sempre foi muito mais próxima da minha mãe do que eu.
Eu vingava-me no afecto amargurado do meu pai,
mas ele era a maior parte das vezes uma figura inacessível,
e assim tornei-me inseparável de mim mesma.
Eu era a minha melhor amiga, a minha própria confidente.
Eu era aquela a quem recorria quando me apetecia chorar,
quando me apetecia rir.
Comigo mesma falava, brincava,
e esperava ansiosamente os anos que faltavam
para poder ir embora, para poder ser livre.

Quando fiquei rapariguinha,
e comecei a ter formas,
a fazer acender o olhar dos rapazes,
a coleccionar namorados como quem coleccionava cromos de caderneta,
não deixei de ser sozinha.
Deixava que o escolhido da ocasião ficasse comigo por uns dias,
por uns instantes,
e quando me cansava da brincadeira,
da novidade, do paladar, do cheiro, do gosto,
mandava-o embora e recolhia-me de novo no meu cantinho.
Continuava tão só como sempre tinha sido.
Só no meio de uma multidão faminta.
Só e triste no meio de um mar de pessoas que me tentava agradar,
que acreditavam que ao encostar no meu corpo,
tinham acesso ao meu coração.

 Durante os longos vinte e cinco anos do meu casamento,
a solidão não deixou nunca de ser minha confidente inseparável.
Mesmo enquanto andava empenhada
em fazer com que tudo resultasse,
em ser a melhor esposa do mundo, a mãe mais carinhosa,
ocupada em que a casa toda brilhasse de limpeza,
a mesa estivesse coberta de iguarias deliciosas,
os animais bem alimentados,
as flores bem podadas,
as ervas do quintal bem arrancadas,
mesmo aí nunca deixei de ser sozinha.
Sem ninguém para me proteger,
sem ninguém que me ajudasse, que me amasse.
Mesmo aí, sabia que só me tinha a mim para me confortar.
Sabia que o mundo das quatro paredes tinha voltado...
O inferno de onde tinha fugido,
só tinha mudado de continente,
de país,
de lugar.
Só o cenário lá fora mudara.
O meu mundo continuava a ser o mesmo,
cheio de medo, de tristeza e de solidão.

Apenas quando encontrei o meu amor deixei de ser sozinha.
Passei a confiar,
a acreditar, a ter esperança.
Desisti de ver a vida por detrás das cortinas de casa.
Atrevi-me a voltar para a rua,
para o sol,
para o vento.
Ele ensinou-me que podemos tudo,
que tudo o que é bom é para ser vivido.
Tirou as tristezas do meu espírito,
colocou alegria e felicidade no seu lugar.
Devolveu o sorriso á minha boca,
o ritmo ao meu andar,
Encheu o meu coração de amor, de ternura,
o meu corpo de paixão e de prazer.
E agora de repente,
quando já me tinha esquecido do que é ser sozinha e triste,
assim da mesma forma que veio e iluminou a minha vida como um raio de sol,
está a desaparecer, a ir embora cada dia para mais longe…
E a solidão, a tristeza e a saudade,
já se perfilaram de sentinela á entrada da minha porta,
para me tomarem de assalto de novo,
para me prenderem e dominarem,
e se banquetearem em mim assim que ele for embora de vez.

Sou pequena e fraca.
Não tenho muitas armas para lutar.
É uma luta muito desigual, de gigantes e anões…
É uma batalha travada entre um exército poderoso e bem organizado,
com anos de experiência e treino militar,
e um só adversário,
que nunca lutou em guerra nenhuma,
nunca disparou um tiro que fosse.
Não disponho de nenhum argumento a não ser o meu amor.
Não sei que posso fazer,
para onde me posso virar
A minha única estratégia, o meu único plano,
a única inspiração que sei usar,
é dizer-lhe que o amo, que o adoro,
que a minha vida não faz nenhum sentido sem ele!

E a única coisa que tenho para lhe oferecer sou eu,
apenas eu,
o meu coração, a minha alma,
o meu corpo…
Estou perdida, estou confusa,
estou assustada.

Não tenho muito mais tempo para esperar.
O tempo passa implacável sobre mim,
como sobre todas as outras pessoas.
Já não tenho vinte, trinta anos á minha frente para esperar a vida acontecer.
Daqui a vinte, trinta anos, sabe Deus como estarei, se é que ainda estarei…
Nem tenho já aquela energia que me fez ultrapassar
tantas dificuldades, tantos problemas na vida...

Estou cansada de tentar fintar o destino.
Cansada de lutar para fugir á tristeza, á solidão.
Cansada de sempre me enganar, de sempre ficar sozinha.
Não sei em que estado sairei desta batalha.
Nem sei tão pouco se quero sair.
Os soldados antigos preferiam tombar em combate,
do que regressarem a casa derrotados, sem ideais, sem bandeira.
Eu nem sequer casa tenho para onde regressar!
A minha casa, o meu mundo,
o meu tudo era ele.

Porque é que tem que ser assim?
Porque é que não me deixei estar comigo mesma,
sozinha comigo própria.
De olhos fechados para a vida,
de corpo adormecido,
mas sem ter que chorar e sofrer tanto?
Porque é que eu tinha que me apaixonar?

E nem sequer consigo ter raiva dele!
Nem sequer consigo ficar zangada, nem magoada.
Até nesta indecisão final,
vejo mais uma razão para o amar.
Até agora, que estou tão infeliz,  lhe reconheço nobreza de carácter e rectidão nas acções.
Sempre racional, civilizado, cumpridor...

Porque afinal,
o que pode o meu amor,
o que posso eu com as minhas lágrimas,
contra um mundo inteiro de regras e compromissos?

Já tudo estava lá, e era para sempre,
muito antes de eu ter chegado...

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