sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Ninguém mais faz amor com o sol, a chuva, o vento.

Gostava de ser mais como as outras pessoas…
Gostava de não ser tanto assim do jeito que sou…

Não era preciso quase estourar de felicidade
quando a vida faz o favor de me esboçar um sorriso…
Nem havia necessidade de ficar prestes a sufocar de dor
quando o céu está mais escuro e fica carregadinho de nuvens!
Tão pouco era obrigatório que apenas um pensamento, uma lembrança,
fosse capaz de queimar como labaredas no meu coração.
E como fazer que o corpo páre de responder com sensações,
ás recordações que nem sequer sei se voltam mais?

Se vejo um filme triste, apetece-me chorar,
entrar pelo ecrã adentro,
mudar o final,
salvar o herói,
impedir a heroína de ficar com o outro…

Se ouço uma música linda, que já me fez sonhar noutros tempos,
apetece-me cantar,
dançar, sonhar, namorar, beijar na boca,
como se estivesse no dantes outra vez.
Como se ainda fosse a mesma menina louca e livre,
e não se tivessem passado bem mais de vinte anos
e bem mais de vinte vidas,
desde que ouvia aquelas músicas e sonhava
e dançava, e namorava e beijava na boca…

Se faz sol, quero logo abrir os braços, aceitar o convite mudo do calor,
perder-me na sensação gostosa de ser aquecida por inteiro,
mimada, acarinhada.
Quase como se o sol tivesse mãos,
e me pudesse acariciar com dedos de fogo
enquanto me deito e me abandono por baixo dele.

Se chove, vem aquela vontade louca de sair para a rua!
Correr, saltar, ou apenas andar…
Não parar mais.
Molhar o cabelo, senti-lo comprido, nas costas, no rosto.
Encharcar a roupa, deixá-la colada, moldada…
Desafiar o frio que gosta de me congelar no Inverno,
que julga que eu sou feita só de sol,
que não me conhece bem
e que não sabe que não sou feita de nada nem de coisa nenhuma.
Que desconhece que tanto o calor do sol
como o frio da chuva,
mexem de igual maneira comigo.
Ambos me fazem acelerar a respiração,
ambos são capazes de despertar o meu desejo,
o meu amor, a minha paixão,
se derem com o caminho certo
que leva ao meu coração.

Quando o vento sopra com fúria,
ou quando uma aragem morna se insinua por dentro do meu decote,
por baixo da minha saia,
por entre os meus cabelos…
Quando entra pelas janelas abertas do meu carro,
ou do meu quarto,
e se deita comigo,
pertinho de mim, juntinho a mim,
 na minha cama…
Quando me faz fechar os olhos,
me faz imaginar, sonhar,
querer, suspirar…
Aí o vento deixa de ser uma aragem.
Deixa de ser só vento a soprar.
Transforma-se numa entidade qualquer,
numa daquelas divindades pagãs
a quem os idólatras adoravam nos tempos antigos.
E leva-me, enlouquece-me,
pega em mim ao colo,
abraça-me, protege-me e ama-me.
Cruza comigo o universo sem fim,
sem precisar de nave espacial,
nem de tapete voador.
E quando vai embora,
Quando sai pela mesma janela por onde entrou,
volta ser de novo só uma aragem,
só um sopro do vento.

Gostava de ser mais como as outras pessoas…
Gostava de não ser tanto assim do jeito que sou…

Porque mais ninguém que eu conheça,
tem esta maneira de ser absurda, como eu tenho…
Ninguém chora como ri.
Ninguém faz amor com o sol e a chuva.
Ninguém se deita com o vento…

Porque é que logo eu tinha que ser assim?

São cinco horas da manhã.
Quando saí para a rua,
o céu estava todo iluminado pela lua tão bela!
O mundo estava quieto, parado.
Lá em cima, havia nuvens que não se mexiam.
Dei por mim a querer ser uma delas.
Parada, em paz, sem pressa, pendurada do céu,
com a lua a brilhar na minha janela.

Caso perdido!
Era só uma madrugada!
Era só um céu com lua!
Eram só nuvens paradas!

Era só eu,
pequena, perdida, com frio, assustada.
A noite é tão escura, tão fria!
Tão triste para quem a vê assim como eu
Sem vento, sem aragem, imóvel e apagada.

Hoje vou ver o mar.
Não me posso esquecer… é só mar.

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