sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Saí assim, sem jeito, sem conserto...

A minha mãe dobrava-me as soquetes sobre os ortelhos,
punha-me fitas no cabelo,
vestia-me uma bata da escola branca e imaculada.
O meu pai levava-me pela mão aonde eu queria ir,
subia e descia comigo todas as escadarias,
degraus e patamares do mundo,
por onde eu queria passar.
A minha professora dizia que eu era uma aluna brilhante,
e que ainda ia dar muito que falar.
Tive namorados que me ofereceram a lua, o céu e o mar,
que fizeram tudo o que puderam para não me deixar partir.

Para quê tanto desperdício?
Para quê tanto trabalho?
Se foi nisto que eu vim dar…

Antes mesmo de olharem para mim por me acharem bonita,
já há muito que olhavam para mim por ser engraçada.

Em muito pequenina era mimosa, divertida,
falava e ria sem parar.
A minha maneira de ser estouvada e inconsequente
fazia com que a minha mãe perdesse a paciência comigo
mais vezes durante o dia
do que aquelas que gosto de me lembrar.
Não havia castigo em que ela me pusesse,
palmadas que me desse,
que fizessem desarmar o meu feitio desordeiramente livre.

Eu sei que ela se esforçou,
e se empenhou.
E sei que a minha mãe
com os seus cabelos lisos e a sua pele clarinha,
lisboeta exilada em terras de África,
eterna estrangeira por opção e por coração,
tinha muito medo que dissessem
que não tinha desempenhado bem o seu papel,
que não tinha sido uma mãe exemplar.
Mas eu ilibo-a de culpa e de mácula.
Desempenhou com perfeição a sua missão comigo, sim senhora.

Eu é que saí assim,
sem jeito,
sem concerto…
Ovelha negra de toda aquela família comportada.
Aquela que vai sempre para o lado contrário
de onde é suposto ir.
Aquela que nunca obedece ao ladrar do cão pastor
na hora do toca a reunir.
A que prefere dormir ao relento no desconforto da montanha,
do que seguir o resto da manada quando é altura de recolher…

Tenho pena de ter desapontado todos!
Sinto muito se não cumpri a minha missão até ao fim,
como era suporto ter cumprido.
Não foi por falta de mérito de ninguém.
Não foi porque não me tivessem ensinado,
nem preparado,
nem dado todos os exemplos de obediência cega,
de capacidade de sofrer calada.
Tão pouco foi falta de bons conselhos…
Sou eu que nasci assim…

Eu é que saí assim,
sem jeito,
sem concerto…

Um beijinho, papá querido.
Perdoa.
A tua filhinha, princesa das histórias de encantar foi um desastre tão grande!...

Um beijinho, mamã do coração.
Não fiques zangada.
Tinhas afinal razão. Nunca tive emenda, nunca tive muito juízo.

Um beijinho, maninha linda, companheira amiga.
Desculpa por tudo.
Desculpa os chocolates que comi sozinha.
Desculpa as bonecas que não te emprestava.
Desculpa os namorados que te roubei…
Desculpa…
Só desculpa.

A natureza sabe o que faz.
Não estava destinado…
Os homens é que insistem em salvar tudo o que é vida.
Eu não era para ter sido.
E tinha sido muito melhor que não fosse.
Para todos,
até para mim mesma.

4 comentários:

  1. OMQA (Oh Minha Querida Amiga) tu que nasceste em África...sabes bem que de um animal selvagem nunca se pode esperar que mude a sua natureza/instinto...da mesma forma que a alguém com o teu espírito livre nunca se pode pedir que se torne escravo...mesmo que te cobrissem de laços, rendas e ouro...porque tinhas nascido LIVRE e nem que mesmo tu tentes te conseguirás alienar...e olha que sei do que falo.

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  2. Olá Micróbio, amiga querida
    Mas de que me serviu ser tão selvagem, louca e livre? Sabes bem o desastre que é a minha vida. E tudo começou por causa dessa maldita vontade de ser livre, solta... Se tivesse feito tudo exactamente como estava planeado que eu fizesse, desde que nasci, olha bem a quantidade de sofrimento a que me tinha poupado!
    Se soubesses como eu gostava de ser um pouco mais normal, equilibrada,com menos sonhos, menos fantasias, mais juízo...
    Obrigada pelo teu comentário, amiga.
    Muitos beijinhos, e não queiras saber do que falas. Não é nada bonito, doí demais. Não queiras para ti. Sê sempre normal, equilibrada, feliz e alegre.
    Beijinhos!!!

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  3. Querida Glória,
    É sempre um prazer cá voltar!
    Aqui estou eu de novo a tentar pôr-me em dia com tudo o que escreveu. Para isso estou a ler tudo de uma golfada, para que nem uma linha me escape :)
    O trabalho nesta altura aperta, o que quase nem nos deixa tempo para respirarmos. A partir de novembro tudo acalmará e as coisas voltarão ao normal.
    Um grande beijinho e até um dia destes,
    Cristina

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  4. Olá Cristina,
    Já tinha saudades dos seus comentários! Que bom que está de volta, e que continua a passar por aqui! Fiquei muito contente em saber.
    Muitas felicidades para o seu trabalho gostoso e delicioso!
    Muitos beijinhos para si, e obrigada!!

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