sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Sorriso bonito

Tenho passado a vida a sorrir…
Desde pequena que sorrio como quem respira.
“Aconteça o que acontecer na sua vida,
Não abandone nunca esse seu sorriso!”
Foi o primeiro galanteio que um homem me fez!
Tinha doze, treze anos,
e ele era um senhor lindo de cabelos todos brancos e óculos de lentes grossas…

O meu filho costuma dizer que as pessoas gostam de mim,
porque não têm coragem de ser rudes
com quem mostra sempre um sorriso bonito…
Uma vez, há anos e anos,
desentendi-me com um amigo meu
que me disse no calor da discussão
“A tua sorte é teres esse sorriso que faz um homem esquecer tudo,
senão não havia quem te aturasse…”

Um colega do meu pai,
já nos últimos tempos do meu pai ter colegas,
disse-me que quem sorri como eu,
sorri como um anjo,
alcança o céu na terra.
Não alcancei ainda o céu na terra,
digamos que estou entre o purgatório e o céu,
empregando a expressão de um amigo.
Mas a verdade é que apesar dos percursos atribulados que tenho escolhido,
não cheguei nunca a fazer paragem no inferno…

Com o passar dos anos,
tenho-me vindo a aperceber
de que por vezes as pessoas interpretam mal o meu sorriso.
Há mulheres que se sentem ameaçadas,
e há homens que se sentem convidados.
Não vou atacar o acompanhante de ninguém
só porque sorrio para ele na fila do supermercado
se ele fala comigo.
Nem vou levar nenhum homem para a minha cama
só porque ele me segurou a porta para eu passar,
e eu lhe agradeci com um sorriso.
Não precisam de ficar ressentidos comigo,
nem precisam de me seguir por todo o lado.
A maior parte das vezes,
Nem dou conta de que estou a sorrir…

A minha mãe era uma mulher de ditados populares,
de provérbios, de frases feitas.
Havia uma frase, de entre todas, que ela adorava e que me dizia constantemente
“Muito riso, pouco sizo”.
E com isso resumia o que pensava do meu constante ar bem-disposto.
Devia ter razão…
Mas isso não faz de mim uma pessoa leviana,
nem sem carácter.
Sorrir, brincar, dizer coisas engraçadas,
concordo, ás vezes atrevidas,
ás vezes susceptíveis de segundas e terceiras interpretações,
não quer dizer que sou fácil,
que sou desmiolada,
que estou disponível.
É só a minha maneira de estar na vida.
Não sei fazer de outra forma.
Não sei adoptar outra maneira de ser.

Se me falam bem,
eu falo bem de volta.
Se me dizem uma coisa bonita,
eu respondo com outra também bonita.
Se me sorriem,
claro que sorrio em resposta.
Gosto de me dar bem com as pessoas.
Gosto de ter amigos,
de fazer amigos.
Sempre fui assim…
Mesmo antes de aparecer o facebook,
já a minha vida era um facebook na vida real.

Mas podem desistir de ter esperança,
os que acham que só porque sou sorridente sou pateta,
e fácil de seduzir.
Sei muito bem o que quero,
Sei muito bem o que não quero.
Posso não ser capaz de parar de sorrir
para quem me sorri primeiro,
mas sei distinguir muito bem um sorriso de simpatia,
de um sorriso malicioso de ocasião.

E o que me deixa mais triste,
mais desapontada,
é que apesar de ter esse tal sorriso tão lindo,
nunca fui capaz de alegrar o coração de quem quis bem!
Não consegui que o meu pai parasse de sofrer,
que a minha mãe parasse de chorar,
que a minha maninha linda parasse de lutar contra o mundo.
Não adivinhei quem queria partir,
nem estive ao lado de quem quis parar de viajar.
Não tive sequer habilidade para conservar o meu amor,
nem fui capaz de fazer com que ele não me deixasse ir embora…

Para que serve então ter um sorriso que despedaça corações?
Cansada de ser cortejada, admirada, cobiçada…
Talvez se parasse de tanto sorrir,
as pessoas prestassem mais atenção em mim…
Como fazer para congelar a alma, o coração e o corpo?

Senhor dos cabelos brancos de neve e óculos de lentes grossas,
Desculpe, mas… estou quase a abandonar o  sorriso,
é que já aconteceram coisas a mais.
Não sei para onde o senhor foi,
nem aonde está,
mas sei que havia de perceber.

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