sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Soube tão bem ter quem me quisesse ouvir

Como se fosse hoje…
As escadas do avião,
tão íngremes,
tão a descer sem fim…
a lembrar o escorrega grande do Dragão de Ouro,
mas sem nos podermos deixar escorregar.
A minha mãe que levava a minha maninha pela mão…
Eu que ia como sempre,
a espreitar o mundo por detrás das calças bem engomadas do meu pai.

Estava escuro.
Pensei que era noite…
Mas não.
Era só falta de sol.
Falta de luz.
Estava frio…
Muito frio!
E as nossas coloridas roupas tropicais
abanavam pobremente como bandeiras desfraldadas,
assinalando o desembarque desconsolado,
de mais um grupo de abandonados,
repatriados,
exilados,
refugiados,
tristemente retornados.

As minhas célebres tias de Lisboa
estavam á nossa espera.
Todas elas.
Temíveis nas suas roupas escuras,
nos seus cabelos estranhamente enrolados á volta da cabeça…
Numa pressa urgente
de resgatar a irmã mais nova,
que finalmente regressava do degredo de África.

O meu pai
mantinha a sua atitude digna e reservada,
Sempre composto, sempre cavalheiro.
Sempre olhado de lado e com desconfiança
pelo bando de senhora idosas que já arrastavam
a minha mãe pelos corredores,
com a minha irmã atónita,
ainda pendurada pela mão.
Numa corrida para o táxi mais próximo,
para a saída mais próxima…
Num sobressalto de que ainda fosse possível
que o avião descolasse de novo,
e lhes levasse a preciosa irmã de volta para
“aquele sítio maldito de onde vieste, e que agora é para esqueceres”

Eu fiquei com o meu pai.
Tantas coisas para fazer ainda…
Malas e sacos para recolher no tapete rolante,
Filas e mais filas intermináveis para obter carimbos,
autorizações,
guias.
Papéis e mais papeis!
Tantos papéis!

“- E agora, papá?”
Ele estava cansado, triste, deslocado.
A sua linda cor morena que sempre fora tão igual á de todos,
parecia ali tão mais escura,
tão mais notória, naquele mundo de gente clarinha e cabelos lisos!
Os nossos,
os que eram iguais a nós,
e falavam com a nossa música na voz,
tinham a nossa cor deliciosa
e os nossos cabelos frisados,
e tinham ainda cheiro a acácias e a mar na pele e na roupa,
estavam já espalhados no imenso oceano que era o aeroporto.

Que saudades deles!
O último agrupamento de gente de África que vi!...

“- Agora Glórinha, é esperar e ter fé em Deus”.
E quando o meu pai falava em Deus,
era mesmo sinal de que a coisa era séria.
Ele e Deus viviam um pouco de costas viradas.
Assim parecido com o que acontece comigo ainda hoje.
Por alguma razão desconhecida,
o grande Pai do Céu,
não tem sido muito carinhoso comigo,
e também não foi nada bondoso com ele.

“- Esperar? Vamos voltar para casa?”
Eu sabia que não.
Mas não custava perguntar.
Ele sabia que não.
E sabia que eu também sabia.
Mas não custava responder.
“- Um dia vamos voltar sim, minha filha.
Nem que tenhamos que ir pendurados na asa de um avião.”

Ficámos de mão dada.
Parados,
Num choro sem lágrimas,
Perdidos, desamparados,
Sem mais ninguém.
Num país estranho que não nos queria,
No meio de pessoas desconhecidas que nos evitavam.
Eu e ele, o meu papá do coração.
Eternos estrangeiros.
Tão familiarmente diferentes do resto do mundo todo.

Não voltámos mais á nossa terra linda das acácias em flor.
O meu pai morreu anos depois.
Não esqueceu, não perdoou, não voltou a ser quem tinha sido.
Eu…
Eu continuei a procurar o mar
ao fundo de cada rua.
Ás vezes parece que ainda o vejo,
Brilhante,
A reflectir a luz do sol.

Quem sabe… um dia?
Ontem lembrei-me muito da minha terra.~
Soube-me tão bem falar dela!
Soube-me tão bom ter quem quisesse ouvir-me falar dela…

Há novidades boas que acontecem a cada dia na nossa vida

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