sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 25 de setembro de 2011

Um telegrama para ti

Telegramas, lá em casa, eram sinónimos de más notícias.
Nas duas casas,
na nossa,
a verdadeira de lá longe,
e na outra, na caverna, de cá perto.

Sempre que recebíamos um telegrama,
vinha nele uma noticia de que alguém tinha falecido.
Uma tia,
um tio,
um primo afastado, próximo, direito ou em qualquer outro grau.
Numa família numerosa e cheia de pessoas idosas, como a minha,
aconteciam mortes muito mais vezes do que aquelas de que me quero lembrar.

A maioria dos falecidos era-me completamente estranha.
Não visitávamos muitos parentes,
nem eles queriam muito saber de nós.
Tradição, aliás, que ainda hoje mantemos em família para espanto meu,
que se pudesse vivia grudada em todos,
numa alegria simples de ter pessoas a quem amar.
O meu pai sempre valorizou muito mais os amigos
do que os do próprio sangue.
A minha mãe, essa,
sempre valorizou aquilo que o meu pai mandava valorizar.

De maneira que, pelo menos para mim,
o sofrimento era menos do que pouco.
Lá acontecia que nos vestíamos de preto,
(coisa que abomino
e que agora que posso vestir o que quero,
e,o que consigo comprar,
nunca mais me aconteceu,)
e íamos de flores na mão,
prestar a última homenagem ao desconhecido que se fora.
E passar uns momentos embaraçosos
no meio dos sobreviventes que iam ficando do nosso clã tresmalhado e desavindo.

Hoje lembrei-me dos telegramas...
Lembrei-me do ar solene do meu pai quando os recebia.
Do seu rosto impassível perante a má notícia.
Da minha mãe apressada em murmurar alguma das rezas dela,
encomendando a alma do defunto,
como se a alma estivesse ali á espera do empurrãozinho da oração
para poder seguir o seu caminho.

E lembrei-me também de como eu queria
que num desses telegramas viesse uma novidade alegre!

Alegria para mim,
naquela idade de menina
eram passeios pela mão do meu pai, pelas ruas lindas a ver montras maravilhosas,
subir e descer a marginal, ver o mar turquesa unido num abraço sem fim ao céu azul,
almoçar no Dragão de Ouro e ter a praia aos pés, cheia de areia quente e dourada,
comer um gelado de bola de chocolate no Scala, e ficar com a boca lambuzada,
beber uma Coca-Cola gelada no Continental, e ter direito a escolher um bolo da vitrina,
correr e saltar nas avenidas floridas do Vasco da Gama,
jantar na Costa do Sol, ver o prateado do luar a cintilar como estrelas no mar de breu.

Alegria para mim,
naquela idade de menina,
era não precisar de ter medo.
Olhar em volta e sentir-me em segurança,
saber que tinha um lugar que era meu,
e que ia ficar comigo e em mim para sempre.
Era algo parecido com essa alegria,
que eu esperava sempre que viesse
em cada telegrama que o meu pai abria.

Nunca aconteceu!
“Mas isso agora também não interessa nada.”
Agora sou muito crescida.
Posso muito bem ir aos correios e fazer o meu próprio telegrama!
E enviar boas noticias a quem me apetecer,
até a mim própria para variar..
De repente assaltou-me a dúvida sobre
se ainda existem telegramas…
Se calhar não…
Agora há a internet…
Talvez por isso os tios e os primos velhinhos
pararam finalmente de morrer!
Não os imagino sentados em frente ao computador,
A mandar emais aos contactos de familiares…
Nem os vejo a publicar nos murais de cada um
a noticia triste de quem se foi…
Pois…

Mas seja lá como for,
Por telegrama,
Email,
no mural,
aqui mesmo no blogue,
apeteceu-me mandar uma noticia bonita e alegre a alguém.

Não me lembro assim especialmente de ninguém.
Todos de quem eu gosto e a quem eu amo,
sabem sempre que os guardo no coração.
sabem que não há dia que me não lembre deles,
até dos que estão mais distantes.
Os que me conhecem bem, têm a certeza de que os adoro.

Mas tenho um amigo novo,
muito querido e muito especial para mim,
que nos últimos dias tem enchido o meu coração de alegria,
e que talvez gostasse de receber um telegrama meu...
Assim qualquer coisa como:

Gosto muito de ti- stop
Ainda bem que apareceste na minha vida- stop
Não te vás também embora- stop
Fica por perto- stop
Tem paciência comigo- stop

Não é muito,
Nem é muito comprido,
Mas os telegramas têm que ser com poucas palavras.
Uma vez perguntei ao meu pai porquê.
Ele disse-me qualquer coisa como
“naquelas alturas as pessoas não se lembram de mais nada”,
Mas desconfio bem que fosse porque cada palavra devia ser bem cara,
e daí a necessidade de resumir.
O meu pai, coitadinho dele, sempre achou
que me protegia do mundo não me contando as verdades…
Eu sempre descobri o que queria, sozinha!
… Surpresa, papá?

Assim mando um telegrama ao meu amigo novo,
só para ele ter a certeza de que gosto muito dele,
porque ele ainda não está habituado comigo
e quero que se sinta á vontade.
Não são muitas palavras,
mas ele percebe, é um telegrama…
E é para começar…
Talvez não seja um mau começo…

Talvez um dia eu tenha mais palavras para lhe mandar.

Porque todas as histórias têm que ter um começo.
Fica muito mais bonito do que abrir o livro já a meio…
E demora mais tempo até acabar.

Never ending story?
…não sei, mas costumava acreditar…

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