sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 4 de setembro de 2011

Vale a pena?

“- E tens a certeza de que vale a pena? Estás bem certa do que estás a fazer?”
A minha maninha linda,
claro!
Só ela me podia fazer uma pergunta destas…
Ela sempre teve o condão
de conseguir acertar em cheio com um balde de água fria,
mesmo quando o alvo está a correr,
ou a tentar passar desapercebido.
Ela sempre conseguiu dizer a frase certa,
fazer a pergunta oportuna!
Sem nunca perder o seu ar descontraído,
sem se dar conta da importância que dou ás coisas que ela diz.

Lembro-me de quando éramos as duas bem novinhas…
Eu envolvida nas minhas eternas confusões de namorados que chegam,
namorados que vão,
outros que queriam vir a ser,
outros que não sabiam se ainda eram.
E a minha maninha lá!
A observar e a tentar colocar ordem no meu caos.
Cheia de paciência,
de bons conselhos.
Sempre com a pergunta certa,
incomodativa por vezes…
A única pessoa a quem eu escutava, de vez em quando.
A única que conseguia impedir que eu fizesse
tudo o que o meu coração mandava.
A única que era capaz de me fazer abrandar,
parar,
descansar.

A minha maninha linda,
Que esperava por mim todos os dias,
na esquina ao cimo da nossa rua,
para entrarmos as duas em casa e o nosso pai não desconfiar de nada.
Nem desconfiar de namoros,
nem de rapazes,
nem de motos ruidosas,
nem de grupos marginais de uma juventude solta.
Eu chegava sempre atrasada,
sempre perdida no meio do barulho,
do fumo,
da agitação.
Sempre pelo braço de alguém,
na moto de alguém, de dentro do carro de alguém…
E ela esperava,
séria, reservada, preocupada.
Nenhum dos meus amigos se metia com ela.
Era minha irmã.
Para eles isso bastava para fazer dela intocável.
Para mim,
a minha maninha linda sempre foi mais do que uma amiga,
muito mais do que uma irmã imposta pela natureza,
foi a voz da minha consciência,
o alicerce que me prendeu um pouco á terra,
o eco das palavras da nossa mãe vindas do outro lado do nevoeiro,
da outra ponta do túnel.

“- E tens a certeza de que vale a pena? Estás bem certa do que estás a fazer?”
Se fosse outra pessoa a perguntar,
virava simplesmente as costas,
sem responder mal,
porque sou uma pessoa bem educada,
e vinha-me embora sem me importar.
Mas como era a minha irmã querida,
vi-me na obrigação de a atender.
Falei-lhe das minhas tristezas,
algumas das quais ela nem suspeitava,
tão descansada andava por ter a irmã rebelde finalmente confiada a alguém,
entregue,
sossegada e espartilhada.
Falei-lhe dos meus mais de vinte anos de amargura,
de impotência,
de tentativas obstinadas,
de solidão.
Tentei fazer com que ela entendesse que vale sempre a pena
lutar para se tentar ser feliz.

No fim,
acho que ela percebeu as minhas razões.
Entendeu o que se passava na minha cabeça.
Foi capaz de colocar as minhas frases emocionadas,
de forma a ficarem parecidas com um discurso coerente,
com aquele mínimo de lógica que ela sempre precisa de encontrar
em alguma coisa,
antes de concordar seja com o que for.
Só não aceitou muito bem,
que houvesse já outro amor na minha vida.
Na cabeça bem planeada dela,
foi uma coisa que levou ao fim da outra,
enquanto a verdade é que a outra tinha chegado ao fim,
assim mal que começou.
Foi o meu hábito estranho
de tentar insuflar vida em coisas que estão mortas
de tentar reanimar corpos apagados,
de não sair de uma situação,
sem antes ter eliminado todas as hipóteses de dar certo,
que fez com que tivesse durado tanto tempo.

“- E tens a certeza de que vale a pena? Estás bem certa do que estás a fazer?”
Estou certa.
Mas saber que estou certa,
não implica saber explicar o porquê de achar que estou certa.
Estou certa de que vale a pena acordar de manhã e respirar com gosto o ar frio.
Levantar os olhos para o céu e acompanhar a primeira nuvem rosada no horizonte.
Abrir os braços ao sol e só apreciar o calor a lamber-me toda, devagar e com gosto.
Poder rebolar em qualquer campo verde de qualquer floresta do mundo.
Apanhar flores, picar-me nos espinhos, lamber o sangue na ponta do dedo e ser feliz.
Ir até á beira do mar, molhar a roupa, e não fazer mal nenhum.
Dançar debaixo da chuva, os cabelos mais compridos colados no rosto,
os carros a buzinarem, os motoristas a acenar, o mundo na palma da mão.
Á noite ficar deitada, olhar as estrelas, os planetas,
não saber distingui-los uns dos outros e não me preocupar com isso.
Deixar a minha porta sempre aberta,
O trinco corrido para trás,
O cão preso na casota para não ladrar.
Deixar uma luz acesa no corredor para quando ele chegar.
Esperar deitada na minha cama,
até sentir o som dos passos dele no corredor.
Beijá-lo, abraçá-lo,
devagarinho, com calma,
ou depressa , com ardor,
E não fazer mal nenhum!
E não ter medo nenhum!
E ser tão bom, bom demais!
Deixar que ele me dispa, me enlouqueça,
me faça perder a noção do tempo, das horas,
me faça gemer e suspirar.
Me faça sua e entre em mim devagar, com cuidado, com carinho.
E que quando já não der mais para segurar,
me beije e diga que me ama e que me adora.
E que fique depois,
não tenha pressa de ir embora…
Pode lá haver melhor do que isso?
Haverá algo que valha mais a pena?
Mas como se explica uma coisa destas
a uma irmã calma, tranquila e ajuizada?
Como se justifica o amor, a paixão, o desejo
quando ela simplesmente pergunta:
“- E tens a certeza de que vale a pena? Estás bem certa do que estás a fazer?”





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