sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 30 de outubro de 2011

Quem me quiser...

Quem me quiser

Tem que ter tempo para mim.
Preciso de atenção, de cuidado, de carinho.
Não fico feliz só com um bom dia de vez em quando.
Nem com uma mensagem bonita uma vez por semana.
Tão pouco com uns beijinhos uma vez por mês.

Quem me quiser

Tem que saber que não leva só uma namorada.
Leva também um passado inteiro, uma vida completa.
Marcas e cicatrizes que ainda doem muito sempre que o tempo muda.
Recordações e lembranças que não consigo apagar, nem esquecer.
Restos e vestígios de tantas vidas diferentes numa mesma vida.

Quem me quiser

Tem que ter paciência comigo.
Porque eu demoro o meu tempo até entregar o coração.
Porque tenho medo do escuro e do nevoeiro, mas amo os trovões e a tempestade.
Sou capaz de chorar um dia inteiro e á noite já ser a mais feliz das mulheres.
Posso-me esquecer de fazer o jantar, mas posso já saber o que vai ser a ceia de Natal.

Quem me quiser

Tem que estar preparado para ter muitas mulheres numa só.
Para ter a que sorri, a que é encantadora, amável, graciosa e apaixonada,
Mas também para a que é arredia, insegura, carente, infeliz e solitária.
Não há maneira de me fechar dentro de uma só pessoa,
Nem de me definir de uma só maneira.

Quem me quiser

Tem que me tratar com cuidado, com mimo, sem pressas, sem irritações.
Vai ter de me cativar muito antes de me beijar, de me abraçar.
Precisa de ir devagar, com calma para não me assustar.
Se eu fugir, se eu me espantar, se chego a bater asas e voar,
Não há apito de tratador que me faça regressar,
Nem biscoito ou guloseima que me convençam a pousar.

Quem me quiser

Tem que saber que muitas vezes choro de noite, não consigo dormir.
Vejo sombras e vejo vultos, ouço vozes do passado.
Sinto como se me quisessem agarrar, puxar, levar com eles para não sei onde,
Porque sempre tive medo de lhes perguntar.
Nessas ocasiões, posso ser incómoda, posso fazer barulho, posso precisar de um abraço.
Quem estiver na minha cama, pode não conseguir descansar.
Para quem trabalha muito, tem muitos compromissos, isso pode atrapalhar.

Quem me quiser,

Tem que me dar muitas oportunidades, não pode desistir á primeira dificuldade.
Porque eu posso ser insuportável, teimosa, absurdamente irritante e intratável.
Não sou sempre a cara bonita e sorridente, nem a mulher interessante que pareço ser,
Consigo mudar com a mesma rapidez
Com que o sol se esconde atrás das nuvens e volta a reaparecer.
E não faço de propósito, ou porque ache fascinante ser instavelmente desconcertante.
Apenas acontece desde sempre, e faz parte de mim.

Quem me quiser

Se conseguir ficar comigo
Para lá dos ventos e das tempestades,
Para lá dos choros e das saudades,
Das mudanças de humor e de estado,
Fica com muito mais do que uma namorada.
Fica com um pedaço do universo selvagem e louco
Incontido e inexplorado.
Livre e sem freios nem arreios,
Fechado,
Encerrado,
Mal contido
Num corpo bonito de mulher.

            Dei-te muito trabalho, não dei? Eu sei…

sábado, 29 de outubro de 2011

Nunca te vou esquecer

Ande eu por onde andar,
Tome a minha vida o caminho que tomar,
Aconteça o que acontecer
Nunca te vou esquecer.
Não sei ainda por onde hei-de ir,
Não imagino por qual estrada decidir,
Mas seja lá qual ela for,
Vais ser para sempre dono do meu amor.

Que interessa se outro me vai abraçar,
Se outro me vai beijar?
No momento em que tudo acontecer,
É pensando em ti que terei prazer.
Porque aprendi contigo que temos de nos deixar ir,
Não há nenhum mal em fazer o que o corpo pedir.
Mas o meu desejo por ti será sempre maior,
Do que qualquer vontade que eu tenha de fazer amor.

Mesmo que seja outra mão no meu corpo a tocar,
Mesmo que seja outra mão que suba por mim a acariciar.
Se eu suspirar, se eu gemer,
É porque de olhos fechados, ainda és tu quem me está a mexer.
Quando eu gostar, quando eu deixar ir,
Hei-de ouvir-te no meu coração, a pedir permissão para seguir.
Se for muito bom, se for bom, ou só se for,
Em meus sonhos será sempre para ti o momento melhor.

E se depois do amor me apetecer ficar,
Se me apetecer falar, se me apetecer conversar,
Conversarei contigo sem mesmo te ver,
Do mesmo jeito carinhoso que nós costumávamos fazer.
Porque connosco era sempre tão bom o momento a seguir,
Enquanto o mundo lá fora ainda mal se fazia ouvir.
E se ele recomeçar a beijar-me com ardor,
Vou escutar-te a dizer “Devagar é sempre muito melhor”.

Não vás para tão longe, não me voltes a deixar!
Vem tu ter comigo, vem-me tu buscar!
O lugar é outro, não podia deixar de ser…
Aonde fiz amor contigo, com mais ninguém vou fazer.
Mas tu encontras o caminho, sabes sempre para onde ir,
Que estrada tomar, que direcção seguir.
Fica comigo, seja lá aonde, seja lá em que cama for.
Não me encontrares seria muito pior.

Amo-te tanto!
Não encontrei ninguém que me fizesse esquecer-te.
Tenho saudades tuas… demais!
Sabes que ainda estou por aqui.
Não vou a lado nenhum.

Lembras-te do que me costumavas dizer?
BOTDM Prazer..

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Uma coisa tão pequena...

A gaiola do periquito nunca mais foi limpa…
Reparei nisso hoje.
Agora,
pela madrugada.
Tenho andado tão atarefada,
Tão perdida,
Tão assustada,
Que me esqueci dele.
Nunca era eu quem a limpava…

E de repente,
No meio de tantos problemas,
Tantas dúvidas, tantas outras questões,
O que mais me tocou,
mais me chocou,
O que me fez vir as lágrimas aos olhos,
Foi mesmo aquilo,
A gaiola do periquito nunca mais foi limpa…
E fui eu quem quis trazê-lo comigo...

Tenho-me sentido como aos catorze anos.
Quando ganhei as ruas todas para mim.
Quando mais ninguém me ia pôr
Ou buscar á escola.
Passei a escolher a minha roupa de manhã,
Passei a almoçar só se queria…
De repente,
No fim de tantos anos,
Uma vida quase,
Voltei a sentir-me assim.

Naquela altura,
Era uma miúda.
Podia tudo,
Tinha todo o tempo do mundo.
Fiz tudo o que nunca tinha podido fazer.
Fui de encontro a todas as vidraças porque não sabia voar.
Queimei-me em todas as luzes quentes,
Porque não fui capaz de as evitar.

Durante aqueles anos de liberdade,
Que foram bons
Que foram únicos,
Que foram tão poucos,
Amei tudo o que sempre tinha querido amar.
Beijei toda a gente com os beijos
Que nunca tinha tido a quem dar.
Perdi-me em todos os abraços
De quem me apeteceu abraçar,
Porque não sabia bem quando parar.
Porque me tinham ensinado,
A comer com talheres de peixe,
A descascar a laranja com uma faca e um garfo,
A nunca sair da mesa sem pedir licença
Mas nunca
Ninguém me tinha ensinado a amar.
E não foi por falta de eu ter pedido,
Foi porque ninguém pode dar,
Aquilo que não tem para partilhar.

E agora,
De repente,
Fiquei outra vez sozinha.
Sem ninguém para me controlar.
Sem ninguém para me pôr horários,
Para me trancar,
Para me forçar a ir se eu não quiser ir,
A ficar sem eu querer ficar.
Livre de poder ou não almoçar.
Livre de poder ou não amar.

Ganhei as ruas outra vez.
Fui á reconquista das minhas ruas antigas.
Fui vê-las, tocar-lhes, cheirá-las.
Dizer-lhes que voltei.
Pedir-lhes que me perdoem a ausência,
Que continuo a gostar delas.
Nunca as esqueci.
Nunca encontrei quem mas fizesse esquecer.
Troquei-as por um punhado de ilusões,
De esperanças,
De ideias mal arrumadas numa cabeça eternamente desarrumada.
Mas nunca fui tão feliz como quando saía de manhã,
O fresco a soprar no rosto,
O vento a levantar a saia.
A ansiedade da novidade de cada dia,
De cada “vamos a ver hoje o que virá”.

Descobri ruas novas,
Amores novos,
Beijos e abraços que não tinha chegado a experimentar.
Que estava esquecida que se podiam dar.
Prazeres que não tinha ainda descoberto,
Sensações novas para me encantar.
Apaixonei-me,
Amei,
Sofri, chorei,
Vivi mais nestes últimos tempos do que nos últimos vinte e cinco anos…

Encontrei-me de novo comigo própria.
Readquiri o meu gosto pelo sol,
Pelo céu,
Pelo vento e pela chuva.
Pelas coisas lindas que a vida pode dar,
Que me tinha esquecido como são belas,
Que me fazem de novo sonhar.
E voltei a cantar, a rir, a gostar de mim no espelho
A andar balançada, a apreciar as gracinhas que me dizem na rua.

Deixei para trás o meu mundo cinzento.
Cheio de horas certas para todas as coisas do dia.
Cheio de rotinas inalteráveis para tudo o que acontecia.
Contas para pagar destinadas a cada mês,
Listas e mais listas de compras, de mercearias.
Dei um pontapé em tudo o que me afligiu durante tantos anos!
Atirei para longe o sofrimento atroz de ser sempre perfeita.
Ser sempre exemplar.
Saber sempre tudo.
Conseguir fazer sempre tudo.

Estava sufocada,
Estava asfixiada,
Estava a morrer e ninguém queria saber.
Nunca ninguém apareceu para me ajudar.
Nunca me perguntaram se eu estava bem,
Se chorava,
Se era feliz,
Desde que ficasse entregue,
Sossegada…
Desde que não arranjasse confusões,
Que não voltasse de novo a acordar
Com os meus sonhos, as minhas loucuras,
A minha sede doente e insaciável de amar…
Porque eu sempre dei muito trabalho,
Sempre fui muito difícil de segurar,
Estavam todos muito cansados de me aturar…

Feliz?
Não sei se estou feliz.
Sei que tenho medo,
Que me sinto perdida, confusa, sem chão.
Que estou muito sozinha.
Sei que tudo tem um preço.
E que o preço de querer ser feliz
Pode ser mais alto do que aquele que eu consiga pagar.
Sei que ainda choro,
Ainda fico triste, e ainda quero colo.
Só que agora pelo menos já não há ninguém
Para me mandar calar, limpar o nariz e continuar.
Nem ninguém para me obrigar
A dar o que eu não queira dar.

Mas a gaiola do periquito nunca mais foi limpa,
E isso...
Quase me fez chorar.
                         
                  Procurei-te, como sempre não me pudeste falar...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Podia ter sido maravilhosa!

Às vezes penso
que se não fosse ser assim como sou,
podia ser uma pessoa maravilhosa!...
Penso em todas as vezes
Em que me senti feliz,
Em que ajudei alguém a ser mais feliz,
Em que me bastou um tão pouquinho de nada
para mudar o mundo de uma pessoa do dia para a noite.

Penso em todas as alturas
Em que acreditei que o fim tinha chegado,
e em todas aquelas em que mesmo do fundo do meu mais profundo abismo,
consegui ainda assim sorrir,
Abraçar alguém,
Fazer um carinho,
Trazer um bocadinho de esperança!...

Meu Deus,
Eu podia ter sido uma pessoa maravilhosa!...
Não fora ser assim
Do jeito estranho e manhoso que sou…
E sou capaz de falar quando me apetece ficar muda a chorar.
E tenho a habilidade de me interessar a sério
por todos que estão perto de mim,
Mesmo nas ocasiões em que me sinto mais só
do que o mais solitário dos sozinhos…
E tenho sempre uma palavra de ânimo para dar,
sempre um ombro para emprestar a quem quer conversar, chorar.
E ouço tudo, e aconselho, e sorrio, e presto atenção.
E fico feliz por poder ajudar!
E fico contente por poder ser útil.
Por poder secar uma lágrima.
Ao mesmo tempo em que morro por dentro,
Ali ao lado de uma multidão apressada
Que nem me vê, nem me enxerga, nem me nada.

Que maravilhosa pessoa eu era para ser!...
Se não tivesse nascido assim,
Desta forma desequilibrada e manca de alma, como sou…
Quanta coisa bonita não podia ter feito!
Quantas obras lindas!
Quantas pessoas podia ter feito mais alegres, mais contentes!
Era para poder ser um sol a brilhar,
e não consegui ser mais do que um reflexo pálido,
de uma lua morta
que teima em piscar.

E tinha sido capaz!
Sei que tinha, sim…
Sou simpática, sou bonita.
Sei falar bem.
Percebo o que me dizem, o que não me dizem,
mas deixam no ar como um rebuçado para eu apanhar.
Tenho bom coração.
Gosto das pessoas e sei que tenho algo que não sei,
mas que faz com que também gostem de mim,
Então porquê?
Porquê eu tinha que ser nascer assim?

Que pessoa maravilhosa que eu podia ter sido!
Se não fosse ser da forma desusada como sou…
Tanto trabalho que dei!
Até para nascer!...
Já nasci a incomodar quem estava á volta,
a atrapalhar quem me queria bem.
a fazer a vida do mundo inteiro sair do trilho normal,
Já nasci a desinquietar, a confundir…
Porque não era para ser…
Mas mesmo assim,
acabei por acontecer.
E tanto trabalho que dei!
Tantas preocupações,
Com o meu feitio instável,
de borboleta assustada que teima em querer voar
mais alto do que as águias,
quando não passa de uma lagarta feia
a quem cresceram asas…

Mas cresci assim,
perdida, desconsolada, inquieta…
Sempre em busca de consolo, de carinho,
de colo.
Distribuindo sorrisos e ternura,
Encantando mesmo quando não queria encantar.
Porque se calhar a pessoa bonita
que está dentro da trapalhada e do caos que eu sou,
mesmo assim, sufocada e esmagada,
Se consegue mostrar,
se consegue deixar adivinhar…

Mas porque é que tinha que ser assim?
Porquê comigo,
Porquê a mim?
Podia ter sido tanto!
Ter chegado tão longe!
Fazer o mundo mais feliz…
E afinal, fiquei por aqui,
por ali,
por todo o lado,
e em todos os caminhos
 aonde não era para ter ficado.
Gastei o meu amor,
Com quem não me podia nunca ter amado.
Dei sempre o coração
A quem nem o queria emprestado.
E fiquei assim,
tombada meio de lado.
Como um navio que naufragou,
sem nunca ter verdadeiramente navegado.

Que pena!
Que pena que nasci assim!
Podia ter sido tão linda…
Podia ter sido feliz,
Podia ter sorrido um sorriso sem fim.

Se não fora o ser assim…

                        Foi por isso, não foi? Que não gostaste mais de mim?

Quis ir lá pôr flores

Para o meu amigo querido que ontem notou o meu atraso a publicar o texto:
            Bom dia! Hoje consegui mais cedo. Espero que gostes. Beijinhos para ti.




Quis ir lá pôr flores.

Ontem fui para os meus lados antigos…
Aonde vivia quando cheguei a Portugal.
Já tinha visto que a antiga caverna já lá não está.
Sabia que muitas lojas fecharam, e outras abriram.
Muita coisa ficou diferente
nestes mais de vinte anos
em que andei divorciada
das ruas e das esquinas,
aonde acabei de crescer,
e que foram a minha casa
durante tanto tempo!

Sabia de muita coisa diferente.
Só não sabia que me tinha esquecido
do caminho para eles…
Comprei as flores.
Pouquinhas
porque a floreira da gaveta é pequenina
e não tem espaço para muita coisa.

Subi e desci vezes sem conta
aquelas ruas e avenidas
da cidade dos mortos.
Morta de pavor,
Porque tenho um medo inexplicável e absurdo da quietude
que se vive dentro dos cemitérios.
Faz-me uma falta danada o movimento,
A alegria das pessoas,
O som das conversas
e das gargalhadas.

E acho que não combino bem
com o ambiente morto daquela nação de mármore.
Rio demais,
ando balançada demais,
tenho cabelos irrequietos demais,
que teimam em voar e deixar rasto
no meio das árvores frias
que nem folhas têm para abanar.

Não me consegui lembrar exactamente do lugar…
Sei que era naquela rua,
Naquela parede estranha,
cheia de gavetas, inscrições,
fotografias assustadoras
de pessoas que sorriem desde o outro lado do tempo…
Flores sem alegria e sem cor,
que espreitam espetadas de qualquer maneira
dentro de caixinhas de lata ferrugentas.
Sem conseguirem alegrar,
nem trazer viço
áquela montra imobilizada para sempre,
gelada para sempre…

Um casal idoso parado por perto,
rezava.
A senhora chorava,
de terço na mão.
O senhor que a acompanhava,
olhava tristemente para a frente,
na esperança de ver quem passava.
Tão sozinhos,
ali os dois!
Parados, escuros,
Murchos como as flores que os rodeavam.
A rezar…
Não resisti.
Dei um sorriso ao senhor velhinho
e acenei-lhe com a mão.
Ele sorriu-me de volta,
Levou dois dedos ao chapéu,
levantou-o um pouco da cabeça…
Como o meu pai sempre fazia
para cumprimentar alguém na rua.
De boa vontade lhes teria dado um beijinho,
e ficado por ali
a conversar com eles.

Mas o meu filho,
horrorizado com a minha falta de compostura
já reclamava ao meu lado,
já me dava toques no braço,
envergonhado.
Coitado!
Sofre sempre que sai comigo…
Não percebe que eu gosto de sorrir,
de falar,
de ver os outros contentes.
Que não me interessa o que vão pensar,
ou o  que vão dizer.
Se me apetece sorrir,
sorrio.
Se me apetece meter conversa, meto conversa.
E as pessoas gostam de mim.
E eu sinto-me feliz assim.
Nem sempre me consigo sentir feliz…
Tenho que aproveitar…

Mas não encontrei a gaveta deles.
Não fui capaz de me lembrar…
Como voltar a casa e não dar com a porta…
Meu papá,
minha mamã.
Esquecidos,
Confusos e perdidos naquele labirinto de fechaduras,
De nomes e de fotografias.
Guardados para a eternidade,
Ao lado um do outro.
Ossos misturados com ossos.
Numa comunhão que nunca tiveram em vida.
Sem fazerem barulho,
Sem discutirem,
Sem se magoarem mais…
Sem conseguirem ser encontrados
nem por mim.

“. E que tal pores as flores numa gaveta qualquer
e irmos embora daqui?”
Foi o que fiz.
Afinal eles já não as vão cheirar,
Nem ver,
Nem se vão alegrar com a visita da filha
que nem conseguiu dar com a ultima morada deles.
Quase consegui ouvir
o meu pai,
na sua voz calma dos dias bons
“- Deixa a pequena! Ela é distraída, mas é boa rapariga!”
E a minha mãe que lhe responderia algo como
“- Lá estás tu a desculpá-la! Olha o resultado!”
Não quis procurar mais.
Coloquei as flores numa floreira vazia.
Numa gaveta sem inscrição,
Como a deles também não tem.
Anónima,
Discreta,
Sem dar nas vistas,
Sem se fazer notar.
Como eles sempre gostaram de ser,
Como sempre quiseram viver.
Tão diferente de mim!
Que sou tão sorrisos,
Tão gargalhadas,
Tão lágrimas e soluços!
Tão paixão e desejo!
Tão amor e solidão…

E viemos embora.
O meu filho entediado.
Com os olhos postos no vulto do Colombo, lá perto.
Eu,
triste,
Envergonhada comigo própria.
Não me lembrei!
Não me consegui lembrar!
E fui lá tanta vez!

O casal de velhinhos ainda estava por lá.
Sorriram-me os dois, desta vez.
Acenaram-me os dois.
Pareciam mais felizes,
menos abandonados e menos murchos,
do que as flores inúteis á volta deles.
“- Deus a guarde, minha filha! E lhe dê muita saúde e muita alegria!”
Não me importei com o meu filho,
que em desespero me puxava pelo braço.
Fui ter com eles e dei-lhes um abraço.
E um beijinho.
Que eu não sou mulher de abraçar,
sem beijar.

Afinal não foi assim tão mau!
Alegrei um bocadinho o dia daquele casal amoroso!
E senti-me mais feliz também.
Para a próxima,
tenho que ir aos serviços administrativos
perguntar o número da gaveta.

É que eu sou assim!
Quase nunca me lembro das soluções mais práticas!
Tão mais simples ter perguntado logo…

Mas não.
Prefiro sempre experimentar se consigo sozinha,
Se sou capaz.

Nunca soube muito bem quando deixar de tentar…