sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Brincos de princesa

Brincos de princesa…

Estava a arrumar as coisas que vou levar comigo.
Bem no fundo duma gaveta estavam eles.
Ainda amarelo-dourado.
Ainda brilhantes…
Brincos de princesa.

Quando ele mos ofereceu, disse
“ nunca os ponhas, sem que te lembres de mim.”
Continuei a lembrar-me dele,
mesmo muito depois de já não usar os brincos.

Amarelo-dourado,
Feitos com mil continhas de vidro,
Parecidos a um cacho de uvas maduras,
Ou a gotas de sol caídas do céu.
Compridos, cintilantes,
Tão frescos ao toque,
Tão lindos de olhar…

“Brincos de princesa para a minha princesa”
E as pedrinhas dos brincos roçavam-me no pescoço,
Prendiam-se entre os caracóis dos cabelos.
E ele ajudou-me a colocá-los,
Segurou as madeixas rebeldes,
Aproximou o rosto do meu.
Perigosamente perto,
Tentadoramente perto.

Saudades…

Tantos anos…
Os brincos de princesa,
Para uma princesa que renunciou ao trono.
Que deixou o seu príncipe para trás.
Lindos,
Tão lindos!

“Nunca os ponhas sem que te lembres de mim”
Lembro-me bem demais…
Para onde foste tu?
Que destino encontrou o teu caminho?
A tua princesa no exílio
Ainda se recorda de ti.

Lá, perdidos no fundo da gaveta.
Como perdida tenho andado eu.
Esquecidos de brilhar ao sol,
esquecidos de enfeitar o meu pescoço,
Numa angústia muda de amante abandonado.

Estariam tão perdidos,
Como perdida ando eu,
Se a princesa tivesse ficado na sala do trono?
Se não tivesse sonhado
Com bons comportamentos,
E casamentos ajuizados?

Se tivesse continuado a viver no calor do sol,
No verde dos campos,
Nos gelados sem colher,
Na moto a voar por sobre o alcatrão,
Em qualquer lugar,
Em qualquer chão,
Ou mesmo sem chão,
Sem lugar
Só porque sim,
Só porque dava vontade,
Muita vontade!
Só porque era tão bom, bom demais!

Brincos de princesa,
Para uma princesa sem par,
Sem príncipe encantado,
Sem vestido de rendas.

Nunca os pus sem que me lembrasse de ti.
Nunca deixei sequer de me lembrar de ti.

Estive bem perto do nosso reino antigo
no outro dia.
Perigosamente perto.
As mesmas ruas,
As mesmas árvores,
Até aquela estátua
que era a nossa sala de visitas ainda lá está.

A escola aonde me ias buscar todos os dias
Sempre que podias,
As minhas colegas que ficavam invejosas,
Presas no teu falar malandro,
Nos teus olhos verdes brincalhões…

Brincos de princesa…
Quis pô-los de novo.
Fez-me falta a tua mão.
Para me segurares nos cabelos,
Para respirares junto ao meu ouvido.
Saudades…

2 comentários:

  1. Linda poesia, querida amiga, Não mais consigo postar comentários em seu blog, que pena! saibas que leio sempre seus belos textos e admiro-os como dantes. Não recebeste o meu e-mail?Aguardo resposta. A amiga Cristina.

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  2. Olá, querida Cristina,
    Recebi o seu email, sim. E respondi. Mas já reenviei. Talvez se tenha perdido por aí, nalguma estrada virtual :) Agora não tenho ido muitas vezes ao meu email, e tenho deixado juntar correspondência. Mas, sempre que consigo, dou uma espreitadela por lá.
    Obrigada pelo seu comentário! Não sei porque não consegue colocar mais comentários... Não mexi em nenhuma definição. Mas como hoje conseguiu, pode ser que o problema tenha simplesmente, como deviam fazer todos os problemas da vida.
    Que bom que continua a gostar dos meus textos! Já lá vai um bom tempo, não vai Cristina? A Cristina foi a minha primeira seguidora! Fiquei tão feliz quando a descobri no meu blogue! Gosto muito, muito de si. Não se vá embora. Mesmo que eu demore a responder, ou ande um pouco desaparecida. Ando a tentar pôr a minha vida nos eixos. E está difícil demais! Mas sou muito sua amiga, como dantes.
    Já acabei de ler o Fatal. Gostei muito. Já tinha ouvido falar da possível relação entre as vacinas e o autismo. Tudo muito dentro ainda das possibilidades, tudo ainda muito no inicio, para que possa ter algum efeito já agora. Mas a história é linda! E acabou bem, o que ainda fez dela maias bonita!
    Espero que esteja tudo bem consigo e com todos os seus. Escreva a dar novidades!
    Beijinhos para si, da amiga
    Glória

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