sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 8 de outubro de 2011

Chorar sozinho dói demais!

Naquele primeiro ano,
o Pai Natal não veio.
No ano seguinte provavelmente também não.
Mas o primeiro foi o que me ficou na recordação.

Nem houve árvore de Natal montada na sala grande das visitas.
Claro, não tínhamos árvore nenhuma,
nem sequer havia sala,
quanto mais visitas…

Nem fizemos o presépio enfeitado com estrelas e pastorinhos.
A árvore gigante, as fitinhas, as bolinhas e as luzes,
até os bichinhos do presépio,
estavam todos bem guardados,
encaixotados e embalados,
a apodrecer no cais húmido, num porto qualquer.

O meu pai não limpou o pó,
como costumava todos os anos,
ás correntinhas de luzes com figuras sorridentes,
anões, anjinhos,
sinos e penduricalhos.
A minha mãe, não dispôs as bolinhas de forma
a que as maiores ficassem em baixo,
e as mais pequenitas fossem lá para cima,
aonde a árvore quase batia no tecto
e aonde pendurávamos a estrela de Natal.

Nem fizemos fritinhos, fatias douradas,
Coscorões ou bacalhau com couves.
Não houve bolo-rei, nem chocolates de prata bonita.
Nada disso me fez muita falta.
Eu sabia,
Eu percebia bem
que as nossas coisas estavam longe.
Sabia que o meu pai não tinha ainda emprego
e que não havia nem dinheiro para comer.

O que me doeu tanto, foi no dia seguinte ver o sapatinho vazio…
Porque se até o Pai Natal e o Menino Jesus
se tinham esquecido de nós,
então é porque as coisas estavam mesmo muito mal!

Hoje em dia as crianças não acreditam em Pai Natal,
Nem em prendas que vêm do Polo Norte puxadas por um trenó.
Eu acreditava!
Por isso me doeu tanto!
Não me passou pela cabeça que a falta de dinheiro
tivesse alguma coisa a ver com…
Senti que estávamos completamente abandonados,
naquela casa miserável,
numa terra estrangeira,
cercados por pessoas de cara mal disposta.
E que nunca mais as coisas e a nossa vida
voltariam a ser como eram dantes.

A minha mãe explicou que o Pai Natal
ainda não sabia aonde era a nossa casa agora.
Mas que para o ano,
com certeza já teríamos a nossa habitual montanha de presentes
a tapar o tapete,
numa cascata incandescente de laçarotes e fitinhas penduradas.

Não acreditei lá muito.
Desconfiei que ela estava quase a chorar.
Pareceu-me que o meu pai mordia os lábios
e arrepelava os bigodes,
como sempre fazia quando ficava furioso.
Não ter presentes e ter que lidar com a fúria do meu pai,
era maldade a mais!
Engoli o choro,
calquei os soluços e fui para a rua
ter com a minha maninha linda,
que na inocência da sua pequenez feliz,
mal se dava conta que não tinha brinquedos do Pai Natal.

Foi o primeiro ano em que O lá de cima me faltou.
Em que me senti tão infeliz e perdida,
como se o mundo todo se resumisse ao meu pobre sapato vazio!
A gente cresce
e tende a esquecer-se das tristezas da infância.
Eu não!
Sofri tanto naquele dia,
como em muitos outros da minha vida adulta!
Não interessa a importância,
nem o tamanho do que nos acontece.
Interessa a forma como o vivemos,
e o quanto nos faz doer no coração.

Naquele primeiro Natal,
Não tivemos presentes,
Nem visitas de tios e primos.
Nem tirámos fotografias encostados à árvore bonita,
Nem fomos almoçar fora,
como fazíamos sempre no Dia de Natal.

Pior,
muito pior do que isso,
cada um de nós chorou separado,
escondido por trás das suas lágrimas invisíveis.
Como se vivesse cada um sozinho e abandonado.
Ainda hoje não percebo,
o porquê das pessoas sofrerem sozinhas.
O porquê de terem medo de pedir ajuda,
de não se conseguirem apoiar em quem está perto.
Qual a razão que leva a que se afaste quem nos quer bem,
qual o prazer de ficar isolado,
saboreando o sofrimento numa ilha deserta de vida,
e deserta de emoções…

Quem sabe se se naquele primeiro Natal,
em terra estranha,
sem bacalhau nem couves,
se tivéssemos conversado e enxugado as lágrimas uns aos outros,
quem sabe o Pai Natal,
não se comovia e nos abençoava!
Se não com brinquedos,
porque a noite de consoada já tinha passado,
mas com uma chuva de paz,
de amor e de tranquilidade!

A vida ensinou-me que
até mesmo as divindades se conseguem comover
se as aborrecermos e lhes pedirmos bastante.
Até o Pai Natal pode ser levado a voltar atrás e rebuscar no saco
por alguma prenda esquecida,
se formos capazes de descobrir
a linguagem certa para lhe falar ao coração.

Enquanto acreditarmos que os milagres existem,
eles podem sempre acontecer na nossa vida.

Se chorarmos juntos,
sofremos menos.
Se confiarmos juntos,
conseguimos convencer o mundo a gostar de nós.

Ficar sozinho dói demais.
Desistir do que gostamos também.
Mesmo sem vontade,
Podemos deixar que quem gosta de nós se aproxime.
Ao menos para dar um beijinho,
Pegar na mão,
E fazer um carinho no rosto.
Simples assim…
Fácil assim…
Bom assim.

Posso?
Sem compromissos…?

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