sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Como andar de bicicleta...

Ontem fui ver o armário das panelas,
para escolher quais levar comigo, quais deixar para trás.
Lá estavam elas…
As formas de fazer bolos.
Redondas, rectangulares,
Formas de tartes, de queques e madalenas,
de pudins.
Os tabuleiros de levar ao forno,
dos assados, dos gratinados…

Cada forma uma lembrança.
Cada tabuleiro uma recordação.
Todas tristes.
Todas desconsoladoramente tristes…

Vi-me a mim própria,
na minha bata de cozinha.
Afogueada e despenteada,
debruçada sobre o fogão.
Sempre com algum bolo no forno,
na panela eléctrica.
A ver o relógio…
Mais cinco,
mais dez minutos…
Cozido…
Quase cozido,
Tostado demais,
De menos.
Perfeito! Desenformar…

Bolachas crocantes na lata de beber café.
Pão quentinho na máquina de fazer pão.
Um cheirinho bom a cera e óleo de cedro
espalhado pela casa toda…
Um sorriso no rosto,
Ao abrir da porta.
Esperança triste no coração.

Tanta luta!
Tanto esforço,!
Tanta dedicação…
Para nada.

Quando somos novos não pensamos,
dizem.
Eu pensava demais,
Como ainda agora penso.
Eu queria muito.
Queria tudo.
Marido, filhos,
casa, emprego.
cão, gato, periquito,
Queria a tal cerca branca…
E fritinhos no Natal,
e amêndoas na Páscoa.
E amor na cama.

E esforcei-me.
Palavra que me esforcei!
Fiz tudo o que pude,
e fiz o que não era para ter podido também.
Mas nem mesmo o impossível que fui capaz de fazer,
chegou para dar vida ao meu sonho de história de fadas.

Tantas formas!
Tantos tabuleiros…
Tantas receitas novas
Que ficaram por experimentar…
Tantas que ainda sei de cor…
Tudo restos de um mundo que gostava de esquecer.
Muitos anos encaixados,
enfiados uns nos outros,
por ordem de tamanho,
de largura,
de utilidade,
bem arrumados e guardados
dentro do armário das panelas.

O chão há muito que deixou de receber cera.
Os móveis esqueceram-se do óleo de cedro.
Era tudo inútil!
Tudo sem préstimo algum,
a não ser o de continuar a parecer,
que tinha a vida perfeita.
que tinha a família perfeita.
Tudo para continuar a merecer
a admiração e o respeito
de quem comigo se cruzava na rua.
Tudo para continuar a poder acreditar
Que talvez amanhã,
Quem sabe se para o mês que vem
Para o ano,
Daqui a dois anos,
No fim da vida…

Não vou levar comigo as formas de fazer bolos.
Nem os tabuleiros de ir ao forno…
Prefiro antes os bolos de pacote,
E os assados de saquinho de plástico.
Não criam ilusões,
Não alimentam fantasias.
Não prometem mais do que aquilo que são.
Simples pedaços de alimento,
Sem mais nenhum poesia,
A não ser a de matar a fome
E tirar a vontade de comer.

Quem vier depois,
Se vier alguém depois,
Não vai chegar a saber
que eu fazia um bolo de chocolate maravilhoso…
E não me vai pedir para fazer jantares especiais,
E não me vai fazer sonhar mais
com uma vida de história de fadas.

Quem vier depois, se alguém vier depois,
Vai ter que ter muita paciência comigo.
Queimei-me muito no fogão,
Salpiquei-me com muito óleo de fritar pastéis.
Preciso de um tempo.
Durante um bom tempo,
vou ficar pelos simples ovos estrelados.

Mas existem receitas que ainda sei fazer de cor
Não se esquecem,
É como andar de bicicleta,
É como fazer amor.

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