sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Como decorar uma sala

Como decorar uma sala?
Não sei como decorar uma sala.
Já tive tantas…
Já não tive nenhuma…

Sei lá!
Tive salas enormes,
Altas,
Amplas,
Quentes e luminosas.

Em pequena,
O meu pai vivia numa azáfama de colocações e transferências.
Corremos tantas cidades, províncias, às vezes quase mato,
Às vezes quase selva.
Nampula, Inhambane, Quelimane, Beira, João Belo, Mocimbua da Praia…
Tantos lugares…
Outros de que já não me recordo o nome,
Só as imagens vagas.

Vivemos em casas antigas,
Mais novas,
Lindas e arejadas,
Mais pequenas,
Mais fechadas.
Mas a sala era sempre o lugar mais importante!
Pelo menos para mim,
Que vivia a sonhar com a altura do dia
Em que nos sentávamos todos juntos,
Depois do jantar.

O rádio, sempre o rádio
Lindo!
Ele por si, mais um móvel,
Cheio de luzinhas de postos, bandas, estações
O rádio era o rei dos serões.
O meu pai fumava,
Lia o jornal,
Esquecido do serviço,
Das resmas de documentos para despachar,
Carimbar,
Autorizar.

A minha mãe costurava,
Às vezes lia um dos romances que tinha levado de Lisboa,
Perdia os olhos na leitura numa saudade sem fim que falava
De cidades grandes,
De movimento,
Daquilo a que chamava a sua “querida civilização”…

Eu e a minha maninha
Brincávamos no tapete,
Despíamos e vestíamos as bonecas que tinham chegado de um jantar na rua,
Arrumávamos as nossas casinhas de imaginação,
Aproveitávamos aquela hora de trégua,
Em que até os ecos dos tiros distantes
Pareciam descansar um pouco,
E repousar até ao dia seguinte.

A minha mãe vivia num terror constante
Daquela vida de mato.
Da guerrilha que estava sempre por perto,
Dos caixões cobertos pela bandeira nacional
Que víamos passar quase todos os dias
Por perto do nosso quintal.
Aterrorizada por cada ruído nocturno,
Fazia o meu pai levantar-se vezes sem conta,
Com a pistola automática na mão,
autorizada e distribuída para “segurança da família”,
como se a pistola minúscula e insignificante nos pudesse salvar
das catanas, dos facalhões,
se realmente algum terrorista se lembrasse de nos atacar…

Mas a sala era muito importante…
Por causa dos serões,
Porque era aonde ficavam as visitas da casa,
Colegas do meu pai, quase todos,
Esposas e filhos,
Figuras respeitáveis e engravatadas,
Outras mais á vontade nas suas balalaicas clarinhas…
Sempre na sala.
Primeiro na sala das visitas,
Na descontracção de uma boa conversa,
De bebidas geladas,
A ventoinha a trabalhar incansavelmente…
Depois na outra sala,
A de dentro,
A das refeições.
A que tinha a mesa sempre tão comprida,
Com cadeiras,
Tantas,
Tão altas…

A sala.
Onde tudo acontecia.

Como decorar uma sala?
Não sei.
Mas agora tenho uma sala nova.
Por ironia é a única divisão da casa
Que está vazia.
Sem nada.
Nem é utilizada sequer.

O que lhe vou pôr?
Como vou fazer daquela sala,
A divisão mais importante de casa?
Onde vou arranjar lugar para as recordações das outras salas,
Das tantas que tive,
Aonde colocar a poltrona riscada de vermelho e negro do meu pai,
A mais pequena, da minha mãe,
A caixa de costura de madeira que tinha mil botões coloridos,
O tapete fofinho aonde brincava com a minha irmã,
As bonecas,
As roupinhas,
Os livros de encantar…

Aonde me vou colocar a mim?
Nesta casa nova,
Sem história,
Sem cicatrizes.
Despida dos ecos de choro,
Despida do molhado das lágrimas…

Como decorar uma sala?
Não sei como decorar uma sala.
Acho que vou deixá-la assim.
Como está.
Vazia.
Sem história.
Vazia de tristeza.
Vou esperar…

Vou esperar o começo de uma história nova,
Quem sabe de serões novos,
Talvez me levante do tapete,
Esqueça as bonecas,
Me sente ao colo do fumador estranho,
Que cada vez é menos estranho,
Que se senta na poltrona desconhecida,
Que ainda só existe na minha imaginação,
E lhe dê um beijo gostoso.
E o convide para ficar,
Para passar á outra sala,
A das refeições, a da mesa comprida,
Com cadeiras altas,
Iguais ás do passado,
E talvez ele aceite,
E acabe por ficar para jantar.

Como decorar uma sala?
Pode estar vazia.
Não são precisos móveis,
Nem poltronas,
Nem tapetes,
Tem que ter felicidade.
Afinal foi o que sempre quis encontrar
Em cada sala,
Em cada casa,
Em cada amor da minha vida…

Não precisas de sair para fumar,
Podes ficar por aqui.
Afinal nas salas de que me lembro
Havia sempre cheiro de cigarro…
Vou arranjar um cinzeiro bonito,
Como os meus antigos em África, de pé alto, pau preto embutidos de marfim,
E podes pô-lo aonde quiseres,
Em qualquer canto que te agrade.

Sempre quero ver como vais fazer para decorar a sala…
Para decorares de novo a minha vida…

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