sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

E se já nada está lá para mim?

E se um dia eu voltasse…

E as ruas já não fossem as mesmas?
Aquelas por onde passeava de mão dada com o meu pai,
Aonde resplandeciam as montras bonitas com bonecas,
As ruas das pastelarias, das Coca-colas,
Os jardins, os escorregas, os baloiços, os brinquedos…

E se as pessoas não me quisessem mais por lá?
            Se os desconhecidos me olhassem com estranheza,
Como se faz a um desertor que vem de fora,
E que não pertence mais a lugar nenhum…
Se não tivesse sobrado nem um rosto conhecido
daqueles tantos que têm vivido nos meus sonhos
e nas minhas saudades estes anos todos…
E se os rostos de agora não me soubessem sorrir,
E me fizessem sentir estrangeira de novo…
Porque já sou estrangeira há tantos anos..
Não sei como aguentaria sê-lo se voltasse de novo a casa!

E se os caminhos estivessem povoados por fantasmas?
Se eu encontrasse á solta pelas avenidas
imagens de pessoas que sei que já se foram
de outras que desapareceram sem deixar rasto,
de algumas que se perderam de mim…
a senhora da papelaria,
aonde o meu pai comprava cigarros LM e o jornal Noticias,
que mataram quando lhe assaltaram a casa…
o meu tio pianista que  sumiu numa manhã cedinho,
bem vestido e bem perfumado,
e nunca voltou até hoje…
aquele vizinho poeta do andar de cima,
que nos ofereceu um livro autografado,
antes de viajar escondido nalgum dos seus poemas,
nunca se soube para onde,
e que deixou o andar todo mobilado eternamente á espera…

E se o meu “Barra de Sabão” tivesse desaparecido?
            Eu sei que não.
Sei que o prédio aonde vivíamos está de pé ainda.
Um amigo querido mandou-me a fotografia recente dele.
Mas não sei se ainda terá o mesmo cheiro
a detergente de lavanda no elevador principal…
Não sei se ainda crianças brincam no pátio de dentro,
se a minha porta da cozinha continua a não abrir bem,
se a varanda da sala ainda tem as plantas
que a minha mãe lá teve que deixar…
Porque uma casa
é sempre muito mais do que apenas as paredes.
É o que lá se passa dentro,
é o cheiro, é a cor, é o som das tábuas a rangerem,
é o sentimento que faz com que tenhamos um lugar
para onde querer voltar a cada fim de dia…

E pior do que tudo isso, se as estrelas não fossem já tantas?
            Se á noite, quando levantasse os olhos para o céu
de um aveludado escuro tão bonito,
já não estivessem mais por lá
aqueles milhões de lantejoulas faiscantes
penduradas numa desordem
de brilho,
de beleza
de loucura…
Se todas as estrelas tivessem também fugido,
Mudado de casa para um continente incerto…

E se já não fossem as mesmas ruas,
Se as pessoas não me quisessem mais por lá,
Se os caminhos estivessem povoados por fantasmas,
Se o meu “Barra de Sabão” tivesse desaparecido,
E se até as estrelas já não fossem tantas…
Porque é que aquela haveria de ser ainda a minha casa?

Simples, muito simples.
Porque durante estes mais de trinta anos,
Nunca me esqueci dela um dia que fosse,
Porque o meu pai morreu com Moçambique no coração,
Porque o cheiro do capim e da terra molhada
esteve todo este tempo guardado comigo.
E quando fecho os olhos ainda ouço o som dos batuques e dos tambores,
E quando vou ver o mar,
Parece sempre o mesmo mar que via lá,
Ao fundo de cada rua.
E porque tenho saudades, tantas saudades!...

Que importa se por um acaso
eu não fosse bem vinda, nem querida, nem desejada por lá?
Afinal essa tem sido toda a história da minha vida.
Lutar por um bocadinho de amor,
Por aceitação.
Tentar sempre que não me mandem embora,
Que me deixem ficar.
Sem pertencer verdadeiramente a lugar nenhum.
Sem ser guardada em braços nenhuns.
Sem poder achar lugar no coração de ninguém.

Se consegui fazer isso em terra estranha,
Porque não haveria de consegui-lo, em casa?

Na minha terra cor de laranja e vermelha

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