sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Esperança é tudo o que fica

Esperança.
Tudo o que nos fica,
depois de tudo partir.
Se é que alguma vez
tudo chega mesmo a partir.
Se é que alguma vez,
alguma coisa chega mesmo a ficar.

Nos primeiros tempos
jantávamos chá de tangerina com torradas secas…
Não me esqueci até hoje do chá de tangerina.
Não de laranja, de tangerina.
Cheirava bem, pelo menos…
As torradas cheiravam ao que eram,
pão rijo,
aquecido no bico do fogão..

Não havia quase nada que comer,
mas mantínhamos a hora certa das refeições.
Reuníamo-nos os quatro de sempre,
em volta da mesa improvisada na bancada velha da cozinha.

O meu pai continuava a insistir no lavar das mãos,
como se os micróbios estivessem interessados no nosso pão rijo.
A minha mãe continuava a insistir que não se falasse de boca cheia,
e que não nos levantássemos
sem pedir licença.
Como se naquela caverna bolorenta
houvesse ainda lugar para a etiqueta e para a cortesia…

Eu e a minha maninha
engolíamos o pão,
engasgávamo-nos com o chá que escaldava a boca.
Sem pressa de coisa nenhuma.
Porque tinha deixado de existir pressa para brincar,
Tinham deixado de existir motivos para rir sem hora de parar.
Não havia ânimo para fazer traquinices.
Nem bonecas para vestir e despir e levar a lanchar em casa das outras bonecas.
Nem brinquedos para empilhar e misturar numa babilónia de jogos sem fim.
Nem livros com histórias de encantar e paisagens lindas para pintar.

Agora éramos pobres.
Muito pobres,
como dizia a minha mãe.
Vivíamos de favor numa casa emprestada,
Comíamos por favor o que as tias bondosas davam,
Vestíamos os trapos velhos
que mais ninguém queria usar.
Circulávamos por ruas e mais ruas estranhas e desarticuladas,
aonde ninguém nos queria ver passar.
E á noite sonhávamos que estávamos de volta a casa,
ainda a tempo de fazer o jantar.

Foi na altura em que a minha mãe
começou a deixar de se arranjar.
Desistiu de se preocupar,
Desistiu dela própria e de nós todos.
Simplesmente cruzou os braços e deixou-se estar.
E o meu pai saía para a rua,
Para tratar de documentos,
de papéis,
tantos malditos papéis…
E esquecia-se sempre de me levar.

O meu pai deixar-me para trás,
doía-me sempre mais
do que a falta de tudo o resto.
Era uma confirmação muda
de que nada era o que o que eu conhecia e como tinha sido.
E de que até eu tinha perdido o meu lugar de princesa no coração dele.

Passados alguns anos,
Quando a vida estava mais ou menos
colocada de novo dentro dos carris,
quando o meu pai foi reintegrado no trabalho dele,
quando passámos a jantar comida a sério,
ele contou-me porque não me levava.
Não queria que eu visse
como o tratavam por cá.
Não queria que eu soubesse
que já ninguém o cumprimentava na rua,
que ele já não era o “Vilbro das Finanças”.
Era só o retornado que tinha roubado os pretos em África,
e agora tinha vindo roubar o pão dos que estavam cá.

Por isso me deixava para trás…
Para me proteger.
Para se proteger.
Por isso me tinha deixado acreditar durante todo aquele tempo,
que já não me queria por perto!
Que eu já não lhe fazia falta para passear,
para conversar,
para beber coca-cola e comer batatas fritas
entre uma caminhada e outra.

Fiquei com uma raiva!
Como se a tristeza e o abandono que senti,
não fossem muito piores do que todos os comentários
dos estranhos da rua.
Como se me interessasse para alguma coisa
o que o resto do mundo anónimo pensava!
Quando ele era o meu herói,
O meu papá querido do coração!
Quem me contava filmes de terror,
me sentava ao colo
quando estava bem disposto,
me deixava dar-lhe um beijinho de fugida,
porque nunca foi muito de dar ou receber carinhos,
e me defendia com um sorriso dos repentes nervosos da minha mãe.

“Houve dias em que nem tinha coragem para sair para a rua”
Aquilo que o fazia continuar a seguir em frente,
Dia após dia,
Porta fechada após porta fechada,
Era a Esperança.
O que nos fez aguentar o chá de tangerina
e as torradas feitas de pão rijo
aquecido no bico do fogão,
era a Esperança.
Aquilo que matou a minha mãe,
que a fez deixar de querer viver,
foi a falta de Esperança.

Esperança.
Que é tudo o que nos fica,
depois de tudo partir.

Não me esqueci disso.
Da importância da Esperança.
E também não me esqueci de que não se deve deixar ninguém triste,
mesmo que estejamos convencidos das nossas razões.
Não há razão nenhuma,
por mais bem intencionada que seja,
que resgate a sensação de tristeza e de abandono.

Ainda hoje mantenho a Esperança.
Ainda hoje não percebo como se pode deixar para trás alguém que se ama.
Porque há lições que se aprendem na vida.
Mas há outras que nem o tempo consegue legitimar.
Há outras que o meu coração nunca será capaz de aceitar.

Volta para trás, vem-me buscar…
Vá lá…
Ainda estou no mesmo lugar.

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