sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Eu não sei atacar

Não há qualquer mérito em fazer-me chorar.
Qualquer um consegue.
Não é difícil,
Não é complicado.
Sou tão fácil de magoar como um gatinho assustado.
É tão simples assustar-me como é simples
fazer um passarinho levantar voo.

Sempre fui assim.
Basta uma palavra mais ríspida,
um olhar mais severo,
uma atitude mais brusca.
Enchem-se-me imediatamente os olhos de água.
Não interessa se é uma pessoa que eu ame,
se é alguém com quem simpatize,
ou se é até um completo desconhecido.
A falta de carinho,
a falta de ternura,
a rigidez agreste,
é tudo o que é preciso para me deixar triste.
Qualquer um consegue!
Não é um feito muito impressionante…

Podem até não me dizer nada agressivo,
tenho tido a sorte de não me ralharem muito
pela vida fora.
Podem até não me tratar mal,
também não me aconteceu até agora,
nem nas alturas mais estranhas,
nem nas companhias mais improváveis.
Podem até nem olhar para mim,
mas desde que esteja lá aquela qualquer coisa
que não sei explicar bem o que é,
mas que deixa tristeza e desolação no ar,
pronto…
Fico inconsolável, perdida, infeliz…

E é tão desnecessário fazer-me chorar!
Existem tantas outras formas de passar o tempo.
Tantas outras maneiras de homens crescidos se entreterem.
Qual é a vantagem de me deixar triste?
Assim como sorrio, assim também choro.
Quem me conhece sabe que sou assim.
Não finjo.
Não dissimulo.
Não ataco.
Eu nunca ataco ninguém.
Muito menos a quem amo.
É verdade que ás vezes reajo.
Ás vezes falo mais do que devia talvez falar.
Mas até quando falo,
mais do que devia talvez falar,
é porque estou a pedir colo,
estou a mendigar carinho,
estou a suplicar amor.
Não estou a atacar.
Eu lá sou mulher de atacar!
Não é preciso ter grande inteligência para me fazer chorar.

Muito mais complicado é fazer-me feliz.
Muito mais trabalhoso é manter-me feliz.
Porque até posso ser insegura como sou,
Até posso ser carente porque sou,
Posso estar sempre á espera de protecção
De um abraço aonde me esconder,
De um ombro aonde chorar
Um braço em que me apoiar.
Posso adorar que me digam palavras bonitas,
Que me façam sonhar,
Que me conquistem,
Que me iludam,
Que me peguem na mão,
Me convidem para passear,
Mas apaixonar-me… é difícil lá chegar.
E mesmo que me apaixone por alguém,
isso não quer dizer que o venha a amar.

Nem todos os que entraram no meu corpo,
Tiveram direito a entrar no meu coração.
Nem todos os que me ouviram suspirar,
Me ouviram falar de amor.
Nem todos os que me tiveram,
Me chegaram a ter verdadeiramente.
Beijar, abraçar,
Ir um pouco mais além,
Um pouco menos além,
Tudo isso é fácil.
Tudo isso é obra do momento.
Não vejo aí também nenhuma obra relevante.

Difícil é fazer-me dizer “Amo-te muito”.
Difícil é fazer-me sentir muito mais do que prazer.
É levar-me a creditar, a confiar, a ter esperança.
É entrar pela porta principal do meu coração.
Isso é muito difícil.
Isso é sem dúvida um trabalho digno para um homem brilhante.
Agora manter-me afastada,
e cercar-se de muros,
de barreiras,
de entraves,
isso qualquer um rapazinho com medo de viver consegue.
Não requer perspicácia,
Não requer inteligência,
Nem demonstra coragem ou força de carácter.

Muito fácil,
Muito simples,
Muito sem valor
Muito elementar é
Dizer-me coisas duras,
Ignorar-me, contornar-me, passar-me ao lado.
É bem mais difícil ser valente,
Lutar contra as dificuldades,
Impor a sua vontade,
Encontrar um caminho para ser feliz.
Mais simples é acomodar-se,
Deixar-se ficar,
Ver os anos a passar,
Tão mais simples fazer-me chorar.

Mas eu não ataco.
Não sei atacar.

Estava-te a pedir atenção.
Quando será que vais aprender a ler no meu coração?

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