sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Lágrimas de sangue

          “- Ainda hás-de chorar lágrimas de sangue!”
Lembro-me muito bem dela a dizer isto.
Os cabelos despenteados,
O rosto afogueado,
Sempre furiosa com alguma coisa,
Ou com alguém,
Sempre a reclamar ou a choramingar,
Todas as vezes tão zangada comigo!...

          “- Nem os cães hão-de querer olhar para ti!”
A minha mamã…
Tinha sido tão bonita, tão linda!
Tinha despertado tantas paixões…
Estava ali,
De olhos esgazeados, esquelética,
Deslocada, perdida num limbo sem fim,
Sem se dar conta de que já estava cá de novo,
Que o “degredo” para ela tinha terminado.
Que a razão aparente de tanta dor devia ter acabado.

          “- As pessoas vão cuspir no chão quando tu passares!”
E a roupa amontoava-se pelos cantos,
O bolor e a humidade descia dos tectos,
Tomava conta das paredes,
Embrenhava-se nos trapos inúteis dentro dos sacos,
As janelas estavam fechadas, calafetadas,
Num terror constante de correntes de ar,
De vizinhos intrometidos,
De olhares indiscretos para lá da porta da rua, apodrecida e desconjuntada.

          “- Nunca te vou perdoar, nem que mo peças á hora da minha morte!”
E antes de a levarem para o hospital,
Durante o sono estranho de que nunca mais acordou,
Ela sentou-se na cama,
Estendeu as mãos para mim e pediu ajuda.
Daquela maneira enlouquecida dela
Com aqueles olhos perdidos dela,
A cara zangada, a voz furiosa.
E deitou-se outra vez para dormir.
Não sei o que eu podia ter feito para ajudar…
Sei que não ajudei,
E sei também que não lhe cheguei a pedir perdão.

          “- Ainda vais ser a desgraça desta casa!”
Mas eu esforçava-me tanto para não ser…
Não abria a boca quando havia perigo no ar,
Encolhia-me no meu cantinho quando estalava a guerra,
Tapava os ouvidos para o barulho não sair tanto pelas janelas.
Porque se eu não conseguisse ouvir,
Como é que lá fora se ouviria?
Ia sempre ter com o meu pai,
Para lhe tentar dar um beijinho,
Quando cessavam as hostilidades.
A ver se ele se acalmava,
Se deixava de berrar.
Puxava a minha maninha para o fundo da caverna,
Porque ela era mais pequenina
E podia-se assustar…

          “- Mas será que nem para a escola tu prestas?”
Eu que tinha sempre pelo menos bom grande,
Mas que era obrigada a ter sempre muito bom.
Que estava sempre entre os melhores da turma,
Mas que se não fosse a primeira entre todos,
Era o mesmo que ser a última do mundo.
Eu que chegava feliz da escola
Com as minhas composições anotadas com um elogio da professora
Escrito a vermelho no fim.
E a que ela chamava de disparates açucarados,
Que não vão encher a barriga de ninguém.
Uma das minhas professoras mais queridas,
Chamou-me um dia a um canto no fim da aula
E perguntou-me se havia alguma coisa que lhe quisesse contar.
Eu pensei logo nos olhos enfurecidos da minha mãe,
Na nossa lendária tradição familiar de não lavar roupa suja na rua,
E quase a chorar respondi que não havia nada de especial para falar.
Era só eu que gostava de viver a sonhar.

          “- Ele é mais velho, há-de ir primeiro. Depois vou ajustar contas contigo!”
E era mesmo.
O meu papá era dez anos mais velho do que ela.
Tantas vezes que chorei de noite a fazer contas.
A pedir a Deus que a levasse a ela antes dele.
Que não fizesse a maldade de me deixar sozinha com ela no mundo.
Sem o meu pai por perto,
Para me proteger,
Para me contar filmes de terror á noite na cozinha apagada,
Para me levar a passear pelas ruas todas do mundo.
Como é que eu ia fazer para continuar a viver?
Mas ela foi primeiro. Muitos anos primeiro.
Aos cinquenta e quatro anos parou de sofrer.
Parou de gritar, parou de ralhar.

          “- Se não há justiça neste mundo, lá de cima vou-me conseguir vingar!”
Muito provável que sim.
Que ela se tenha reunido a todos aqueles anjos e santos
A quem passava a vida a dedicar terços e novenas,
E esteja por lá tecendo as suas malhas apertadas
De vingança sem fim.
Alguma razão deve de haver para coisa nenhuma dar certo na minha vida.
Alguma razão tem que existir para que todas as pessoas a quem amo,
Se afastem sempre de mim.
Tem que existir um motivo para eu não conseguir nunca ser feliz.

Nestes últimos dias tenho chorado lágrimas sem fim.
Não são de sangue, mas doem demais.
Era a estas que ela se referia,
Ou ainda está pior guardado para vir?

Não sei o que fiz, mas, seja lá o que tenha sido, perdoa mesmo assim…
            Já passaram tantos anos…


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