sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Lavar pratos... tem muito que se lhe diga!

De vez em quando chamam-me para lavar louça,
na cozinha de um dos restaurantes vizinhos á minha casa.
Pratos, talheres, copos, travessas…
Panelas enorme e pesadas como calhaus,
Frigideiras complicadas de esfregar,
daquelas que se têm que passar por vinagre
e secar logo antes de arrumar.
Parece simples,
Mas não é nada simples!
Cada talher tem um tamanho diferente,
e tem que ser arrumado a correr,
junto dos outros iguais.
Cada variedade de pratos
tem uma prateleira própria e é lá que tem que ficar.
As infernais panelas pesadas
são postas a escorrer
na prateleira mais alta!
E eu que sou baixinha
tenho que subir a um banco para lá chegar.
Mas o pior de tudo,
são mesmo os copos!
Fininhos,
de vidro tão delicado
que só o ar parece quebrá-los.
E têm que ser limpos, virados ao contrário e guardados,
tudo a uma velocidade mais rápida do que a da luz.

No primeiro dia
parti tantos,
mas tantos desses copos franzinos e quebradiços,
que pensei que ia ser descontada até ao fim da vida,
para repor o prejuízo!
Não fui.
Não tive que pagar nem um.
O patrão é muito simpático
E conhece-me há mais anos
do que aqueles que me consigo lembrar.
Mas descobri uma coisa muito importante
enquanto varria e apanhava os cacos de vidro.
Ali dentro daquela cozinha atarefada e cheia de movimento,
Não interessa para nada nenhuma das coisas
que sempre achei importantes ao longo da vida.

Ninguém está interessado em se falo inglês, francês,
querem é os pratos bem passados por água e postos na máquina.
Ninguém se preocupa em se sou capaz de dizer duas frase que façam sentido,
desde que a bancada da cozinha permaneça sempre limpa e enxuta.
Ninguém faz questão em descobrir os meus gostos musicais,
nem as minhas opiniões.
Tão pouco esperam que lhes fale com palavras bonitas sobre coisas complicadas.
O importante é que o lava-louças esteja desimpedido,
a máquina de lavar os talheres e os pratos constantemente a trabalhar,
as travessas e as molheiras lavadas encaminhadas para os armários.

Os meus célebres cabelos compridos cheios de caracóis,
ficam bem escondidos dentro de uma touca branca.
O corpo cheio de curvas “como as da Elizabete Taylor, quando ela as tinha”,
fica bem disfarçado por detrás de um avental descomunalmente grande e largo
que varre todo o chão por onde passo.
Os sapatos de salto,
que fazem o meu característico andar balançado e provocador,
são substituídos por sapatorras grossas de borracha,
para poder caminhar por sobre as águas, não as do mar,
mas as que estão sempre por todo o lado que é cozinha…

Imagino que deva ficar muito parecida com um espantalho
numa feira dos horrores!
Duvido que algum dos meus admiradores,
que me acham tão linda, tão bonita,
me conseguisse sequer descobrir no meio do vapor, do fumo…
Me conseguisse sequer identificar no meio
das outras mulheres atarefadas, e afogueadas, de avental monstruoso como eu.

No entanto, e apesar de tudo,
apesar de todas as coisas que me costumam fazer ser admirada,
ficarem tapadas, escondidas, espartilhadas,
mesmo assim as pessoas, por lá, gostam de mim.
As outras mulheres da cozinha,
acham-me muito simpática e bem disposta!
Os empregados de mesa que têm o péssimo hábito
de descarregar as bandejas cheias de louça suja para cima da bancada
sem mesmo nos darem tempo de tirar a anterior,
têm sempre um comentário engraçado para me fazer!
Até alguns clientes,
quando eu passo perigosamente carregada de copos e pratos para guardar nos armários,
já se têm metido comigo e dito coisas gentis e agradáveis.
O meu quase patrão,
acha que o importante é a delicadeza do sorriso…

Eu, por mim, penso
que o que faz de cada um de nós aquilo que somos,
tem que ir muito mais para além do que aquilo que se vê.
Tem que ser como o sopro mágico do vento que passa.
Não se explica.
Não se contabiliza pelo número de vezes.
Nem se justifica pela lógica.

O que faz de cada um de nós aquilo que somos,
Tem mais a ver com a alegria que sou capaz de sentir,
No meio de toda aquela louça engordurada,
E no meio de todo aquele vapor da cozinha.
Não me sinto deslocada,
Não me sinto isolada.
Nem me considero mal aproveitada.
Sinto.me a mesma de sempre.
No meio de pessoas que gostam de mim.

Não é motivo para depressão…
Digam lá as estatísticas o que disserem.
Eu não me encaixo em nenhuma estatística.
Sou muito mais rebelde do que a generalidade que conheces.
Podes desistir de me procurar rótulo ou etiqueta…

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