sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ontem fui ver o mar

Ontem fui ver o mar.
Sozinha.
Sentei-me e fiquei só a olhar.
O meu filho diz sempre
que as senhoras não se sentam no chão.
Quando ele vai comigo,
tenho que ocupar um lugar civilizado nos bancos de pedra.
Ontem não tinha ninguém perto de mim.
Quero lá saber…
Ainda por cima é na praia!
Eu gosto de me sentar no chão,
na areia, na relva.
Em todos os lugares aonde me apeteça descansar.
Sentei-me abaixo do muro do mirante,
Assim bem de frente para o mar,
Sem muros,
sem pedras rijas.
E fiquei só a olhar.

Eu amo ver o mar.
Faz-me sentir em casa.
E é grande!
Tão maior do que todos os problemas,
todas as tristezas.
E faz barulho…
Um barulho gostoso de ouvir…
E é lindo!
Nunca tem a mesma cor.
Nunca está no mesmo lugar.

Já vou aquela praia há mais de vinte anos.
Recordei-me das primeiras vezes.
quando íamos de camioneta
e tínhamos que sair da areia meia hora antes,
para apanhar lugar na fila.
Ou depois,
quando comprámos o carro,
e eu o deixava sempre ir abaixo na subida…
E os miúdos eram pequenos…
E eu conseguia ter ideias engraçadas
para passear,
para arejar…

“Quem aos vinte não tem…”
Li no outro dia.
Achei deliciosamente bonito.
Falava de quem aos vinte não tem,
Aos trinta não sei quê,
E aos 40 outra coisa engraçada.
Não me lembro bem das palavras.
Mas ontem pensei nisso,
enquanto estava a ver o mar.

Aos vinte,
um filho pequeno,
um marido na tropa,
um emprego tão mal pago…

Aos trinta,
um filho pequeno,
um marido aos tombos nessa vida grande demais,
um emprego bem melhor pago…

Aos quarenta,
dois filhos não tão pequenos assim.
E sonhos…
Duas mãos e um coração cheios de sonhos!
Simples sonhos…

E tantas vezes que a vida esteve bem planeada.
E tantas vezes em que já se sabia como tudo iria acontecer.
“- Vilbro, essa cadeira ainda há-de ser da tua filha:”
E o meu pai respondia calmamente
que não,
que queria melhor para mim,
do que passar a vida a borrar papel…
Desculpa, papá.

“- Esta menina tem muitas capacidades. Assim a deixem ir em frente.”
A minha professora da primária.
Muito admirada de eu saber ler como deve de ser,
escrever sem dar erros,
numa sala de cheia de meninos da minha idade
que mal conseguiam soletrar o nome.

“- Conseguiu aprender a usar o computador em tão pouco tempo!”
O engenheiro, meu chefe de departamento.
Encantado com a minha habilidade!
Ele que tinha receado tanto admitir uma funcionária
que ainda escrevia no velho AZERT da máquina manual…

Tantas vezes em que tudo parecia estar bem delineado!
Tudo parecia estar encaminhado!
A minha vida parecia ter finalmente encontrado o seu caminho,
no correr rápido das águas que nunca me deixaramsossegar.

“- Enquanto fizeres como te digo, nenhum mal te acontecerá”
E eu acreditei, e eu confiei… era para ser para sempre.

Ontem fui ver o mar.
Nunca me pareceu tão bonito!
Ali perto,
Ali convidativo…
Tão parecido com o mar que eu via em pequena…
Aquele que estava sempre ao fundo de cada rua,
a piscar-me o olho.
Num namoro descarado de menina e príncipe encantado.

O mar vai ter todo ao mesmo lado.
Se eu entrasse aqui,
talvez saísse lá.
E talvez fosse ter á areia quente de casa.
E talvez estivessem por lá,
fantasmas amigos para me receber.
Para me levar pela mão…
Talvez o que tinha estado para ser,
pudesse ainda acontecer…
Talvez…

Mas não consigo ficar sozinha muito tempo.
Nem para ver o mar…
Lá das rochas,
meio escondido
aonde ainda nem o tinha visto,
um pescador solitário acenou-me.
E perguntou-me se não queria ir bocadinho sentar-me ao pé dele.
Pelos vistos,
A paisagem vista de lá, perto dele,
era muito mais bonita…
Não fui.
Mas sorri-lhe e fiz-lhe adeus.
Levantei-me e vim-me embora.

Ontem fui ver o mar.
Que estava lindo,
Convidativo e azul demais.

Mas apanhei muito sol,
Cheguei a casa com frio.
Sozinha.
E triste.
Como esteve sempre planeado.

Mas quando é que vou parar de lutar?

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