sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quis ir lá pôr flores

Para o meu amigo querido que ontem notou o meu atraso a publicar o texto:
            Bom dia! Hoje consegui mais cedo. Espero que gostes. Beijinhos para ti.




Quis ir lá pôr flores.

Ontem fui para os meus lados antigos…
Aonde vivia quando cheguei a Portugal.
Já tinha visto que a antiga caverna já lá não está.
Sabia que muitas lojas fecharam, e outras abriram.
Muita coisa ficou diferente
nestes mais de vinte anos
em que andei divorciada
das ruas e das esquinas,
aonde acabei de crescer,
e que foram a minha casa
durante tanto tempo!

Sabia de muita coisa diferente.
Só não sabia que me tinha esquecido
do caminho para eles…
Comprei as flores.
Pouquinhas
porque a floreira da gaveta é pequenina
e não tem espaço para muita coisa.

Subi e desci vezes sem conta
aquelas ruas e avenidas
da cidade dos mortos.
Morta de pavor,
Porque tenho um medo inexplicável e absurdo da quietude
que se vive dentro dos cemitérios.
Faz-me uma falta danada o movimento,
A alegria das pessoas,
O som das conversas
e das gargalhadas.

E acho que não combino bem
com o ambiente morto daquela nação de mármore.
Rio demais,
ando balançada demais,
tenho cabelos irrequietos demais,
que teimam em voar e deixar rasto
no meio das árvores frias
que nem folhas têm para abanar.

Não me consegui lembrar exactamente do lugar…
Sei que era naquela rua,
Naquela parede estranha,
cheia de gavetas, inscrições,
fotografias assustadoras
de pessoas que sorriem desde o outro lado do tempo…
Flores sem alegria e sem cor,
que espreitam espetadas de qualquer maneira
dentro de caixinhas de lata ferrugentas.
Sem conseguirem alegrar,
nem trazer viço
áquela montra imobilizada para sempre,
gelada para sempre…

Um casal idoso parado por perto,
rezava.
A senhora chorava,
de terço na mão.
O senhor que a acompanhava,
olhava tristemente para a frente,
na esperança de ver quem passava.
Tão sozinhos,
ali os dois!
Parados, escuros,
Murchos como as flores que os rodeavam.
A rezar…
Não resisti.
Dei um sorriso ao senhor velhinho
e acenei-lhe com a mão.
Ele sorriu-me de volta,
Levou dois dedos ao chapéu,
levantou-o um pouco da cabeça…
Como o meu pai sempre fazia
para cumprimentar alguém na rua.
De boa vontade lhes teria dado um beijinho,
e ficado por ali
a conversar com eles.

Mas o meu filho,
horrorizado com a minha falta de compostura
já reclamava ao meu lado,
já me dava toques no braço,
envergonhado.
Coitado!
Sofre sempre que sai comigo…
Não percebe que eu gosto de sorrir,
de falar,
de ver os outros contentes.
Que não me interessa o que vão pensar,
ou o  que vão dizer.
Se me apetece sorrir,
sorrio.
Se me apetece meter conversa, meto conversa.
E as pessoas gostam de mim.
E eu sinto-me feliz assim.
Nem sempre me consigo sentir feliz…
Tenho que aproveitar…

Mas não encontrei a gaveta deles.
Não fui capaz de me lembrar…
Como voltar a casa e não dar com a porta…
Meu papá,
minha mamã.
Esquecidos,
Confusos e perdidos naquele labirinto de fechaduras,
De nomes e de fotografias.
Guardados para a eternidade,
Ao lado um do outro.
Ossos misturados com ossos.
Numa comunhão que nunca tiveram em vida.
Sem fazerem barulho,
Sem discutirem,
Sem se magoarem mais…
Sem conseguirem ser encontrados
nem por mim.

“. E que tal pores as flores numa gaveta qualquer
e irmos embora daqui?”
Foi o que fiz.
Afinal eles já não as vão cheirar,
Nem ver,
Nem se vão alegrar com a visita da filha
que nem conseguiu dar com a ultima morada deles.
Quase consegui ouvir
o meu pai,
na sua voz calma dos dias bons
“- Deixa a pequena! Ela é distraída, mas é boa rapariga!”
E a minha mãe que lhe responderia algo como
“- Lá estás tu a desculpá-la! Olha o resultado!”
Não quis procurar mais.
Coloquei as flores numa floreira vazia.
Numa gaveta sem inscrição,
Como a deles também não tem.
Anónima,
Discreta,
Sem dar nas vistas,
Sem se fazer notar.
Como eles sempre gostaram de ser,
Como sempre quiseram viver.
Tão diferente de mim!
Que sou tão sorrisos,
Tão gargalhadas,
Tão lágrimas e soluços!
Tão paixão e desejo!
Tão amor e solidão…

E viemos embora.
O meu filho entediado.
Com os olhos postos no vulto do Colombo, lá perto.
Eu,
triste,
Envergonhada comigo própria.
Não me lembrei!
Não me consegui lembrar!
E fui lá tanta vez!

O casal de velhinhos ainda estava por lá.
Sorriram-me os dois, desta vez.
Acenaram-me os dois.
Pareciam mais felizes,
menos abandonados e menos murchos,
do que as flores inúteis á volta deles.
“- Deus a guarde, minha filha! E lhe dê muita saúde e muita alegria!”
Não me importei com o meu filho,
que em desespero me puxava pelo braço.
Fui ter com eles e dei-lhes um abraço.
E um beijinho.
Que eu não sou mulher de abraçar,
sem beijar.

Afinal não foi assim tão mau!
Alegrei um bocadinho o dia daquele casal amoroso!
E senti-me mais feliz também.
Para a próxima,
tenho que ir aos serviços administrativos
perguntar o número da gaveta.

É que eu sou assim!
Quase nunca me lembro das soluções mais práticas!
Tão mais simples ter perguntado logo…

Mas não.
Prefiro sempre experimentar se consigo sozinha,
Se sou capaz.

Nunca soube muito bem quando deixar de tentar…

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