sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

"- Tu pedes demais!"

“-Tu pedes demais!”
Disseram-me ontem.
Lembrei-me de todas as ocasiões em que possa
realmente ter pedido demais…

“- Aquela ali, a de vestido encarnado…”
E o meu pai fazia-me a vontade.
Sem perder o ar severo,
com o cigarro ao canto da boca,
Um sorriso escondido no olhar,
mas que eu sabia que estava lá.
No fundo,
orgulhoso da filha que nunca desistia,
que não se assustava com a voz de trovão,
que não fugia quando era repelida,
que batalhava incansavelmente
até conseguir a boneca,
o chocolate,
o carinho, a atenção.
Pensavas que eu não sabia?
Sempre soube que gostavas de mim!
Não faz mal que não tenhas querido demonstrar.
Afinal,
cada um tem o seu jeito muito próprio de amar…

“-Tu pedes demais!”
Disseram-me ontem.
Lembrei-me de todas as ocasiões em que possa
realmente ter pedido demais…

“- Mas eu sei perfeitamente vir sozinha para casa!...”
E a minha mãe insistia na história dos autocarros,
das confusões para atravessar a estrada,
das pessoas que raptavam criancinhas!...
Como se eu não fosse a única rapariga da escola toda
que tinha a mãe á espera no portão
á hora da saída…
Enumerava os perigos,
As possibilidades, as tragédias…
Os homens pervertidos que se podiam meter comigo,
As cavalonas Maria-rapazes que me podiam desencaminhar…
Maria-rapaz, era como ela chamava
A todas as raparigas despachadas,
Felizes e alegres que brincavam,
Falavam alto e riam demais.
Deixa lá, mamã.
Aprendi muito contigo.
Aprendi o que não fazer.
O meu filho aos dez anos já vinha sozinho para casa.
A resmungar, a dizer que não era capaz,
mas a aprender como andar na rua
sem ser de mão dada.
Porque tu ensinaste-me a só andar de mão dada,
a não saber avaliar quando podia atravessar.
E depois foste embora,
e deixaste-me para trás,
e eu nem sequer ainda sabia andar…

“-Tu pedes demais!”
Disseram-me ontem.
Lembrei-me de todas as ocasiões em que possa
realmente ter pedido demais…

“-Não preciso de guarda-costas para andar na rua…”
E ele, o meu namorado na altura,
garantia que era para meu bem.
Que assim,
ninguém se atrevia a meter-se comigo,
que afinal eu era a miúda do rei do bairro…
Até podiam querer atingi-lo a ele através de mim.
E quando eu dava por isso
lá vinha uma sombra mal disfarçada a seguir-me.
Um anjo da guarda envergonhado a proteger-me,
e a tirar-me a liberdade de ir e vir
de rir e falar com quem me apetecesse.
Mas ele vinha e abraçava-me.
Vinha e beijava-me.
E eu esquecia de liberdades,
de exigências, de futilidades.
E o mundo todo era só aquele bocadinho de quarto,
aonde estávamos eu e ele,
e os homens de guarda, á porta, lá fora.
Gostava tanto dele!
Se me tivesses pedido,
tinha até desistido de andar na rua.
Desculpa ter ido embora depois…
Demorei muito a decidir e a ganhar coragem.
Mas fica tranquilo,
depois de me ter ido embora,
arrependi-me mais de mil vezes!

“-Tu pedes demais!”
Disseram-me ontem.
Lembrei-me de todas as ocasiões em que possa
realmente ter pedido demais…

“- Vem para casa a horas. As crianças estão á espera…”
E cada dia ele vinha mais tarde.
E ás vezes nem vinha.
E eu ficava a escutar o bater dos minutos no relógio grande do corredor.
Se for para vir
que venha até ás dez.
Depois,
que não venha, por favor.
E quando o comboio das dez passava e arrancava,
e não se ouviam passos na cozinha,
eu levantava-me pé ante pé,
para não fazer barulho,
e as crianças não acordarem.
E punha as minhas barricadas atrás da porta.
Para que se ele aparecesse ainda,
( nunca cheguei a saber bem como,
nem vindo de onde),
não conseguisse entrar.
Ás vezes vinha.
Ouvia-o aos tombos lá para dentro.
A resmungar sozinho
contra a injustiça que era um homem
chegar do trabalho,
vindo de beber um copinho,
e não ter ninguém á espera
para o receber com um carinho.
Em algumas noites não conseguia entrar.
Noutras, lá me devia enganar na quantidade de material protector
atrás da porta, e as barricadas cediam.
Nunca vais calcular,
nunca vais ser capaz de imaginar,
quanto te cheguei a odiar,
em cada uma dessas noites!
E a odiar-me a mim própria,
porque no dia seguinte,
lá estava,
lavada e aparentemente sorridente.
Disposta teimosamente a continuar a tentar,
A chorar e a morrer por dentro,
mas sempre sem ninguém querer notar.

“-Tu pedes demais!”
Disseram-me ontem.
Lembrei-me de todas as ocasiões em que possa
realmente ter pedido demais…

“- Não me deixes ir embora. Pede-me para ficar!”
Nunca tinha sido tão feliz assim na minha vida!
O sol tinha entrado no meu coração.
Por todo o lado
a escuridão tinha recuado.
As sombras tinham fugido.
Os esqueletos tinham sumido de dentro dos armários todos.
Eu estava tão bem!
Tão bonita!
Tão eu outra vez!
E depois,
assim como vieste,
assim desapareceste…
Eu sei que fui infantil!
Eu sei que reclamei,
eu sei que achei que tinha que ter um lugar especial
no teu coração,
que tinha que ser uma das tuas prioridades…

“-Tu pedes demais!”
Disseram-me ontem.
Lembrei-me de todas as ocasiões em que possa
realmente ter pedido demais…

Há um limite para aquilo que podemos esperar da vida
Eu sempre esperei demais

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