sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Uma coisa tão pequena...

A gaiola do periquito nunca mais foi limpa…
Reparei nisso hoje.
Agora,
pela madrugada.
Tenho andado tão atarefada,
Tão perdida,
Tão assustada,
Que me esqueci dele.
Nunca era eu quem a limpava…

E de repente,
No meio de tantos problemas,
Tantas dúvidas, tantas outras questões,
O que mais me tocou,
mais me chocou,
O que me fez vir as lágrimas aos olhos,
Foi mesmo aquilo,
A gaiola do periquito nunca mais foi limpa…
E fui eu quem quis trazê-lo comigo...

Tenho-me sentido como aos catorze anos.
Quando ganhei as ruas todas para mim.
Quando mais ninguém me ia pôr
Ou buscar á escola.
Passei a escolher a minha roupa de manhã,
Passei a almoçar só se queria…
De repente,
No fim de tantos anos,
Uma vida quase,
Voltei a sentir-me assim.

Naquela altura,
Era uma miúda.
Podia tudo,
Tinha todo o tempo do mundo.
Fiz tudo o que nunca tinha podido fazer.
Fui de encontro a todas as vidraças porque não sabia voar.
Queimei-me em todas as luzes quentes,
Porque não fui capaz de as evitar.

Durante aqueles anos de liberdade,
Que foram bons
Que foram únicos,
Que foram tão poucos,
Amei tudo o que sempre tinha querido amar.
Beijei toda a gente com os beijos
Que nunca tinha tido a quem dar.
Perdi-me em todos os abraços
De quem me apeteceu abraçar,
Porque não sabia bem quando parar.
Porque me tinham ensinado,
A comer com talheres de peixe,
A descascar a laranja com uma faca e um garfo,
A nunca sair da mesa sem pedir licença
Mas nunca
Ninguém me tinha ensinado a amar.
E não foi por falta de eu ter pedido,
Foi porque ninguém pode dar,
Aquilo que não tem para partilhar.

E agora,
De repente,
Fiquei outra vez sozinha.
Sem ninguém para me controlar.
Sem ninguém para me pôr horários,
Para me trancar,
Para me forçar a ir se eu não quiser ir,
A ficar sem eu querer ficar.
Livre de poder ou não almoçar.
Livre de poder ou não amar.

Ganhei as ruas outra vez.
Fui á reconquista das minhas ruas antigas.
Fui vê-las, tocar-lhes, cheirá-las.
Dizer-lhes que voltei.
Pedir-lhes que me perdoem a ausência,
Que continuo a gostar delas.
Nunca as esqueci.
Nunca encontrei quem mas fizesse esquecer.
Troquei-as por um punhado de ilusões,
De esperanças,
De ideias mal arrumadas numa cabeça eternamente desarrumada.
Mas nunca fui tão feliz como quando saía de manhã,
O fresco a soprar no rosto,
O vento a levantar a saia.
A ansiedade da novidade de cada dia,
De cada “vamos a ver hoje o que virá”.

Descobri ruas novas,
Amores novos,
Beijos e abraços que não tinha chegado a experimentar.
Que estava esquecida que se podiam dar.
Prazeres que não tinha ainda descoberto,
Sensações novas para me encantar.
Apaixonei-me,
Amei,
Sofri, chorei,
Vivi mais nestes últimos tempos do que nos últimos vinte e cinco anos…

Encontrei-me de novo comigo própria.
Readquiri o meu gosto pelo sol,
Pelo céu,
Pelo vento e pela chuva.
Pelas coisas lindas que a vida pode dar,
Que me tinha esquecido como são belas,
Que me fazem de novo sonhar.
E voltei a cantar, a rir, a gostar de mim no espelho
A andar balançada, a apreciar as gracinhas que me dizem na rua.

Deixei para trás o meu mundo cinzento.
Cheio de horas certas para todas as coisas do dia.
Cheio de rotinas inalteráveis para tudo o que acontecia.
Contas para pagar destinadas a cada mês,
Listas e mais listas de compras, de mercearias.
Dei um pontapé em tudo o que me afligiu durante tantos anos!
Atirei para longe o sofrimento atroz de ser sempre perfeita.
Ser sempre exemplar.
Saber sempre tudo.
Conseguir fazer sempre tudo.

Estava sufocada,
Estava asfixiada,
Estava a morrer e ninguém queria saber.
Nunca ninguém apareceu para me ajudar.
Nunca me perguntaram se eu estava bem,
Se chorava,
Se era feliz,
Desde que ficasse entregue,
Sossegada…
Desde que não arranjasse confusões,
Que não voltasse de novo a acordar
Com os meus sonhos, as minhas loucuras,
A minha sede doente e insaciável de amar…
Porque eu sempre dei muito trabalho,
Sempre fui muito difícil de segurar,
Estavam todos muito cansados de me aturar…

Feliz?
Não sei se estou feliz.
Sei que tenho medo,
Que me sinto perdida, confusa, sem chão.
Que estou muito sozinha.
Sei que tudo tem um preço.
E que o preço de querer ser feliz
Pode ser mais alto do que aquele que eu consiga pagar.
Sei que ainda choro,
Ainda fico triste, e ainda quero colo.
Só que agora pelo menos já não há ninguém
Para me mandar calar, limpar o nariz e continuar.
Nem ninguém para me obrigar
A dar o que eu não queira dar.

Mas a gaiola do periquito nunca mais foi limpa,
E isso...
Quase me fez chorar.
                         
                  Procurei-te, como sempre não me pudeste falar...

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