Volto para as vir buscar

Queria ir de férias de mim.

Agora que todas as pessoas já chegaram de férias,
Queria tanto ir para longe de mim…

Deixava-me a espreitar por trás da janela,
a chorar de nariz colado na vidraça.
Não levava a argola das chaves.
Nem o relógio.
Nem levava o telemóvel,
de que nunca me separo,
para poder ficar com a esperança
de que alguém se fosse lembrar de mim.
Nem perdia tempo a fechar as portas,
a correr os estores.
Saía rapidamente
antes que as sombras que moram lá dentro
me conseguissem puxar e prender de novo.

Quando olhasse para o que foi a minha casa
de mais de vinte anos,
veria apenas um quadrado cada vez mais distante,
cercado de árvores cada vez mais tristes,
e flores que foram ficando cada vez mais sem nome.

E espantar-me-ia de como consegui ficar lá tanto tempo,
de como foi que não me dei conta  que tudo aquilo era tão pequeno,
tão sem importância!
Apenas um grão de areia,
igual a mim própria,
perdidos os dois na imensidão branca do mundo.

Um dia quando outras pessoas viessem morar
nesta que ainda finge ser a minha casa,
iriam ouvir barulhos estranhos de noite.
Sons de choro e lamentações,
ou cantos e risos infundados,
esperanças mal nascidas e esmagadas.
Iam ter medo e ficar assustados.
E a casa ia ganhar fama de assombrada.
Não iam saber que era apenas eu
que tinha ficado.
Que não tinha sido levada comigo própria
quando fui de férias de mim,
e me deixei a chorar atrás da vidraça.

Quando eu tinha cinco anos,
e me puseram num colégio infantil,
na esperança de que o convívio com crianças da minha idade
e regras bem definidas por pessoas invulneráveis aos meus sorrisos,
me mudassem a personalidade instável e desafiadora,
também me deixei ficar para trás, sentada num rolo de rede , a chorar.

Queria ir para casa,
queria as minhas bonecas,
as minhas histórias de fadas e princesas.
Tinha saudades dos ralhetes da minha mãe,
das brincadeiras com a minha maninha,
De espreitar, da varanda da cozinha,
os outros meninos que corriam no pátio.
De abrir a porta da sala ao meu pai
quando ele chegava a casa para almoçar, vindo do trabalho….

Tantas artimanhas aprontei,
que eles me tiraram do colégio.
Antes de sair ainda me virei para trás.
Ela, que era e sou eu, continuava lá,
A menina triste que chorava com saudades,
Com o seu cabelo crespo bem apanhado ,
A sua carinha gorducha e triste,
Dois fios de lágrimas a escorrerem pelas bochechas.
Sem ninguém ver,
Sem ninguém querer saber.
Deixei-me lá porque não me conseguia levar comigo.
O peso era muito,
e os meus ombros sempre foram vergonhosamente tão fracos…
Optei por pedir-lhe que esperasse.
Prometi que a iria um dia buscar,
E que a levaria comigo ao colo,
para casa.
Fosse lá aonde essa casa fosse,
Demorasse o tempo que demorasse.

Ainda está lá.
Do outro lado do mar,
Á espera.
A menina pequenina que chorava
com saudades de casa.
Não me tem sido possível ir buscá-la.
Não tenho ainda casa nenhuma para lhe oferecer…
Desculpa Glórinha...

Talvez um dia,
consiga voltar.
Para resgatar a menina que chora lá longe,
no pátio da escola, sentada num rolo de rede.
E salvar a mulher triste que ficou por detrás da vidraça,
a olhar para mim e a ver-me afastar.
Eu que não consegui fazer
com que nenhuma das duas parasse de chorar.

Queria ir de férias de mim.
Mais uma vez.
Fazer-me á estrada.
Sem mala.
Sem papéis.
Sem nada.

Até quando se consegue partir para viajar?

Comentários

  1. No meu caso gostaria de ter incorporado no meu cérebro um botão on/off para fazer um standby na minha pessoa e poder partir de férias quando quisesse. :D

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  2. Olá, Sr. Matumbo
    Também gostava de ter esse botão... Se calhar até tenho, até tive sempre. Mas, apetecia-me agora, e para variar, viajar mesmo, sem ser apenas através do pensamento. Cansei de sonhar e acordar no mesmo lugar.
    Chega uma altura na nossa vida, em que só sonhar já não chega. E em que até os sonhos fazem doer demais.
    Obrigada pelo comentário. Tenha um bom domingo, e volte sempre.
    Beijinhos,
    Glória

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