sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 2 de outubro de 2011

Volto para as vir buscar

Queria ir de férias de mim.

Agora que todas as pessoas já chegaram de férias,
Queria tanto ir para longe de mim…

Deixava-me a espreitar por trás da janela,
a chorar de nariz colado na vidraça.
Não levava a argola das chaves.
Nem o relógio.
Nem levava o telemóvel,
de que nunca me separo,
para poder ficar com a esperança
de que alguém se fosse lembrar de mim.
Nem perdia tempo a fechar as portas,
a correr os estores.
Saía rapidamente
antes que as sombras que moram lá dentro
me conseguissem puxar e prender de novo.

Quando olhasse para o que foi a minha casa
de mais de vinte anos,
veria apenas um quadrado cada vez mais distante,
cercado de árvores cada vez mais tristes,
e flores que foram ficando cada vez mais sem nome.

E espantar-me-ia de como consegui ficar lá tanto tempo,
de como foi que não me dei conta  que tudo aquilo era tão pequeno,
tão sem importância!
Apenas um grão de areia,
igual a mim própria,
perdidos os dois na imensidão branca do mundo.

Um dia quando outras pessoas viessem morar
nesta que ainda finge ser a minha casa,
iriam ouvir barulhos estranhos de noite.
Sons de choro e lamentações,
ou cantos e risos infundados,
esperanças mal nascidas e esmagadas.
Iam ter medo e ficar assustados.
E a casa ia ganhar fama de assombrada.
Não iam saber que era apenas eu
que tinha ficado.
Que não tinha sido levada comigo própria
quando fui de férias de mim,
e me deixei a chorar atrás da vidraça.

Quando eu tinha cinco anos,
e me puseram num colégio infantil,
na esperança de que o convívio com crianças da minha idade
e regras bem definidas por pessoas invulneráveis aos meus sorrisos,
me mudassem a personalidade instável e desafiadora,
também me deixei ficar para trás, sentada num rolo de rede , a chorar.

Queria ir para casa,
queria as minhas bonecas,
as minhas histórias de fadas e princesas.
Tinha saudades dos ralhetes da minha mãe,
das brincadeiras com a minha maninha,
De espreitar, da varanda da cozinha,
os outros meninos que corriam no pátio.
De abrir a porta da sala ao meu pai
quando ele chegava a casa para almoçar, vindo do trabalho….

Tantas artimanhas aprontei,
que eles me tiraram do colégio.
Antes de sair ainda me virei para trás.
Ela, que era e sou eu, continuava lá,
A menina triste que chorava com saudades,
Com o seu cabelo crespo bem apanhado ,
A sua carinha gorducha e triste,
Dois fios de lágrimas a escorrerem pelas bochechas.
Sem ninguém ver,
Sem ninguém querer saber.
Deixei-me lá porque não me conseguia levar comigo.
O peso era muito,
e os meus ombros sempre foram vergonhosamente tão fracos…
Optei por pedir-lhe que esperasse.
Prometi que a iria um dia buscar,
E que a levaria comigo ao colo,
para casa.
Fosse lá aonde essa casa fosse,
Demorasse o tempo que demorasse.

Ainda está lá.
Do outro lado do mar,
Á espera.
A menina pequenina que chorava
com saudades de casa.
Não me tem sido possível ir buscá-la.
Não tenho ainda casa nenhuma para lhe oferecer…
Desculpa Glórinha...

Talvez um dia,
consiga voltar.
Para resgatar a menina que chora lá longe,
no pátio da escola, sentada num rolo de rede.
E salvar a mulher triste que ficou por detrás da vidraça,
a olhar para mim e a ver-me afastar.
Eu que não consegui fazer
com que nenhuma das duas parasse de chorar.

Queria ir de férias de mim.
Mais uma vez.
Fazer-me á estrada.
Sem mala.
Sem papéis.
Sem nada.

Até quando se consegue partir para viajar?

2 comentários:

  1. No meu caso gostaria de ter incorporado no meu cérebro um botão on/off para fazer um standby na minha pessoa e poder partir de férias quando quisesse. :D

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  2. Olá, Sr. Matumbo
    Também gostava de ter esse botão... Se calhar até tenho, até tive sempre. Mas, apetecia-me agora, e para variar, viajar mesmo, sem ser apenas através do pensamento. Cansei de sonhar e acordar no mesmo lugar.
    Chega uma altura na nossa vida, em que só sonhar já não chega. E em que até os sonhos fazem doer demais.
    Obrigada pelo comentário. Tenha um bom domingo, e volte sempre.
    Beijinhos,
    Glória

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