sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Mudaste a música de novo?

Sinais, indícios…
Revelações,
Presumições…

Aprendo depressa.
Sempre aprendi,
E não é um dom
Ou uma faculdade.
É apenas mais uma parte do que sou.

Se me explicam uma vez,
Se me ensinam como fazer,
Desde que não sejam estradas e caminhos,
Porque aí perco-me como um passarinho solto,
Consigo apreender,
Consigo fixar,
Lembrar,
Fazer.

Se não me dizem,
Se ninguém me explica,
Vou vendo como fazem os outros,
Vou imitando até acertar.
Se não tenho ninguém para quem olhar,
Vou fantasiando,
Vou começando a imaginar…

Será que?...
Será que é para mim?
Para eu ver,
Para me dizer,
Para me sossegar?
Outra forma diferente de comunicar?
As regras mudaram quando o jogo ia a meio,
De novo,
Mais uma vez,
Ou estou só a sonhar?

Não me importo.
Aceito tudo.
Adapto-me a tudo.
Tem sido a história da minha vida.
Desde pequenina,
Que me tenho adaptado como o camaleão,
E tenho aprendido a confundir-me
Com as cores do ambiente
Para não ser descoberta.
Notada,
Capturada como presa rara,
Carregada para um laboratório para ser analisada,
Dissecada, violada e estudada.

Apesar de,
Como diz um amigo meu,
Não haver nada que eu possa fazer
Para passar incógnita e descansada.
Porque rio demais,
Falo demais,
Dou nas vistas demais.
E não sei ficar quieta
Mais do que o tempo necessário para
Abrir os olhos depois que estes se decidem a piscar.

Mas tudo bem!
Venha mais essa metamorfose.
Sou capaz de aguentar.
Tudo é melhor,
Tudo é preferível,
Ao deserto de tristeza sem fim,
Sem oásis nem palmeiras bonitas,
Nem possibilidades de poças de água fresca,
Nem sons de camelos salvadores
Vindos de algum grupo de beduínos,
Que me possam acolher,
Dar boleia e deixar-me descansar.

Vamos então…
Dançar de forma diferente.
Num novo salão,
Com uma nova orquestra.
Tens sido o meu maestro,
O meu DJ favorito.
Muda o som,
Muda o ritmo,
Escolhe outra canção.

Ainda me lembro das psicadélicas,
A porem brilhantes nas minhas calças brancas
apertadinhas de ganga.
Ainda me lembro dos movimentos interrompidos e continuados,
Das conversas gritadas ao ouvido,
Da confusão gostosa da pista…
Da escuridão aos cantinhos,
Que escondia os beijos e os abraços,
Da cabeça a rodar…
Do resto do corpo sem saber muito bem
Quando e onde parar…

Não conheço todos os ritmos,
Não te posso acompanhar em todas as danças…
Mas sei dançar.

E sei imaginar,
E sei-te encontrar no meio de milhares de rostos diferentes,
E consigo falar contigo,
Por entre todos os que nos vêem,
Sem mais ninguém notar.

Mas… e se eu estiver a sonhar?
Não, já te conheço um bocadinho.
Não eras capaz de simplesmente me abandonar.
Porque tu és bom, o melhor homem do mundo,
Não te apagavas como um sol que deixou de brilhar.
E porque eu sei
E tu também sabes,
Que nunca deixaste de me amar.

            Embora lá então? Vamos dançar? Podes conduzir, eu deixo-me levar.

domingo, 27 de novembro de 2011

Agora percebo mamã

Agora compreendo, mamã…
Agora percebo os sacos amontoados no chão,
A desarrumação, a desordem,
O desespero no teu coração.
As limpezas que nunca fazias,
As roupas que nunca costuravas,
As palavras bonitas que nunca tinhas para me dizer,
Mesmo quando eu era a melhor da classe,
Mesmo quando ouvia todos os teus disparates
E conseguia controlar a vontade de abrir a boca.

Agora entendo as lágrimas que choravas,
As pragas que rogavas,
Toda a raiva e agonia em que passavas os teus dias.
A tristeza em que vivias
E que eu não conseguia justificar,
Nem aceitar…
Que só agora começo a perdoar.

Tinhas perdido os sonhos,
A capacidade de continuar.
Nalguma altura da tua vida quebrou-se o fio condutor
Que nos mostra que lá á frente pode ser melhor.
Nalguma altura da tua vida,
Tinhas deixado de acreditar,
De lutar,
De esperar.
E não tiveste como pedir ajuda para não naufragar.
Ninguém te viu a afundar.
Não descodificámos os teus pedidos de socorro,
Tapámos os ouvidos para não te ouvir gritar…

E não tinha nada a ver connosco.
Não tinha nada a ver com África,
Com calor,
Com medo do terrorismo.
Não tinha a ver com problemas de dinheiro,
Quando chegámos cá,
Com a casa ser pequena,
Com não haver espaço sequer para andarmos direitos.
Não tinha a ver com a humidade,
Com os jantares de torrada secas com chá…

Nem a culpa era minha,
Por ser má, respondona e descarada.
Nem a culpa era do papá,
Por ser frio e distante e reservado.
Nem sequer havia culpa de ninguém!
Nem tua, mamã.
Porque não pediste para ser assim…
E tinhas sido linda,
Desembaraçada,
Aventureira e apaixonada.

Agora compreendo, mamã.
Se me ouves,
Se me vês,
Não estejas mais triste.
Sei que não fazias por mal.
E sei que devias gostar de mim.
Não te preocupes,
As tuas pragas não resultaram todas.
Não estejas aflita.
Ainda cá estou.
E ás vezes sou até bem feliz.

E nunca desisto de lutar.
Mesmo quando o corpo e a alma
Me pedem para parar.
Lembro-me de ti.
Tão nova ainda,
Tão bonita ainda,
Lembro-me do que te aconteceu
Porque deixaste de acreditar.

Não vou seguir os teus ensinamentos, mamã.
Vês, continuo-te a arreliar…
Vou fazer á minha maneira,
Porque vi a tua,
E não resultou,
Não deu certo…

Nem os homens gostam de ser maltratados,
Nem é vergonha falar de amor quando apetece falar,
Nem tenho que ser sossegada e ajuizada
Se com isso
Tiver que me deixar estar.
E não há nenhum destino que me possa condenar.
Nem nenhum deus mau que me venha castigar,
Só porque não paro de tentar.

E hei-de ser feliz um dia,
E vais-te orgulhar de mim.
E vais-te sentir absolvida,
E vais poder descansar em paz.
Agora compreendo, mamã…
Agora começo a perdoar.
Não sou igual a ti,
Nunca serei,
Mas não quer dizer que tenha algum dia deixado de te amar.

            Hoje a conversa não foi contigo. Mas pensei em ti a cada letra que escrevia.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Vou ver o mar

Passaram-se anos sem que eu fosse á praia sequer.
Agora, quase todos os dias vou ver o mar.
Porque ir ver o mar,
Não é a mesma coisa do que ir á praia.

O mar é grande, sem fim,
Vai mas vem,
Até as ondas mais furiosas vão beijar a areia.
Nunca se afastam dela por muito tempo.
E é bonito, lindo demais,
Tão gostoso de se ver!
Já o tenho visto azul da cor do céu,
Semeado de estrelas douradas do sol,
Quase como um espelho cristalino.
Já o tenho visto escuro e triste,
Da cor do meu coração quando está de inverno na alma,
Como se cada vaga fosse uma lágrima molhada e gigantesca.

E tenho estado às vezes alegre quando estou perto dele.
Às vezes desesperadoramente infeliz!
Tenho-me rido, sorrido para ele,
Tenho-o seduzido á distância pequenina que nos separa,
E tenho feito amor com cada gota da sua água.
E de vez em quando choro e soluço,
Sinto-me perdida e confusa,
Como desgraçada aflita, que desperta de um coma prolongado,
E perdeu tudo o que já foi rumo para si.

E sinto-me tão pequenina, ali parada a olhar.
Com o vento a despentear-me sem eu me importar.
Com a água a salpicar-me,
Sem eu me limpar.
E o mar que é grande e é imenso
Toma conta de mim.
Não me manda embora,
Não me pede tempo,
Não me pede espaço.
Deixa-me estar por perto,
Vai-me enviando uma a uma as suas vagas de conforto.
Porque não peço mais do que isso.
Um lugar aonde possa ficar.
Um abraço do tamanho do mundo aonde possa descansar,
Uma mão imensa que me limpe o rosto,
Me acaricie quando eu chorar.

Às vezes o telefone toca,
E é uma mensagem tua a entrar.
Às vezes não toca,
E eu fico na minha eterna senda de esperar…
Mas o mar não cobra.
Não quer saber o porquê,
Nem o depois,
Nem pede justificações para os risos,
Ou para as lágrimas.
Deixa-me apenas ficar.

E é por isso que não imagino a minha vida,
Sem ir ver o mar.

E é bonito ouvir o barulho que faz!
Grita e brame, agita espumas, atira água para o ar…
Molha os pescadores que por ali andam todos os dias,
E que recuam numa fuga divertida e respeitadora
De quem conhece mas teme,
De quem tem uma relação antiga de companheirismo,
Mas reconhece a hora de recuar.

Lambe as rochas aos meus pés,
Como um amante que se aproxima do corpo da amada,
E o avalia, o prepara, se demora com ela,
Antes de avançar.
E não tem pressa,
Faz com vagar,
Com cuidado, com paixão,
Até ouvir gemer,
Até ouvir suspirar…
Até nisso é parecido contigo, o mar…

E posso ficar tanto quanto puder.
Porque não existe outro relógio do que o da vida cá fora.
Lá, pertinho do principio do fim do mundo,
Nem o calendário me consegue atingir,
Nem o tempo me consegue segurar.
E sou finalmente livre de partir ou ficar.
Não há por perto braços que me possam manietar,
Nem mãos que me possam magoar.
Sou só eu e ele.
Eu e o mar.

            Vou comprar um chocolate, vou para perto do mar. Já não te posso contar…

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Desculpa

Nem tanto, nem tão pouco.
Não interessa,
Eu não sei ficar no meio.

Se amo, adoro.
Se não gosto, não consigo fingir.
Ou vejo cor de laranja por todo o lado,
Ou o mundo fica cinzento de uma só vez.
Ou choro,
Ou rio á gargalhada.
Ás vezes sou tão feliz!
Quase de causar admiração em quem vê…
Ás vezes sou tão miserável,
Que só me apetece desaparecer!

Não sei dar espaço.
Não sei dar tempo.
Nem consigo ter calma,
E ficar sentada á espera.
Sou incapaz de deixar que o destino,
Ou o acaso,
Decidam como vai ser a minha vida,
Enquanto eu assisto ansiosamente
Sentada na plateia.

E só faço disparates,
E só cometo erros atrás de erros.
E pressiono,
Sufoco,
Asfixio quem está por perto.
Não peço demais.
Dou demais!
Dou mais do que aquilo que se consegue aguentar.
Porque eu sou mesmo assim.
Porque não sou equilibrada,
Racional,
Nem objectiva.
E a minha maturidade resume-se
A correr em busca da felicidade.
E o meu objectivo nunca é lá para a frente,
É sempre para aqui,
Para agora.

Porque quando dou,
Dou tudo.
E as pessoas não querem receber tudo.
Querem prestações,
Querem demorar tempo,
Querem estabelecer os próprios calendários
De quando dar,
De quando amar,
De quando procurar…

Eu não consigo ser assim!

Para mim não existem dias,
Nem alturas mais propícias.
Todos os dias são bons para falar de amor,
Todas as alturas são indicadas para dizer que gosto de alguém.

E esmago,
E não deixo respirar.

Mas não faço por mal.
Não sei ser diferente.
Tento sempre mudar um bocadinho,
Faço grandes planos de me transfigurar,
De ser comedida,
Prática,
Directa.
Prometo sempre que vai ser melhor,
Que me vou transformar…

E lá estou de novo.
Na mesma.
A procurar,
A falar,
A torturar,
A sufocar,
A importunar.
A pedir colo,
Atenção
Carinho…

            Desculpa mais uma vez. Sei que já estás farto de me perdoar…

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Fiquei de mal contigo

Ontem fiquei de mal contigo…
Fiquei triste,
Desiludida, magoada…
Com a lágrima a espreitar no canto do olho,
Como fico sempre
Que falam de maneira dura comigo.

Mais do que triste,
Mais do que magoada,
Fiquei a pensar,
Se de alguma maneira
Não estou enganada.

Porque eu só queria ajudar…
E tu devias ter percebido.
Porque não podes ser o homem mais inteligente do mundo,
E não teres entendido.
Não podes ser o mais sensível, o mais brilhante,
E agires comigo como se fosses apenas mais um,
Entre todos os outros infinitos uns.

E veio-me á lembrança
O que uma das minhas amigas,
Que acompanhou a nossa história,
Costuma dizer quando a massacro
Com conversas sobre ti.
O que a minha maninha linda
Me repete vezes sem conta quando lhe telefono.
E veio-me á lembrança aquela voz incómoda
Que sempre tento calar no escuro da noite,
E que fala dentro da minha razão
Com palavras que não me fazem
Bem nenhum ao coração.

“Egoísta, egocêntrico, indiferente, frio,
Incapaz de sentir ou demonstrar emoções”

Não pode ser!
Têm que estar enganadas todas elas.
Porque não te conhecem como eu.
Porque não estiveram contigo como eu.
Não tiveram as nossas conversas
E os nossos segredos.
Não falaram sem palavras
Nos nossos silêncios,
Não decifraram os códigos dos nossos enigmas,
Nem descobriram a combinação secreta de algarismos mágicos
Que abria a nossa fechadura.
Não estiveram contigo sózinhas.
Nem foi a elas que apertaste nos braços
E disseste palavras lindas de amor.
Por isso falam…

É, não é?
Eu não me podia ter enganado tanto assim, podia?

Seria impossível que te adorasse da maneira que adoro,
Que gostasse tanto de ti como gosto,
Se fosses esse monstro de egoísmo…
Se fosse tudo mentira,
Se não existisses sequer…
Porque se não fosses como eu sei que és,
Era o mesmo que não existisses.
Porque aí tinhas sido só um sonho,
Só uma ilusão,
Um delírio de mulher carente,
Numa noite quente de Verão…

Eu sei que foges para longe,
Que te escondes por detrás da protecção do muro
Que levantaste em nome da solidão.
E que julgas que estás seguro aí,
E que podes sofrer á vontade,
Que ninguém dá por ti.
E que se tirares todos que te amam
Do teu caminho,
Terás mais liberdade para chorar á vontade,
Porque te assiste o direito a sentires-te miserável.
Homem, isso não é forma de se viver!
Nessas escolas complicadas aonde te formaste
nunca ninguém te ensinou a ser feliz?

As outras pessoas estão enganadas.
A voz intrometida que fala na minha cabeça
Também está enganada.
Escolho não acreditar em nenhuma delas.
Vou continuar a apostar todas as minhas fichas em ti.
Vou continuar a colocar todos os ovos no teu cesto.
Não vou desistir de fazer com que percebas que podes sorrir.
Nunca é tarde para mudar.
A idade, o tempo, a formação, a criação,
Nada disso te vai condenar á solidão!
Só se eu não poder evitar.
Ainda me resta algum tempo para lutar…
Algum chão para andar.

Depois…
Não sei.
Posso falhar,
Posso fracassar…
Não, não posso!
Só de deixar de acreditar.

            Vais precisar de fazer muito pior, para me afastar.
            Vê bem no que te meteste, quando me foste cativar J

sábado, 19 de novembro de 2011

Porque hoje é Domingo

Porque hoje é domingo,
Não queria ter que ficar por aqui.
Não queria arrastar as horas, os minutos, os segundos.
Nem queria que o dia demorasse tanto a passar.
Queria poder fechar os olhos,
E fazer como fazem alguns bichinhos,
Hibernar.

Não gosto de me sentir fechada,
Nem que os meus olhos vão de encontro às paredes
E não consigam voar.
Não aguento muito bem o barulho,
Os gritos de agora que fazem lembrar os gritos antigos.
As portas trancadas que recordam
Tantas trancas que lutei para abrir, para forçar.
As janelas fechadas,
As cortinas sem voar,
O ar sem poder entrar.
Dá-me um sufoco, um aperto no coração…
Queria fugir, desaparecer, não voltar.
Ir dar a volta ao mundo,
Ou ir só até á esquina e continuar,
Beber café,
Ver montras,
Apanhar sol,
Conversar.

Queria convencer os fantasmas antigos
De que já não pertencem a mim,
Que podem ir embora,
descansar e desaparecer.
Mas os espectros antigos e os novos confundem-se e misturam-se
Num jogo macabro de me fazer sofrer.

Como detesto os fins de semana,
Com todo o tempo que me separa da semana nova!
Com todos os silêncios,
Com todas as promessas que ficaram por cobrar…

Quem me dera que o meu calendário
Fosse diferente dos demais.
Quem me dera que os meus dias
Fossem parecidos comigo,
Soltos, leves, irreais.
E não tivesse que parar,
Que pensar,
Que chorar.

Há quantos anos não gosto do fim de semana!
Há quantos anos não tenho um feliz fim de semana…

Queria que alguém aparecesse para me vir buscar,
Que alguém se lembrasse de mim,
E me viesse salvar.
Mas o pó da estrada nunca se levanta
Com os cascos de nenhum cavalo branco a chegar.
Nem o barulho que ouço,
É o barulho de alguém a bater
Para poder entrar.

Se pudesse ao menos ir ver o mar…

Noites em lençóis de cetim branco

Lençóis de cetim branco
Não quero, não preciso.
Fronhas de renda, também não.
Nem cama de dossel com escadinha para subir.
Tão pouco brocados de veludo ou acolchoados de seda.

Não me faz falta ser a não sei quantos,
Do senhor não sei quê,
Ou poder ter todas as coisas que nunca tive.
Muito menos que me considerem na rua,
Ou que me dirijam olhares respeitosos quando passo.

Nenhuma dessas coisas me atrai ou me seduz.
Nem roupas bonitas, nem sapatos da moda,
Nem penteados sofisticados ou pinturas elaboradas no rosto.

Sou como tu sabes,
Tão simples e vulgar.
Sem batom nos lábios, nem sombras nos olhos,
Nem verniz nas unhas ou cor artificial no rosto.
E uso o cabelo da maneira que sabes,
Desmanchado, selvagem e coberto dos caracóis com que nasci.
Visto-me como tu já viste,
As velhas calças de ganga apertadas,
Ou as saias justinhas das ocasiões especiais.
Quando não vou ter contigo,
Nem saltos altos uso…

E não sei falar de todas as coisas bonitas de que tu falas.
E não conheço os sítios interessantes que tu conheces.
Nem tenho um francês tão bom como o teu,
Nem te consigo acompanhar em todos os lugares aonde vais.
E estou constantemente a perguntar-te o porquê de tudo que não sei.
E vejo-te como ao homem mais inteligente do mundo,
Aquele que tem sempre todas as respostas,
Aquele que sabe sempre justificar tudo.
Passo a vida a incomodar-te com alguma coisa,
Com algum recado.
Não consigo começar o dia feliz,
Se não me dizes olá.
Não consigo desligar o telefone á noite
Se não me dizes até amanhã.

Não preciso de quartos de luxo.
Não preciso de lençóis de cetim branco.
Nem de recordações caras para levar para casa antes de sairmos.

Não sei como se abandonam, como se entregam, as mulheres finas e requintadas,
Como suspiram, como gemem,
Que palavras sussurram quando fazem amor.
Nem que gestos delicados empregam para abraçar o homem
Que se deita com elas na cama.
Só sei que quando me tocas,
Muito antes de me tocares,
Quando me beijas,
Muito antes de me beijares,
Ou quando me apertas de encontro a ti,
Muito antes ainda de me apertares,
Já perdi o controlo e a noção,
E já não consigo nem pensar,
Quanto mais ser sofisticada e elegante na arte de amar.

Não preciso de lençóis de cetim branco.
Preciso de ter o teu abraço para me confortar,
Para me guardar toda lá dentro,
Para me fazer sentir protegida e acarinhada.
Preciso do teu sorriso para me alegrar quando estou triste.
Dos teus olhos lindos para eu poder olhar á vontade,
De frente, de cima, de baixo,
De onde eles se deixarem fitar.

E preciso que fiques comigo,
E tires o casaco, e esqueças a gravata.
E desligues essas maquinarias intrometidas que apitam e tocam,
E te deites comigo ainda que em lençóis de flanela,
Ou sem lençóis nenhuns nem cama nenhuma,
E sintas como eu sentir…
E respires como eu respirar,
E me beijes por todo o lado que eu precisar,
E te percas comigo
E deixes que eu acabe por te encontrar,
E que não saias mais depois de entrar.

            Não preciso de lençóis de cetim para nada. Só preciso de ti perto de mim…