sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 27 de novembro de 2011

Agora percebo mamã

Agora compreendo, mamã…
Agora percebo os sacos amontoados no chão,
A desarrumação, a desordem,
O desespero no teu coração.
As limpezas que nunca fazias,
As roupas que nunca costuravas,
As palavras bonitas que nunca tinhas para me dizer,
Mesmo quando eu era a melhor da classe,
Mesmo quando ouvia todos os teus disparates
E conseguia controlar a vontade de abrir a boca.

Agora entendo as lágrimas que choravas,
As pragas que rogavas,
Toda a raiva e agonia em que passavas os teus dias.
A tristeza em que vivias
E que eu não conseguia justificar,
Nem aceitar…
Que só agora começo a perdoar.

Tinhas perdido os sonhos,
A capacidade de continuar.
Nalguma altura da tua vida quebrou-se o fio condutor
Que nos mostra que lá á frente pode ser melhor.
Nalguma altura da tua vida,
Tinhas deixado de acreditar,
De lutar,
De esperar.
E não tiveste como pedir ajuda para não naufragar.
Ninguém te viu a afundar.
Não descodificámos os teus pedidos de socorro,
Tapámos os ouvidos para não te ouvir gritar…

E não tinha nada a ver connosco.
Não tinha nada a ver com África,
Com calor,
Com medo do terrorismo.
Não tinha a ver com problemas de dinheiro,
Quando chegámos cá,
Com a casa ser pequena,
Com não haver espaço sequer para andarmos direitos.
Não tinha a ver com a humidade,
Com os jantares de torrada secas com chá…

Nem a culpa era minha,
Por ser má, respondona e descarada.
Nem a culpa era do papá,
Por ser frio e distante e reservado.
Nem sequer havia culpa de ninguém!
Nem tua, mamã.
Porque não pediste para ser assim…
E tinhas sido linda,
Desembaraçada,
Aventureira e apaixonada.

Agora compreendo, mamã.
Se me ouves,
Se me vês,
Não estejas mais triste.
Sei que não fazias por mal.
E sei que devias gostar de mim.
Não te preocupes,
As tuas pragas não resultaram todas.
Não estejas aflita.
Ainda cá estou.
E ás vezes sou até bem feliz.

E nunca desisto de lutar.
Mesmo quando o corpo e a alma
Me pedem para parar.
Lembro-me de ti.
Tão nova ainda,
Tão bonita ainda,
Lembro-me do que te aconteceu
Porque deixaste de acreditar.

Não vou seguir os teus ensinamentos, mamã.
Vês, continuo-te a arreliar…
Vou fazer á minha maneira,
Porque vi a tua,
E não resultou,
Não deu certo…

Nem os homens gostam de ser maltratados,
Nem é vergonha falar de amor quando apetece falar,
Nem tenho que ser sossegada e ajuizada
Se com isso
Tiver que me deixar estar.
E não há nenhum destino que me possa condenar.
Nem nenhum deus mau que me venha castigar,
Só porque não paro de tentar.

E hei-de ser feliz um dia,
E vais-te orgulhar de mim.
E vais-te sentir absolvida,
E vais poder descansar em paz.
Agora compreendo, mamã…
Agora começo a perdoar.
Não sou igual a ti,
Nunca serei,
Mas não quer dizer que tenha algum dia deixado de te amar.

            Hoje a conversa não foi contigo. Mas pensei em ti a cada letra que escrevia.

2 comentários:

  1. Querida Glória,

    Quanta emoção nestas palavras, que reflectem o quanto sofres, apesar de continuares em busca do teu final feliz. Sim, nunca devemos desistir. Sim, devemos continuar na busca pela felicidade. E eu apoio-te em cada passo do teu caminho.

    Beijinho grande,

    Anabela

    ResponderEliminar
  2. Olá Anabela,
    Obrigada pelo comentário, e pelo apoio.
    Devemos, não devemos? Se queres que te diga, ás vezes nem sei bem já... Mas não ligues, são efeitos do sono. Já é tardíssimo!
    Obrigada pelo carinho.
    Beijinhos,

    Glória

    ResponderEliminar