sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Liberdade

Ando a reaprender a voar.
Estive muito tempo a espreitar o mundo por detrás das minhas janelas.
Perdi o jeito, perdi o jogo de cintura, perdi o savoir faire.
A liberdade apanhou-me como se fosse uma rajada de vento a bater de encontro a uma construção frágil. Não é preciso que o vento abane muito, não é preciso que sopre com muita força. As paredes cedem quase sozinhas.
É a segunda vez que acontece na minha vida, uma viragem assim tão completa. Uma sensação assim tão mágica e tão assustadora ao mesmo tempo. É a segunda vez em que me sinto tão sozinha, tão perdida, tão sem rumo…
A primeira vez foi quando a minha mãe morreu. E morreu junto com ela o controlo tresloucado a que me submetia. As idas e vindas acompanhadas da escola, a escolha criteriosa das minhas amigas, a obrigação de vestir sempre a roupa bem comportada que ela me deixava destinada do dia anterior, bem dobrada, sobre o banco do quarto. Os choros constantes, os queixumes, as lamúrias, pragas, raios e coriscos…
Descobri a rua! As pessoas. O mundo lá de fora. O universo inteiro que existia para lá das paredes húmidas e bolorentas da nossa caverna. Foi bom! Foi maravilhoso! Nunca me esqueci da sensação de liberdade. Do mundo inteiro ser meu, poder estar na minha mão… O bem que me soube poder ir por onde quisesse, ás horas que quisesse, junto com quem quisesse… O bom que foi descobrir que não era assim tão má, nem tão feia, nem tão horrorosa que merecesse ralhos e castigos a toda a hora… O bom que foi ter pessoas que gostavam de mim, que me davam carinho, a quem eu podia finalmente dar beijinhos, abraços, com quem podia chorar e rir, sem etiquetas de com licença e por favor, sem medo de errar as reverências e as conveniências, sem mais nada que não fosse o ser feliz a cada dia, com cada um, a cada instante!
Agora, pela segunda vez, a liberdade alcançou-me no meio da estrada. Na outra ocasião em que me visitou, ficou comigo tão pouco tempo, menos do que meia dúzia de anos, e foi-se embora durante uma eternidade cinzenta e cheia de nevoeiro frio e peganhoso. Desta vez, não a quero deixar ir embora de perto de mim. E quero conseguir agarrá-la nas minhas mãos todos os dias, ver se está bem, se precisa de alguma coisa, para não me abandonar e desaparecer de novo na primeira esquina do caminho. Está a ser bom! Muito bom! Mas de qualquer maneira sinto-me muito sozinha, muito perdida, muito sem chão.
Posso ir e sair, posso passear, conversar, rir brincar. Posso ter os amigos que quiser, divertir-me e sair com quem me apetecer. Voltei a não ter dono, nem sela, nem arreios, e ninguém para me picar com as esporas e me controlar o andamento.
Mas gostava tanto de ter alguém comigo nesta caminhada linda pela luz estonteante do mundo lá de fora! Não um alguém qualquer, mais fácil de arranjar do que sair á rua e apanhar ar. Queria o meu amor comigo, pertinho de mim. Seja lá de que forma fosse. Mas meu, e para mim. Queria que quando o procuro, me falasse de novo com palavras de amor, e não de simples amizade. Queria que ele gostasse de mim, da mesma forma que gosto dele. E que não se fosse embora lá para aquele sítio longe para onde ele quer ir… E que me voltasse a procurar, a chamar, que me apertasse nos braços e não me deixasse sair mais. E não tornasse a deixar-me sozinha no meio da rua, á espera de um dia quem sabe…
Porque até mesmo a liberdade perde muita da sua graça, quando não vem acompanhada com amor. E eu abria mão, a sorrir, de todos os passeios, de todos os cafés, de todos os centros comerciais e de todas as praias do mundo, se ele me mandasse outra vez uma mensagem a dizer “- Amo-te muito, estou a ir ter contigo.”

                        Também te amo. Vou já sair! Vem-me buscar…

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