sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 6 de novembro de 2011

Mais saudades não!

Ficaram as saudades…
De tudo, desde sempre,
Desde que me lembro de ser eu…

Saudades das casas variadas e distantes que atravessávamos durante pouco tempo,
Dos lugares, das paisagens que só recordo de nome,
Dos rostos que nem me lembro mais.
Daquela azáfama de arrumar as coisas todas, tantas vezes!
Da novidade que era ir para outra localidade.
Eu era tão, mas tão pequena!
Lembro-me ainda…
João Belo, Mocimboa da Praia, Quelimane, Beira, Sofala…
O meu pai não ficava muito tempo num lugar só.
Logo ele que amava o sossego e a quietude como a si próprio…
Transferências e mais transferências,
Repartições e mais repartições.
A minha mãe a reclamar, a queixar-se,
Ele sem lhe dar ouvidos, distante, frio, seguro de si ou simplesmente infeliz.
Eu a pedir aos santinhos que conhecia do livro de missa da minha mãe
que fosse daquela vez que as coisas da vida fossem ficar bem…
Sempre fui assim,
Nunca deixei de ter esperança.

Saudades de casa quando ia para a escola.
Para o colégio particular que custava a pagar ao fim do mês,
Mas aonde a minha mãe entendia que podiam fazer de mim
uma menina civilizada, e não uma selvagem sem maneiras nem modos.
Saudades que faziam doer a alma quando me lembrava do meu quarto,
das minhas bonecas, da minha maninha linda,
de todas as coisas a que estava habituada
e que ficavam todo um dia inteirinho afastadas de mim.
Até saudades da rabugice da minha mãe, de ir com ela às compras,
De escolher a fruta na casa de frescos, de ver as montras na baixa…
De estar em casa á hora que o meu pai chegava do serviço,
De lhe dar um beijinho de fugida,
de me sentar com ele á espera da hora de jantar.
De o ouvir falar do mundo, tão grande,
tão distante e tão sedutoramente perigoso!

Saudades depois da minha terra.
Saudades enormes de ter um lugar meu, de pertencer a algum lado,
De me sentir em casa nalgum sítio.
Saudades de ter uma casa bonita como as de lá,
confortáveis, com brinquedos, com bonecas, com sol no coração.
De ver o mar no fundo de cada rua,
de ver as estrelas aos milhares penduradas no céu de veludo escuro
da janela do meu quarto.
Saudades de andar de mão dada com o meu pai,
de beber coca-cola e comer batatas fritas em todos os cafés da cidade,
Saudades, só saudades…
De tudo, de mais do que tudo,
porque o tudo sempre foi pouco demais para mim
e sempre entendi que por detrás daquilo a que chamam de tudo,
tem que haver ainda muito mais.

Saudades, quando era rapariguinha, até de ter horários para cumprir.
Saudade até dos ralhetes da minha mãe, quando já não estava cá para me ralhar…
Porque a gente sonha tanto em ser livre e dona do seu nariz,
que por vezes nos esquecemos que até das limitações fica uma certa nostalgia.
Porque sempre era sinal de que alguém se importava, de que alguém queria saber…
Saudades de ser outra vez a menina pequenina de cabelos crespos,
Sonhos no coração, sorriso no rosto,
sempre a querer saber o porquê de todas as coisas do mundo,
sempre a pedir atenção, colo, carinho, mais do que havia para me darem!
Sempre a viajar por algum plano maravilhoso do universo
para fugir ao cinzento deste lado e desta dimensão.

Saudades hoje de tanta coisa que ficou pelo caminho!
De tantas pessoas que saíram da minha estrada
e escolheram outros lugares para caminhar.
De tantos rostos de que gostei e não sei se verei mais.
Familiares, amigos, namorados, colegas de escola, de trabalho…

Não me sobraram muitas pessoas.
Não consegui guardar muitos afectos comigo.
Deixei-os fugir por entre os dedos, porque sempre pensei que voltariam um dia,
Porque não estive para me ralar, porque o amanhã sempre ficou lá tão longe de mim…
Não quero perder mais ninguém.
Nem mais uma pessoa das que amo.
Não quero acrescentar mais rostos á lista daqueles de quem tenho saudades.
Nem que tenha que atravessar mares e desertos de indiferença,
Nem que tenha que lutar e vencer dragões que vomitam fogo,
mesmo sem ter capa nem espada, nem cavalo branco para montar e fugir.

Saudades para mim, já chegam.
De tudo o que amei, de tudo o que vivi, de tudo o que conheci.
Saudades podem parar por aqui.
A partir de agora não vão aumentar, não vão crescer demais para mim.

Vou estar sempre contigo. Nunca vais sequer chegar a sair do meu coração.
Não vou precisar de ter saudades tuas.

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