sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Mesmo que quisesse, não sabia como desistir

No outro dia, uma amiga disse-me que devemos saber quando desistir.
Que temos que ter o discernimento de descobrir quando vale a pena tentar, e de quando é altura de simplesmente capitular.
E que se não formos inteligentes o suficiente para tirarmos a nossa equipa de campo, na ocasião certa, corremos o risco de sair depois desmoralizados, desacreditados e sem força para novas lutas.
Eu ouvia-a, porque ouço sempre o que têm para me dizer, e porque ela é minha amiga e eu gosto muito dela.
Mas não concordei.
Todas as pequenas vitórias da minha vida, tive-as porque nunca quis desistir. Mesmo quando todas as evidências apontavam no sentido contrário, mesmo quando todas as certezas me mostravam habilmente o quanto errada eu estava, mesmo assim, nunca fui capaz de pôr de lado algo, ou alguém, que eu queria muito.
Quando parecia tão impossível que fosse capaz de sobreviver longe do meu pai, estando eu sem morada certa, sem emprego, sem dinheiro, sem sequer uma muda de roupa, eu saí na mesma. Levei apenas o meu bilhete de identidade, para provar que tinha dezoito anos feitos, e lá fui eu. Nem as lágrimas da minha maninha linda me detiveram. Nem o medo irracional de que o meu pai me conseguisse encontrar, mandar trazer de volta, manter-me fechada na caverna para o resto da vida, nem isso foi capaz de me fazer desistir. E consegui sobreviver. E consegui arranjar trabalho, casa, dinheiro. Verdade que nunca fui muito feliz no caminho que escolhi, mas pelo menos foi o meu caminho, e foram as minhas escolhas e as minhas decisões que me colocaram no centro do vendaval que tem sido a minha vida.
Quando resolvi mudar de emprego, deixar para trás os amigos e colegas que tinha há tanto tempo, deixar a segurança de um trabalho que pedia pouco de mim, mas que me dava dinheiro suficiente para sobreviver e aonde tinha pessoas de quem gostava muito, foi também a minha persistência cega que me fez seguir em frente. Arriscar apesar dos avisos, dos conselhos para não me precipitar, para não trocar o seguro pelo desconhecido, para não dar um passo maior do que as pernas. E fui, e concorri, e mudei, e comecei tudo de novo, numa angústia triste de caloira no primeiro dia de aulas, numa turma de alunos maiores e mais velhos que se conheciam há décadas, e aonde eu não era capaz nem de encontrar a sala de aulas, quanto mais conhecer a escola como devia de ser. Mas fiquei por lá muito tempo, aprendi muita coisa, e fiz novos amigos, e conquistei novos conhecimentos, rasguei outros horizontes e fiquei a ganhar um ordenado muito bom para a época e a poder comprar e ter coisas muito diferentes das que tinha tido até então.
E depois, quando deixei o meu emprego e vim para casa, perante a perplexidade de toda e gente, também foi a minha teimosia cega que não me deixou desistir. Porque achava que estava a fazer o que era certo, porque não encontrava alternativa e porque na altura me pareceu ser o melhor a fazer. E demiti-me de um emprego aonde podia ter ficado o resto da minha vida, aonde podia ter tido promoções, evoluções de carreira, aonde tinha ainda tantas coisas para descobrir a prender. Mas não voltei atrás, entendi que era o que eu queria e vim mesmo embora. Verdade que já me tenho arrependido milhões de vezes e já tenho maldizido o momento em que o fiz, mas sei bem que se voltasse atrás, voltaria a fazer o mesmo, porque não tive outra opção, e porque naquela altura era o que eu queria e precisava.
Quando saí do meu casamento, quando vim viver para outra casa, também não desisti apesar de todas as evidências que apontavam ser um erro enorme, um salto no escuro, uma queda no abismo, um lançar-me no espaço sabendo que não havia rede por baixo. De nada serviram todos os concelhos, todas as advertências, todas as ameaças. Quando resolvo uma coisa, quando me convenço que é o melhor para mim, quando decido que é o que quero fazer, nada nem ninguém me pode demover. E saí, e vim para uma casa nova, e comecei uma vida de fresco. Tem sido complicado, tem sido difícil, mas tem sido muito bom! Tem sido maravilhoso! E tem sido o caminho que eu escolhi. Não o que escolheram para mim, e o que queriam que eu continuasse a trilhar. Vim para uma casa maior, mais bonita, mas nem que tivesse ido para outra pior, mais fria, húmida, ainda assim seria muito melhor do que o que tinha, ainda assim seria a minha escolha e o que eu queria fazer.
Tentei convencer a minha amiga de todas estas verdades, e ela disse simplesmente que tenho tido sorte e que um dia a minha sorte vai-se acabar, se não parar de desafiar o destino, e fazer pirraça á vida. Mas a sorte favorece os audazes, dizem… Não me tenho podido queixar. Tenho resolvido os meus problemas sem fugir deles, sem desistir de nenhuma das soluções que tenho encontrado para tentar ser mais feliz. Sou teimosa, muito teimosa!
E não vou desistir também de lutar pelo amor da minha vida. Apesar de tudo parecer mostrar que não há razão para ter esperança, que não há nada porque esperar, que o que passou não pode regressar. Eu sei que não é assim. Eu sei que tudo tem remédio e tudo tem solução. E que quando queremos muito uma coisa, ela acaba por acontecer, se não cruzarmos os braços, se não amuarmos, se não desistirmos de tentar e de acreditar. Enquanto eu acreditar que é possível, vai continuar a ser possível. E até eu parar de lutar, vou ter sempre a hipótese de conseguir.
“Uma num milhão” disse-me a minha amiga. “A hipótese que tu tens de conseguir é uma num milhão”. Eu sorri-lhe de volta. Essa uma, é mais do que suficiente para que eu não desista. Essa uma, só existe porque eu estou ainda a tentar, a acreditar. Se não, nem essa uma hipótese num milhão existiria já.

            Eu chego até ti outra vez. Ainda me lembro tão bem do caminho. Só empurrar a porta, nunca esteve fechada para mim. Tu é que julgaste que tinhas trancado a fechadura.

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