sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Nem todos amamos de forma igual

Nem todas as pessoas gostam de forma igual.
Tenho dito isto vezes sem conta nos últimos tempos.
Para me justificar, para justificar o mundo, para justificar quem sabe, toda a falta de justificação que existe na confusão da minha cabeça.
Mas no fundo, é verdade.
Para gostar é preciso entrega, é preciso que se tenha o dom de pensar tanto na outra pessoa como em nós, é preciso amar a felicidade de quem amamos, tal como amamos a nossa.
Nem todas as pessoas conseguem fazer isso.
Não importa se são inteligentes, brilhantes, cultas, viajadas, ou se são broncas, ignorantes e obtusas.
Se não tiverem a capacidade de amar, todas elas se encontram no mesmo patamar, no mesmo lugar escuro destinado a quem não consegue ser feliz.
Lembro-me do meu pai… O primeiro grande amor da minha vida. Lembro-me do quanto eu gostava dele, do quanto lutava para ele me notar, me dizer alguma coisa bonita, me dar um beijinho!
Recordo-me de como ele me mantinha sempre a uma razoável e segura distância. De como ele me permitia entrar apenas até certo ponto, De como eu sabia que gostava de mim, mas nunca foi capaz de mo dizer! Mas lembro-me também muito bem do sorriso disfarçado de felicidade dele, quando eu o vinha esperar á porta de casa, me pendurava nas suas pernas, lhe conseguia dar um beijinho de fugida no rosto, lhe conseguia fazer um afago, endireitar o alfinete da gravata… Lembro-me de como ele preferia ficar sozinho, isolado na sua secretária a escrever, recatado, nem a minha mãe podia interrompê-lo nessas alturas. Ela protestava, reclamava, mas não ia lá. Eu ia! Entreabria a porta, entrava sem ele me dar permissão, rodeava a secretária de madeira escura e sentava-me no colo dele. Nunca me mandou embora, nunca me ralhou, apesar de ter pedido para não ser incomodado. Também nunca me deu o tal beijinho que eu queria, nem o tal abraço que eu pedia, mas eu sabia que ele ficava feliz em me ter ali. Porque eu o tinha procurado na sua solidão, mesmo sem ser convidada, e me recusava simplesmente a ir embora.
E vejo como se fosse hoje a minha mãe amargurada por se ter casado com um homem sem sentimentos, sem coração, que não gostava de ninguém, nem dele próprio, como ela dizia. E eu sabia que não era verdade! Eu compreendia que ele só não era capaz de demonstrar o que sentia. Vivia por demais escondido e escudado dentro de si próprio e por detrás das suas pobres defesas. Protegido dos ataques do mundo, mas cativo da solidão, da descrença. Com medo de abrir a porta e não haver ninguém do outro lado para entrar.
Nem consigo imaginar sequer a tristeza que deve ser gostarmos de alguém, sentirmos a pessoa a sofrer, a ameaçar de ir embora, e mesmo assim não sermos capazes de estender uma mão, de abrir os braços, de pedir que ela fique. Deve ser uma tortura horrível! Deve de dar uma sensação de impotência extraordinária, deve provocar uma dor enorme! Não me parece que pessoas assim tão infelizes mereçam sofrer ainda mais ao serem condenadas por quem não percebe o quão miseráveis se sentem por serem assim!
Nunca fui capaz de esconder quando gosto de alguém. Prometi a mim mesma, quando era pequenina que nunca o iria fazer. Quando amo alguém digo, falo, fico por perto, mando recados, mando mensagens, telefono… Fico peganhenta e aborrecida como só eu sou capaz de ser! Tenho um pavor enorme de não ser entendida, de deixar palavras por dizer, atitudes por tomar, desafios por enfrentar. Quero sempre ter a certeza de que fiz tudo o que era possível fazer, tudo o que estava ao meu alcance para as coisas saírem bem, e correrem na maior das felicidades. Não tenho medo de dar parte de fraca, de me expor, de me revelar. Mas isso sou eu que sou assim.
Nem todas as pessoas gostam de forma igual.
Isso não faz delas más pessoas, nem pessoas frias. Não quer dizer que não amem com todas as forças de que são capazes, e se calhar com uma intensidade que nem conseguimos imaginar. Quer apenas dizer que têm medo de ser felizes. Têm medo de serem magoadas, rejeitadas, preteridas, abandonadas. Não conseguem abrir o coração da mesma forma como eu o faço. Não conseguem dizer “amo-te muito” da mesma forma como eu digo. Nem conseguem pedir para eu ficar, quando digo que me vou embora. E quando pedem para eu me manter á distância, muitas vezes estão a pedir para não os deixar, e quando dizem que querem estar sozinhos, muitas vezes estão a segurar-me na mão, sem eu sentir. E quando me ignoram, não me atendem, não me respondem, muitas vezes estão do outro lado, a implorar em segredo para que eu não desista de os procurar.

Não te preocupes comigo, não vou a lado nenhum…

Sem comentários:

Enviar um comentário