sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Não vou cortar os cabelos...

Não, não vou cortar os cabelos,
Nem vou pintar a cara,
Nem vou pôr de lado as minhas calças apertadinhas de ganga…
Quero nem saber se não posso entrar em todos os lados…
Se não sou sofisticada o suficiente,
Cuidada o suficiente,
Disfarçada o suficiente.

Sempre fui assim!
Selvagem e solta.
Nunca tive paciência para cortes de cabelo complicados,
Nem para passar horas perdidas num cabeleireiro.
Tão pouco gosto de pôr tintas no rosto,
Nem nos olhos,
Nem nos lábios…

Gosto de mim como sou.
Cabelos compridos, cheios de caracóis indomados,
Mal presos, desarrumados, a voarem ao sabor do vento.
A baterem-me no meio das costas,
A fazerem-me comichão no pescoço,
A brincarem-me no rosto e a afagarem-me os lábios.

E simpatizo com a minha cara lavada,
Com os meus olhos castanhos sem lápis, sem sombras,
A brilharem sozinhos como duas sentinelas de vigia.
E simpatizo com os meus lábios cheios e carnudos,
Entreabertos como que sempre a pedir um beijo,
Sem batom, sem brilhos cintilantes,
Só e simplesmente lábios de carne
Que gostam de sorrir, de falar, de beijar, de suspirar e de gemer de prazer.

As minhas calças de ganga apertadas
Fazem parte de mim desde que eu me conheço.
E não me sinto bem com roupas estranhas,
Vincadas, engomadas,
Parecidas com fatos masculinos de alfaiate,
Classicamente fechadas num cinzentismo odioso sem fim.
Gosto de salientar o que tenho de bonito,
Gosto da curva bem pronunciada da minha cintura,
Gosto do arredondado das minhas ancas.
Gosto das camisolas simples que uso,
Que não escondem nada,
Que não disfarçam, nem aumentam, só revelam
Na mesma simplicidade única com que sei existir.

E gosto de casaquinhos justinhos e curtos,
Gosto de botas de salto alto,
Gosto do meu andar meio dançado, meio rebolado,
Uma perna em frente da outra,
Num gingar de ancas casual e desafectado.
E gosto de sorrir na rua para quem sorri para mim,
De falar com quem mete conversa comigo.
Gosto de espreitar por cima do ombro para os que me seguem com o olhar…
Gosto de rir, gosto de conversar
Passear, andar.
Namoriscar com o sol, e o vento e o mar.
Ando de amores com a chuva, as estrelas, o céu
Desde que me lembro de existir,
E é assim que gosto de ficar,
Numa relação secreta de sexo apaixonado com o universo,
Com orgasmos explosivos, gostosos e demorados de luzes de mil cores,
Depois de uma sessão longa de beijos molhados, lentos e bem saboreados,
De afagos e carícias trocados
De abraços apertados e corpos suados
Embrulhados, confusos e misturados
Num leito de nuvens do espaço sem fim,
Por entre lençóis de luz,
Frescos e perfumados!

Não quero frequentar lugares sofisticados,
Não quero aprender como deixar de sorrir quando tiver vontade,
Não me vou deixar espartilhar, nem moldar, nem emparedar…
Não me apetece ir á opera, nem a concertos de música clássica,
Nem comer em restaurantes com muitas estrelas na porta.
Não são essas coisas que me interessam alcançar,
Nem são essas as coisas que me fazem feliz.
Não são essas as coisas que fazem o meu coração palpitar.
Prefiro andar de comboio, ou a pé, do que viajar num carro de luxo
Aonde não possa pôr a perna em cima do assento,
Meio dobrada, meio encostada,
Como me dá prazer fazer.
E prefiro almoçar um café e um bolo,
Do que degustar um banquete luxuoso,
Num lugar aonde não me possa sorrir para quem traz a conta,
Ou onde não possa falar mais alto do que um sussurro…

Quem quiser sair comigo,
Vai ter que levar junto
O meu cabelo comprido,
O meu rosto sem pintura,
A minha roupa simples e despretensiosa.
A minha maneira natural de ser.

Porque é assim que eu sou.
E porque a vida me ensinou que não devemos deixar de sermos nós,
Para sermos aceites e apreciados.
Mudanças, transformações,
Quando não são pedidas pelo nosso próprio coração,
São apenas sacrifícios inúteis.
Concessões injustificadas.

Aconselharam-me a cortar os cabelos,
A mudar de roupas,
A pintar o rosto
E a deixar de sorrir…
Para ser melhor aceite,
Para poder evoluir…

            Mas descansa, ainda sou a tua Gabriela moçambicana, com cheirinho a canela…

Sem comentários:

Enviar um comentário