sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Saudades de andar de moto...

Hoje lembrei-me
Das saudades que tenho de andar de moto!
De andar apertadinha na garupa de alguém…
De deixar o cabelo ao vento,
De não me importar se a saia sobe…

De desfazer as curvas da estrada,
Com os joelhos quase a raspar no alcatrão,
Ou de saltitar por cima das pedrinhas dos caminhos das matas…
Serpentear pelo meio do trânsito,
Numa alegria de cobra liberta que se esgueira por cima da folhagem,
Ou voar pela estrada comprida que segue paralela ao mar…

Ouvir as buzinas dos condutores,
Acenar em resposta,
Sorrir-lhes por entre as madeixas despenteadas.
Fechar os olhos e confiar…
Confiar em quem me vai a dirigir,
Acreditar que sabe escolher o melhor percurso,
Que sabe como fazer para enfrentar o trânsito…

Não ter medo quando a velocidade aumenta
E quando o vento sopra tão forte
Que mal se consegue respirar.
Não ter medo quando cai o vermelho e estamos ainda tão longe de conseguir parar…
Segurar-me com força, encostar-me, fechar os olhos
E acreditar.

Tive vários namorados com moto,
Vários amigos com moto.
No meu tempo de mocinha,
Rapaz que não tivesse capacete enfiado debaixo do braço,
Ou a chave do automóvel a rodopiar na mão,
Tinha uma dificuldade danada
Em arranjar namorada.
Eu sempre pude escolher.
E com a falta de juízo própria da doçura da idade,
Muitas vezes fiz como as minhas amigas,
Escolhia mais pelas motos do que pelos proprietários das mesmas.
Andei de pendura em quase tudo que é moto, motorizada, motão.

A moto do X foi a única que me ficou na cabeça,
E até hoje no coração.
Bem velhinha,
Bem baruhenta,
Anunciava a sua chegada quarteirões antes,
Numa confusão engasgada de fumo,
Escapes entupidos,
Correntes a rangerem numa agonia de morte próxima…

Uma Famel Zundap preta!
Riscada,
Maltratada,
Mas era a moto dele!
Não sei que tinha ele feito ao motor, que a moto
Não andava, voava,
Não acelerava, deslizava com uma velocidade sempre e cada vez maior…
Eu estava na escola,
Já sabia que ele tinha chegado!
Estava na mata á espera dele, tempo antes de o ver,
Já o tinha ouvido.
As minhas amigas riam-se disfarçadamente da lata velha,
Mas invejavam-me abertamente o condutor.
Eu,
Eu só queria ser feliz…

E como fui feliz naquela moto preta!
Bem segura ao blusão de ganga desbotado dele!
Com os braços fechados em torno do corpo, dele,
Encostada o mais que podia, o cheiro dele a entrar-me pelas narinas…
Cheiro bom,
De água de colónia,
De tabaco,
De café,
De sexo,
De outras coisas que não vale a pena dizer…

Sem me preocupar.
Sem precisar de conhecer a estrada,
Nem de decorar os caminhos.
“-Para onde vamos?”
“-Não interessa. Deixa-te ir!”
E não interessava mesmo!
Praia,
Campo,
Cafés,
Restaurantes,
Matas,
Florestas,
Interessava ir,
Apenas ir.

“- Não vamos demorar? Olha o meu pai…”
“- Não te preocupes, trago-te a horas.”
E trazia.
No meio da sua loucura desassossegada,
Nunca me deixou chegar atrasada,
Nunca deixou descontrolar as horas,
Sem eu ter que me preocupar.
E eu confiava.

Que saudades que me deram hoje
De andar de moto.
Bem segura,
Cabelos ao vento,
Saia a subir,
Sem ter com que me preocupar,
Sem ter que escolher caminhos.
Só ir,
Deixar-me levar…

Não gosto de conduzir.
Gosto muito mais de ser levada.
Não sei escolher caminhos muito bem,
Não conheço muitas estradas,
Prefiro ir na garupa,
Encostar a cabeça,
Fechar os olhos,
E voar sem preocupações,
Nem responsabilidades,
Nem medos de errar no destino.

Ironicamente a vida pôs-me a conduzir há tantos anos
Que já lhes perdi a conta!
Atirou-me com montanhas de mapas, de guias, de plantas de cidades
E disse-me que aprendesse os caminhos,
Que decorasse cada avenida,
Cada rua,
Cada passagem.
E eu conduzi e conduzi,
E conduzi
Até á exaustão.

E hoje que estou tão, mas tão cansada,
Que não consigo já distinguir onde começa,
Onde acaba
A próxima curva da estrada…
Hoje só queria a Famel Zundap de volta.
Hoje só queria um blusão de ganga desbotado ao qual me segurar com força.
Um cheiro gostoso de café e substâncias proibidas.
Um beijo lento e guloso em cada semáforo,
Uma carícia a escaldar na perna acima,
Em cada abrandamento do caminho,
Um “- Não te preocupes, deixa-te ir.”
Um “-Trago-te a horas.”
Um “-Amo-te tanto!”

Hoje queria as mesmas estradas de volta,
O mesmo vento,
As mesmas pedrinhas dos atalhos,
Ou até o mesmo alcatrão escuro do caminho.
E queria ter tido a coragem de quando ele me pediu para ficar,
Eu lhe ter saltado ao pescoço,
E o ter beijado muito,
E lhe ter dito
“-Leva-me contigo aonde quiseres. Já não preciso voltar.”

            Se eu tivesse ido na garupa do X, não te tinha vindo a encontrar…

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