sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Vá-se lá saber...


Sempre me exigiram mais do que posso oferecer.
Sempre fui forte,
Corajosa e valente…
Mas de repente, deixei de o ser.

Não chores, porque não se chora.
Não te queixes porque é feio.
Não sejas mal-educada porque é pecado.

Vai e faz!
Vai e consegue!
É assim que está destinado.

Menina caladinha para não incomodar.
Queria tanto voltar para casa, e ninguém para me buscar.

Dizem essas coisas a todas as crianças,
Não é por por isso que deixam de ter esperança…

Mas a mim ninguém disse que era assim que se devia falar.

Eu acreditava que tinha que haver melhor em algum lugar.
Queria tanto crescer para procurar!...

Não sejas pateta, pára de sonhar!
E ela tinha razão…
O melhor que buscava, nunca cheguei a encontrar.

Bati todas as ruas, desci todas as avenidas de todos os lugares…
Perdi-me em todos os amores que me apeteceu experimentar.
Procurei dentro dos olhos de quem me olhava,
Aquilo que tanto queria encontrar.

Em centenas de olhos nunca vi nada,
Em cada corpo forte, havia uma alma penada.

Quem sabe, não é?
Quem sabe andamos todos a procurar?

Doem-me os pés cansados de andar.

Um dia quando o coração não quiser mais bater,
Quando parar por fim de se intrometer,
Talvez volte de novo a aparecer,
Aquela menina valente, forte e corajosa…
Uma menina como deve ser.

Ou talvez não haja nada para lá do que conseguimos ver.
Vá-se lá saber…

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Gosto, ainda gosto muito de namorar...


Pergunta-me se ainda sei voar,
E mostro-te as pontas das minhas asas cortadas…

Pergunta-me se ainda sei sonhar,
E mostro-te os meus olhos secos de chorar…

Pega-me na mão como dantes,
Pergunta ao ouvido se ainda gosto de namorar…

Tenho medos que não tinha.
E sei de lugares aonde nunca me levaste.

Tanto que tu evitaste,
Tanto que me cuidaste…

Bandido, diziam…
Rei dos marginais!
Ninguém me guardou como tu fazias,
Nunca mais.

Fizeram-me maldades.
Puseram-me a chorar.

Disseste que era para te procurar se viesse a precisar…
Se soubesses as vezes que te chamei mesmo sem falar!

Cigarros proibidos que enrolavas,
Cavalos selvagens que domavas,
Comprimidos de mil cores, fantasia que misturavas…

Não me levavas contigo quando ias viajar.
“ Curtes mais careta do que eu carregado…”
Lembras?
E eu ria…
Tempo louco de fúria e alegria!...

Vou lá para os nossos lados hoje…
Se lesses mais poesia
Sabias…

Trazias a tua Zundap preta,
O velho gangoso sem cor,
Os calcantes chanados,
As galdinas desfiadas,
Nada de parro para atrapalhar
Sentavas-me colada a ti, na tua garupa, de novo a passear…

Caracois ruivos, olhos verdes…
Ah, que saudades de te abraçar!…

Gosto!
Ainda gosto muito de namorar…


sábado, 15 de dezembro de 2012

Amor puro cheio de pecado


No meio dos aplausos
Procuro o teu rosto na multidão…

Nenhum sucesso no mundo
Terá o mesmo sabor se não estiveres na minha plateia.

Podem pedir bis,
Pode o pano descer e subir vezes sem conta,
E os flashes das máquinas encherem de luz o meu olhar…

Pode o meu camarim ficar cheio de rosas,
E de cartas apaixonadas…

Se tu não estiveres lá,
Se tu não apareceres,
Para mim, a sala do mundo está deserta.

Não há fama nem honra
Que substitua uma palavra tua.
Não há contrato milionário que seja mais importante
Do que um sorriso teu.

Cadeira vazia,
Ninguém te vê.
Mas eu sinto-te
E sei que estás lá.

E vejo os teus olhos turvos de desejo cravados em mim,
E no meio do burburinho decifro o código doce do teu falar.

E é para ti todo o sucesso,
E é para ti tudo que faço.

Sombra escondida nos bastidores da minha vida,
Amor puro cheio de pecado…
Se gostam de mim,
Gostam de ti,
Eterno homem complicado.

Porque eu não era mais do que um drama inacabado,
Até tu seres a luz feita de sombras ao meu lado.
Melhor de todas as coisas da minha vida.
Herói misterioso da minha história proibida.

Todos os aplausos que eu quiser?
Bastou-me saber que estavas lá, e que tinhas gostado.

Continuas a ter o mesmo poder sobre mim…
Continuo a sonhar-te ao meu lado
A cada vez que chego ao fim.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

É tudo o que eu preciso


São as coisas mais pequeninas que me fazem seguir…

Não os grandes planos,
Nem os projectos complicados,
Objectivos ambiciosos e arriscados…

Os pequenos sorrisos que a vida me oferece ao longo do dia.
Esses, sim, são os que me dão alegria.

Daqui a dez, cinco, um ano,
Não me interessa…

Escritos, carimbados, delineados.

Viver a fugir sempre em pressa,
Á frente a luz trémula de uma promessa.

Prefiro a felicidade do raio de sol, que sem cobrar, me beija a pele.
Prefiro o arrepio gostoso que mexe nos cabelos
E a alegria da saia que o vento levanta em qualquer esquina.

E quando não percebem porque recuso um banquete
E ainda assim me sinto em festa
Eu digo que sou rica com o que o mundo me empresta.

Sou como os ciganos,
Minha mãe dizia…
Não sei fazer planos,
Vivo a vida de cada dia.

Vagabunda sem pouso nem guarida.

Se eu não fosse assim como sou,
Com o coração meio louco,
Até aonde não chegaria?

Não quero saber, é o que sempre digo.
E a quem me questiona, eu rio e sigo…

Na boca o gosto doce de um sorriso.
No peito o explodir de um trovão,
Vibrando em mim
O lugar quente aonde a vida põe a mão.

Diz-me olá, e o meu dia abre num sorriso.
É tudo o que eu preciso.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Nada, nada te faz recuar


Não penses que não te ouço,
A ti que falas enquanto vivo…

Não julgues que não me apoquentas,
Que não sinto quando me atormentas…

Não creias que não dou por ti,
Por baixo da roupa,
Por dentro do peito,
A invadir com dedos frios o quente do meu leito…

Ouço-te mesmo quando o mundo está em silêncio…
Torturas-me ainda que eu sorria como se estivesse a gozar…
E pões-te fundo em mim, quando tento em vão gostar…

Fujo.

Passo a vida a fugir,
Mas tu corres mais do que eu
E chegas á frente…
Não sei como consegues fazer,
Sempre adivinhas aonde me vou esconder…

Tanto faz se sigo na multidão esfuziante de alegria,
Ou se olho a calmaria do mar deserto.
Tanto faz se trepo á montanha mais fria,
Ou se me perco num abrasador bar cheio de calor…

Não existem vinhos tão fortes que beba que te consigam anular,
Nem fumos de êxtase que cheguem para te fazer recuar.
Nunca gemi de prazer gostoso o bastante para te calar…

Noitadas sempre acabam nas madrugadas…
Estradas não passam nunca só de estradas…
Todas as ruas são pedras inacabadas…

Beijos e caricias, gestos peganhentos
Que te deixam com uma fúria mais assanhada.

E palavras ardentes são sons que fazem as gentes
Quando não conseguem dizer mais nada.

Tu estás sempre presente.

Boca que fala quando está calada.
Som que não se explica por nenhuma ciência.
Terrível e pesada,
Voz da minha consciência.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Hoje eu sei


Hoje eu sei…

As roupas amontoadas,
As casas desarrumadas…

Não era preguiça não.
Não era gostar de mal viver…

O sofrer que era só ter que mexer!
A vitória que era até comer, até beber…
Não ter sono para adormecer...

Os jornais nas janelas,
As trancas na cancela,
O pó no ar, aos rolos no chão…

O horror escondido no coração.

Bolor nas paredes,
Tectos cinzentos e verdes.
Sacos amontoados…
Anos e anos desarrumados.

E aquela tristeza selvagem na voz…
E aquele desespero de animal batido no olhar.

Não era maldade não.
Não era loucura não.

Hoje eu sei…

As pragas rogadas,
As lágrimas choradas,
A solidão…

Cinco, cinco e meia…

Sem ter aonde voltar.
Sem ter sonhos para sonhar.

Medo,
Só medo.

Lá fora tão escuro, tão cedo!
Vida calada em segredo…

Hoje eu sei…

E não estás cá.
A luz que escondias, aonde brilhará?

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Senhora do Auto da Vida


Entre aquilo que se diz,
E o que não se consegue dizer,
Está tudo o que somos.
Aquilo que escondemos,
Para ninguém saber.

Tenho medo do escuro quando vejo o pano a descer,

Quando as cadeiras ficam vazias,

E o teatro fecha as portas.

E o ponto há muito tempo que foi para casa.

E não ficou ninguém para lembrar as minhas deixas.

Às contas com os fantasmas da noite.
Sozinha com as sombras da vida.
Princesa sem reino,
Moura vencida.
Feiticeira violada numa Inquisição sofrida.
Bruxa queimada numa fogueira esquecida.

Sufocada entre beijos,
Entre mil abraços contida,
Vagabunda e foragida.
De todos os sonhos despida.

Tomada sem amor em todas as camas
Nua com um manto de estrelas vestida.

Com medo do papão que vive no armário,
A desfiar em segredo as contas do rosário.

A recitar em mente os clássicos da literatura,
Enquanto mãos ávidas me deixam mais impura.

Obrigada a olhar nos olhos,
E a ficar acordada,
A fingir que sinto o que não sinto,
A odiar-me quando sinto, e sei que não devia sentir nada.

Imoral, impostora, mulher vendida?

Não. Só senhora do Auto da Vida.
Figurante de luxo numa taberna perdida.
Prima-dona de uma história fingida.

Comédia ou tragédia,
Em vários actos inventada,
De um drama que nunca foi á cena,
Numa obra que está amaldiçoada.

sábado, 24 de novembro de 2012

Um dia hei-de...


Um dia hei-de encontrar
Alguém a quem eu possa dizer “tenho saudades”,
Um dia hei-de encontrar alguém
A quem eu possa dizer “gosto de ti”.

Alguém que não se assuste,
Alguém que não tenha medo.

Alguém que me queira mais do que ao mundo.

Alguém que não me ame em segredo.

Um dia hei-de andar na rua de mão dada com um amor bonito.
E hei-de dormir abraçada quentinha num corpo querido.

Sem receios, nem desconfianças,
Sem limites, nem retrancas.

Nem jogos de salão,
Brincadeiras de sociedade…

Livre de amar em liberdade.

Livre de ser como sou sem precisar conter.
Sem juízo, nem recato,
Sem receio de perder.

Sem a tristeza do esfriar, do esmorecer…


E mostrar que gosto quando gosto,
E gemer de prazer quando tiver prazer.

Telefonar de minuto a minuto se me der na gana,
E saber que ele me adora,
Que ele não me engana.
Que se deita comigo mesmo fora da cama.

Que fazemos amor como quem respira.

E ser dele num abraço que ninguém tira.

Adormecer com a certeza de que está lá até ao fim.
Um dia hei-de ter um amor assim…

Um dia hei-de ter alguém que goste de mim.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O que queres ser quando fores grande?


- O que é que queres ser?
Tanta coisa que eu podia ter sido!...

- O que é que queres ser?
Antes de eu ter crescido…

- Engenheiro…
- Doutor…
- Policia sinaleiro…
- Nada, só ter dinheiro…

- Tu?
Sorria.
Não sabia.

- O que queres ser quando fores grande?
Meu pai sempre dizia
que ser médica era o que eu queria…
E eu pensava nas feridas,
No sangue,
Nas lágrimas perdidas…
Médica não!…
E não respondia.

- Á frente, o próximo… O que queres ser?

O que eu queria
Mas isso não podia,
Não vinha na lista para escolher,
Era agitar a varinha,
Fazer uma magia só minha,
Semear pó de estrelas,
Deixar toda a gente feliz.
Foi só o que sempre quis…

Fada,
Duende…
Feiticeira…

Anjo de alma perdida,
Virgem senhora da vida…

- Queria ser uma caricia.
Viver nas mãos de quem me desejasse,

- Queria ser um beijo.
Beijar quem me beijasse.

- Mal educada, atrevida!
Nunca vais ser nada na vida!

Que interessava o que eu queria ser?
Porque perguntavam,
Se não me deixavam responder?…

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Espero por mim...


Lá, aonde fiquei…

Sentei, esperei…

Passaram mais de quarenta anos,
Ainda não voltei.

Um dia venho-te procurar,
Menina gorduchinha de cabelo crespo
Não precisas chorar…

Sozinha,
Tão perdida,
A morder os lábios para não gritar…

Tantas pessoas!...
Pequenas, crescidas…

E eu sem conseguir voltar.

Um dia venho-te buscar.

Vou crescer,
Vais ver.
A vida vai mudar.

Tão caladinha,
Amor de menina!

Como se comporta bem, como é sossegadinha!…

Chorava sem lágrimas,
Sem incomodar.

Se eu fizer bem,
Se eu me controlar…


Olho-me no espelho.

Dentro dos meus olhos
Estou eu a esperar…
Se ao menos me conseguisse encontrar

Fiz tudo direitinho,
Ninguém deu por mim.

Mas começa a estar fresquinho,
Há cacimba no capim…

Dentro dos meus olhos,
Eu espero por mim.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Não sou um bom partido


Conduzo um carro velhinho de mais de vinte anos,
A desfazer-se em ferrugem e avarias…
Vivo numa casa bem pobre e perdida no meio de coisa nenhuma,
Aonde quase não se consegue chegar sem transporte próprio,
gastando rios de dinheiro em gasolina.

E sou baixinha…

Não sei porquê…
Pensam que sou enorme.
Uso saltos altos,
Mas sou baixinha.
Metro e sessenta, mais centímetro, menos centímetro…
E não sou um mulherão.
Sou só eu.
Magrinha, pequenina…

Não tenho dinheiro…

Bebo muitos cafés,
Passo o dia a passear,
Almoço e janto fora,
Mais vezes do que me posso lembrar…
Mas um café são sessenta cêntimos,
As minhas refeições nunca vão além dos cinco euros…
E faço opções…
Deixo coisas de lado para poder fazer outras…

Nem tenho emprego…

Não sou bem paga,
Não tenho conta bancária recheada.
Nem cartões de crédito sequer…
Familiares generosos e abastados,
São coisa que desconheço,
Nem vou receber heranças de primos afastados.
O que perdi,
Se alguma coisa material perdi,
Não vou reaver mais.

E não, também não…

Não vendo as minhas noites,
Nem alugo a minha companhia.
Também não vendo fotografias,
Nem tabelo a hora e o minuto.
(nem sabia que isso se fazia).
E sou tonta e infantil
Choro e rio,
Vivo cheia de fantasias…


Não tenho nada de meu, nem riqueza nenhuma.

Deixem-me no meu cantinho,
Não percam o vosso tempo comigo.
Não sou bom investimento.
Não me façam maldades.
Só gosto de conversar,
De escrever,
De publicar fotografias.

Aos possíveis interessados,
Futuros apaixonados,
Só para ficarem avisados…
Para não terem o vosso tempo perdido…

Eu não sou um bom partido.


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Queria ir para casa...


Papá,
Olha o que fizeram á tua menina…
Rasgaram a minha bata branquinha,
Desmancharam o meu cabelo…
Esfolei os joelhos,
Perdi todas as canetas,
Esqueci da lição na carteira…

Papá,
Não me deixaram entrar na roda,
Nem saltar á corda no recreio grande.
Não me escolheram para os jogos.
Tiraram o meu lanche do cesto que a mamã mandou.
Disseram que sou feia e não sei brincar.
Esqueceram de mim no cantinho da sala,
Quando acabei o castigo não me mandaram sentar.

Papá,
Queria ir para casa…
Sais da Fazenda e vens-me buscar?…
Pede ao colega chefe para vires mais cedo.
Diz que a tua Glorinha está a chamar.
Diz que estou sozinha e que tenho muito medo…
Ele gosta de mim, vai deixar.
Olha eu no portão a esperar…

Papá,
Estou tão triste!
Sei que não gostas,
Mas hoje, só por hoje, vem-me abraçar.
Depois não peço mais, depois vou-me comportar.
Chega perto de mim,
Encostadinho.
Afastado mas juntinho,
Do jeitinho que costumavas ficar.

Papá,
Fica de novo comigo.
Não me voltes a deixar.
Faço tantos disparates quando não estás a olhar!
Tu que acreditavas em almas que falam
E espíritos que voltam,
Porque demoras tanto tempo a chegar?

Papá,
No nosso Scala,
Na nossa beira-mar,
Naquele banquinho onde costumávamos conversar…
Se quiseres eu vou ter contigo…
Mas vem-me buscar.

Cansei, não quero mais brincar.
No recreio há meninos grandes e maus que me fazem chorar.