sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Dou por mim...

“- Dou por mim e nem sei aonde estou…”
E eu pensava que ele era tolo, que estava a brincar…

Era um amigo meu,
Daqueles de há muitos anos atrás…
Tinha um automóvel vermelho,
Não lembro a marca,
(desculpa Albano)
Também não percebo nada de automóveis…
Lembro que era vermelho,
Bonito,
Brilhante.
Mas isso agora não interessa.
Interessa que muitas vezes ele dizia
“- Dou por mim e nem sei aonde estou…
Ponho-me a conduzir,
Sem tomar nota da estrada,
Sigo,
E quando vejo, não sei aonde vou…”

E eu pensava que ele era tolo, que estava a brincar.

Mas quantas vezes agora
Não tenho dado por mim
A errar sem destino,
Embora pareça tão consciente do caminho…
E olho em redor admirada,
Surpresa, pasmada,
Sem saber
Como me fui encontrar naquela estrada…
Mas presto atenção aos obstáculos
Aos peões e ás outras viaturas,
Ao limite de velocidade,
A todas as regras do mundo…
Porque o meu piloto automático não se desliga nem por um segundo…
No entanto
Não sei,
Não percebo
O que faço em muitos dos lugares
Aonde dou por mim,
No mapa grande e confuso,
Enrodilhado de estradas, de caminhos,
Que é o mapa do mundo.

“- Dou por mim e nem sei aonde estou…”
E eu pensava que ele era tolo, que estava a brincar…

E pior do que isso,
Já me tem acontecido,
Querer ir para um lado,
E dar comigo noutro destino,
E ter que voltar atrás,
E dar voltas de reconhecimento,
Até me centrar,
Até me encontrar
E arrepiar caminho…
E depois é um toca a correr,
Para não me atrasar,
Para não se perceber,
Que me enganei,
Que não prestei atenção…
E no entanto prestei atenção, e no entanto não me enganei,
O lugar é que me é estranho mas eu cheguei bem,
e não fiz mal a ninguém até vir cá parar….
E ás vezes é tão bom falhar a direcção,
Vadiar, errar, passear…

“- Dou por mim e nem sei aonde estou…”
E eu pensava que ele era tolo, que estava a brincar…

Mas eu que detestava conduzir,
E tinha medo de acelerar mais do que devia,
E não ser capaz depois de conseguir travar…
Eu que vivia,
De pés no alcatrão porque só gostava mesmo era de caminhar,
Agora descobri que sou boa condutora,
E que guiar um carro até que é divertido!
Mesmo que me perca,
Mesmo que não saiba,
Muitas das vezes por onde é o caminho…
Nem como fui ali parar.
Gosto mesmo é de seguir,
A andar e rodar,
Só porque sim,
Só porque um dia hei-de lá chegar…
Não interessa aonde,
Quando for, eu vou notar.

“- Dou por mim e nem sei aonde estou…”
E eu pensava que ele era tolo, que estava a brincar…

            Foi contigo que comecei a perder o medo de conduzir, porque tu disseste que eu era capaz…

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