sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 28 de janeiro de 2012

Ela sonhava, ele tinha os pés bem no chão...

Ela gostava de sonhar,
Ele vivia de pés bem assentes no chão.
Ela acreditava em histórias de princesas e contos de fada,
Ele acreditava que o mundo é um lugar bem só e muito triste.
Ela queria encontrar um amor maior do que o universo,
Ele só queria alguém que lhe chegasse água quando tinha febre.
Ela era minha mãe,
Ele era meu pai.
Os dois casaram… e não foram muito felizes…

Nunca conheci mulher como a minha mãe!
Aventureira, atrevida, romântica…
Linda, tão linda tinha sido em novinha!
Capaz das loucuras mais insólitas,
Como casar com um desconhecido
Que vivia num país estranho
Para lá do mar sem fim…
E seguir rumo a uma nova vida de aventuras e incertezas,
Com uma malinha de mão cheia de vestidos lisboetas
E meia dúzia de sapatos da moda, com salto alto de agulha…

Voava como uma borboleta que bate de encontro á vidraça…
Não conseguiu nunca aceitar
Que o príncipe não era príncipe,
Nem tinha vindo para a salvar.
Era apenas um homem cansado de muito lutar,
Que queria companhia para conversar…
E que o castelo de ilusões tropicais
Que ela tinha ido procurar,
Não passava afinal de mais uma casa,
Igual a todas as casas,
E que ainda por cima mudava constantemente de terra, de lugar…
E que não havia nada de exótico, nem de romanesco
Em ter que dormir de noite com rede mosquiteira em volta da cama,
E ter que fugir de dia das cobras venenosas do quintal…

E que os beijos apaixonados
Que imaginara trocar
De noite por debaixo das estrelas dos trópicos,
Á luz africana do luar,
Se resumiam a formais cumprimentos sem paixão e sem graça,
Porque não pode haver fogo,
Onde não há nada que queimar…

Quando a chama dela se apagou,
Quando a luz da esperança começou a deixar de brilhar,
A tristeza e a mágoa foram tantas,
Que não sobrou mais nada que a pudesse salvar!
E da mulher linda, poética e sonhadora
Não sobrou mais do que uma pessoa
Amarga, antipática, zangada e rude.
Alguém tão, mas tão ressentida com o mundo,
Que sem coragem para se matar,
Se deixou morrer,
E foi morrendo um pouquinho a cada segundo,
Num rasgar de alma cada vez mais negro e mais profundo.
 E como ela sempre dizia,
Morreu sem perdoar ninguém.
Porque todos tinham alguma culpa por ela se ter enganado.
E por ela ter julgado que o sapo seria um príncipe, e que a abóbora seria uma carruagem
E que a meia-noite não iria soar nunca,
Em capítulo algum da história que ela tinha criado.

Meu pai foi o meu primeiro grande amor,
Quase incondicional,
Quase mais do que tudo.
Sempre mergulhado na inquietude do seu mundo,
Sempre a braços com alguma dificuldade real, ou não,
Palpável ou fruto da sua imaginação.
Não sabia beijar, nem sabia acarinhar.
Nem gostava de muitas proximidades, nem de muitas demonstrações de afecto.
Amava era estar sozinho, calado, quieto e sossegado.
Sentado na sua secretária,
Ou com um livro no regaço,
Nunca me disse “gosto muito de ti”
Nunca me pediu ou me fez um carinho,
Mas enchia o meu mundo de alegria,
E eu sabia
Que bem no fundo, quando eu falava, ele ouvia, ele ria,
De riso disfarçado, tapado, envergonhado,
Como se fosse vergonha gostar, sentir, mostrar,
Expor-se deixar alguém entrar,
mas eu sabia, e era um riso vindo do coração,
Por isso mais profundo…

Ela gostava de ir ao café todas as noites,
Ele preferia ler um bom livro no sossego da sala.
Ela amava cinema, passeios, diversão,
Ele já tinha feito tudo o que havia para fazer e vivia numa constante hibernação
Que metia impressão só de ver,
Quanto mais de compartilhar, de dividir, de viver…

Ela tinha saudades sem fim
Da Avenida da Liberdade, do Rossio, da Praça da Figueira,
Da Pastelaria Suiça, do Nicola,…
E ouvia as noticias na Emissora Nacional,
De fugida enquanto ele não vinha do trabalho…
Ele quando muito ia dar uma “voltinha dos tristes” ao domingo.
Almoçava, contrariado pela confusão, no Dragão De Ouro,
Ia comer um gelado ao Scala,
Mas de olho posto no relógio,
Num apetite contrariado dos chinelos,
Da poltrona ás riscas vermelhas e pretas,
Da velha Toshiba que refrescava a sala e rodava, rodava, rodava,
Sem ele ter que sair para rodar junto com ela,
Por todas as ruas e avenidas da cidade…
 Como poderiam ter sido felizes?
Se um queria o dia,
E o outro nada queria…?
E um via mais do que a vida lhe permitia,
Enquanto o outro aceitava numa pasmaceira bem contida
Tudo o que havia, tudo o que aparecia…?

Eu…
Eu era pequena.
Eu só queria que todos se dessem bem…
E que não ficassem tristes,
E que a minha mãe parasse de chorar,
E que o meu pai parasse de gritar…
E a vida inteira se acertasse por magia,
E não houvesse nem mais um único dia
Sem felicidade, sem alegria…
Mas não consegui…

E eles os dois morreram há tanto!
E eu hoje queria
Apenas saber,
Apenas conferir,
Se do outro lado da vida,
Se outro lado chegar a existir,
Eles se encontraram,
Se estão bem,
Se se acertaram ou finalmente se separaram,
Se já se entenderam, ou se já se cansaram
De dar murros em ponta de faca…
Se já concluíram que para sempre
É só até o sempre acabar,
E que promessas eternas podem-se quebrar
Se formos muito infelizes,
Se passarmos a vida a chorar…

            Tu, que também não sabes mostrar… olha o tempo a passar…

3 comentários:

  1. Querida amiga:
    Seu texto está tão real apesar de ser em versos, q posso até visualizar as pessoas de quem fala, seus pais, no caso. É a complexidade da vida que faz desfilar ante nossos olhos milhares de maneiras de sentir, pensar e agir. Parabéns pela criação.
    Estou aqui na casa de meu filho e aproveitei para entrar na net, pq ainda estou sem ela, mas creio q em breve me mudarei, finalmente.
    E a crise por aí está muito brava? Ouço muito a respeito na televisão.Por aqui tb não há nenhum mar de rosas uma vez q os valores dignos de sobrevivência há muito já se foram....
    Muitos bjs e desejos de boa sorte a todos vcs. E a propósito como estão todos?

    ResponderEliminar
  2. Querida amiga:
    Seu texto está tão real apesar de ser em versos, q posso até visualizar as pessoas de quem fala, seus pais, no caso. É a complexidade da vida que faz desfilar ante nossos olhos milhares de maneiras de sentir, pensar e agir. Parabéns pela criação.
    Estou aqui na casa de meu filho e aproveitei para entrar na net, pq ainda estou sem ela, mas creio q em breve me mudarei, finalmente.
    E a crise por aí está muito brava? Ouço muito a respeito na televisão.Por aqui tb não há nenhum mar de rosas uma vez q os valores dignos de sobrevivência há muito já se foram....
    Muitos bjs e desejos de boa sorte a todos vcs. E a propósito como estão todos?

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  3. Olá Cristina!
    Obrigada pelas palavras bonitas! É, a vida consegue ser bem complexa e complicada, muitas vezes, vezes demais se calhar... Pensei que a Cristina já estivesse instalada na sua casa nova! mas como demoram essas coisas... O que vale é parece que falta já pouco! Ainda bem! Já há muito tempo!...
    A crise por aqui está muito brava, sim, Cristina! As firmas, os patrões, tudo está a ficar sem dinheiro. As firmas fecham as portas, os empregados ficam sem trabalho, deixam de ganhar, deixam de descontar, deixam de consumir tanto, a crise aumenta, a pobreza também... E não me parece haver nenhum fim á vista... as pessoas estão tristes, desanimadas e desmotivadas. Mas eu tenho esperança de que dias melhores ainda possam chegar! E de que no fim, consigamos sobreviver a mais esta etapa menos agradável da vida. Portugal já é tão velhinho, não é? Há-de dobrar mais este cabo das Tormentas dos tempos modernos:))
    Aí no Brasil as coisas também estão complicadas? Pensava que o vosso Lula tinha deixado o Brasil numa situação boa, e que os tempos das "vacas magras" tivessem já passado... Sabe que muitos dos brasileiros que tinham vindo cá para Portugal em busca de via melhor, estão já a ir embora de volta para casa? Só não vão mais, porque alguns deles já não têm dinheiro para voltar. Mas parece-me que há uma instituição encarregue de ajudar essas pessoas a irem embora. Por aí dá para ver como tudo está...
    Nós cá estamos, como sempre. Os filhotes estão na escola, eu estou por aqui e por ali. Meu ex-marido continua nas pinturas, que é o trabalho dele, mas por causa da crise, teve também que sair do patrão dele de quase vinte anos... Agora trabalha por assim dizer por conta própria. Talvez ganhe mais, mas não tem a mínima segurança, muito diferente da situação antiga. Porém, há quem esteja ainda muito pior. Enfim...
    E a Cristina, seu marido, filhos, restante família? Tudo bem com vocês? De vez em quando falo com a Iolanda. Ela está bem, encontro-a muitas vezes no facebook.
    Beijinhos para si Cristina, tudo de bom, e que a sua situação da casa se resolva o mais rápido possível! Txau:))

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