sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 15 de janeiro de 2012

Gosto tanto de mim!

Gosto tanto de mim…
Gosto tanto do meu jeitinho doido de ser…

Gosto de mim quando rio,
Quando choro,
Quando canto,
Quando danço…
Gosto de mim quando amo,
Quando me entrego,
Quando me abandono.

Comecei a gostar de mim,
E da pessoa louca que sou,
Desde o dia em que fugi da minha professora da escola infantil.
Ainda lá longe na minha terra…
E a professora gorducha corria para me apanhar,
Num assombro nunca visto de espanto ultrajado.
E eu na frente,
Bata branca, meias bem dobradinhas nos ortelhos,
Cabelos arrepiados como convinha a uma menina comportada…
Com os meus cinco, seis anos…
Corria…fugia… ganhava o meu direito a um dia de liberdade.
O meu pai assistia imobilizado, furioso, indignado!
Eu nem quis saber…
Foi a minha vingança,
O meu grito de Ipiranga…
Tantos dias de contenção, de regras, de limites!
E ela atrás a correr sem me conseguir deitar a mão…
Voltas e mais voltas ao pátio do meu prédio,
A carrinha á espera para me levar,
Os outros miúdos de rosto colado nos vidros das janelas
E eu corria, e ria, e olhava para trás…

Gosto tanto de mim…
Gosto tanto do meu jeitinho doido de ser…

Voltei a apaixonar-me por mim aos dez anos de idade,
Quando chegámos a Portugal.
Sem nada, sem roupas, sem casa, sem vida.
E na escola, eu era e que veio de África, a retornada…
E na vizinhança era a filha dos africanos, a miúda calada…
Até mostrar que era muito mais esperta do que eles,
Até ser a melhor da classe,
Até provar bem provado
Que sabia ler melhor,
Escrever melhor,
Sabia até, coisa que era desconhecida entre os meus colegas,
Raciocinar e responder de forma articulada,
sempre que me perguntavam alguma coisa…
E era a única que não apanhava reguadas, que não ficava de pé no canto da sala,
e deixei de ser “a de África” para ser aquela menina bonita
a quem os rapazes ofereciam malmequeres apanhados perto da lagoa,
durante o intervalo da manhã…

Gosto tanto de mim…
Gosto tanto do meu jeitinho doido de ser…

Depois, voltei a descobrir que gostava muito de mim,
Quando a minha mãe morreu.
E eu tinha catorze anos
E ainda brincava com bonecas
E mal sabia andar sozinha na rua…
E fiquei assim de repente,
Como um passarinho de gaiola aberta,
Sem saber que fazer com os meus dias livres.
Sem saber como lidar com a falta de grilhões nos pés,
Com a ausência de chicotadas nos ouvidos.
E do não poder nada,
Passei a um poder quase tudo.
E arranjei amigos novos, Lugares novos,
Grupos diferentes e linguajares diferentes.
Mudei de hábitos, de rotinas,
Arrumei as bonecas na prateleira e substituía-as
Por calções curtinhos e mini-saias travadinhas.
Saciei-me de afectos, de carinhos,
Beijei todos os beijos que nunca me tinham dado,
Rebolei entre todos os abraços que me tinham faltado,
E ouvi todas as palavras de amor que nunca tinha escutado.
E continuei eu,
Inteira por dentro, e a mesma que era antes de tudo ter começado.

Gosto tanto de mim…
Gosto tanto do meu jeitinho doido de ser…
 O mesmo encantamento apaixonado pela minha pessoa
Quando aos dezoito anos saí de casa.
Da maneira doida e louca como sempre faço todas as coisas.
Sem planos, sem destino, sem caminhos.
Nada a não ser uma vontade maior do que o mundo de comandar a minha vida.
De não ter que mentir, de não ter que me esconder,
De não ter que fingir ser por mais tempo, uma pessoa que não podia ser.
E deixei o meu pai para trás
E todos os anos de pesadelo confuso,
De bolor misturado com cheiro a naftalina.
Fugi de ter que conviver com a mágoa e raiva por um passado que já tinha morrido,
Desisti de fazer parte de um mundo perdido,
Povoado de fantasmas e de recordações, de lembranças tristes, pesadas,
E comecei do zero, e parti do nada.
E consegui não me desmanchar muito, nem sair muito magoada.

Gosto tanto de mim…
Gosto tanto do meu jeitinho doido de ser…

E há pouco tempo descobri que ainda havia alguma eu por dentro de mim!
Que tinha sobrado alguma parte da menina doida, selvagem.
Que o tempo não tinha aniquilado todos os desejos,
Todos os sonhos, todas as vontades.
E enamorei-me de mim outra vez, passados tantos anos!
E da mesma forma descontrolada,
Sem nexo,
Sem regras,
Sem nada,
Que é afinal a única maneira pela qual tenho vindo a viver,
Dei por mim outra vez a pé, na mesma estrada.

E reconheço-me em cada disparate que faço.
E dou conta de mim em cada loucura que cometo.
E reencontro-me em cada sonho que me atrevo a sonhar.
E ainda sou eu a que me sorri
Do mesmo modo alegre e travesso,
Do fundo de um espelho da vida,
Pendurado numa parede do mundo,
Como se o amanhã não existisse,
E o hoje não fosse mais do que um segundo.

Gosto tanto de mim…
Gosto tanto do meu jeitinho doido de ser…

Até quando vou poder continuar assim,
A fugir, sempre perdida,
Sem ter um lugar de guarida, sem ter onde consiga descansar?
Ou talvez seja eu apenas uma alma perdida,
Que voltou cedo demais á vida,
E ficou confusa, sem ter caminho próprio para andar…

            Tu vieste ter comigo enquanto eu dormia. Conseguiste-me acordar. 

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