sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

... para afugentar os malandros :))

“-Vou comprar um cinturão com duas pistolas,
Para afugentar os malandros”
Dizia o meu pai,
Quando estava mais bem disposto.
Ainda lá.
Cá, nunca o ouvi de novo falar assim…

E eu ouvia e ria!
E achava delicioso…
E achava na minha inocência de pequena,
Que ele ia estar mesmo lá para me defender,
E pôr todos os malandros do mundo a correr…

E os amigos lá de casa riam junto,
E a minha mãe abanava a cabeça num desconsolo rendido
Á evidência de não segurar todas as rédeas nas mãos como julgava,
E ao embaraço que era ter uma filha rebelde,
Convencida de que era atrevida
Que não sossegava ao pé dela,
E um marido severo com assomos repentinos de boa disposição.

“-Vou comprar um cinturão com duas pistolas,
Para afugentar os malandros”
E eu era miúdita ainda,
Mas já tinha os meus admiradores…
Os colegas da Fazenda que me subornavam com chocolates,
Para me verem sorrir,
E para me ouvirem falar como uma pessoa crescida
Enfiada num corpito gorducho de menina.

As visitas dos Domingos de sol,
Que vinham para as patuscadas demoradas,
Derretiam-se ao calor das minhas conversas tontas,
E das minhas piadas decoradas das revistas da Cruzada da minha mãe,
Que eu lia sem ela saber,
E que me forneciam anedotas sem fim.
Ela também gostava de ouvir,
Que eu sabia!
Só me ralhava porque junto com a Cruzada,
Sabia que eu lia os romances todos lá de casa.
Os tais romances que faziam “mal á cabeça das raparigas”,
E que se calhar, a avaliar pelo mau estado da minha,
devem realmente ter tido algum efeito bem nefasto…

“-Vou comprar um cinturão com duas pistolas,
Para afugentar os malandros”
E os presentes concordavam que sim.
Que eu ia dar muito trabalho,
A manter aquele sorriso,
A manter aquela forma de olhar…
E que o Vilbro coitado,
Ia ter muito que vigiar…
E a minha mãe alertava para a inconveniência de ter aquelas conversas
Perto da criança que não percebia nada.
E a criança que não percebia  nada, era eu.
E eu ria, deliciada..
Há que tempos percebia bem mais do que ela pensava…
E sabia que a mana não tinha vindo na cegonha,
Nem numa trouxa chegada de França,
Nem deixada de noite na varanda…
Como se eu não me lembrasse bem
De a ir visitar quando nasceu!
Como se não a tivesse visto na Missão cheia de freiras bonitas como anjos…
Os adultos pensam que as crianças esquecem…
Não eu.

“-Vou comprar um cinturão com duas pistolas,
Para afugentar os malandros”
Mas que malandros se atreveriam a aproximar?
Estava ali o meu pai.
Bonito, alto, forte e importante com o seu fato bem engomado,
A sua gravata com alfinete igual aos botões de punho…
(que saudades!)
O seu cabelo sempre impecavelmente cortado,
O rosto a reluzir de barbeado…
Estavam ali os amigos!
Os que sempre estiveram desde que nasci.
Todos juntos eram tantos!
Todos juntos enchiam o mundo!
Não sobrava ninguém que me pudesse fazer mal…
E eu ria deliciada.
E o meu pai naqueles seus raros momentos de boa disposição,
Olhava-me daquele modo dele…
Misto de ternura e de orgulho,
Meio disfarçado com repreensão.

“-Vou comprar um cinturão com duas pistolas,
Para afugentar os malandros”
Muitos anos mais tarde,
Quando os malandros começaram de facto a aparecer,
O meu pai já era velhinho demais,
Cansado demais,
Já estava perdido demais
Num mundo que se tinha esfumado junto com o fumo dos charutos
E das cigarrilhas das patuscadas dos domingos de sol.
E já não havia mãe nenhuma a abanar a cabeça num desconsolo rendido á situação.
E os amigos tinham virado pó, cinzas, recordação…
E ele nunca conseguiu comprar o tal cinturão..

Talvez por isso,
Por saberem que não haviam por perto pistolas para me defender,
Cada vez os malandros se aproximavam mais e mais,
E eu que apesar de maior,
Continuava a mesma menina,
A rir deliciada para a vida no conforto da ilusão de uma sala de visitas,
Cheia de fantasmas dos amigos lá de casa
Não era capaz de os deter.
Nem sabia se o queria fazer…

Porque afinal os malandros,
Diziam palavras bonitas!
E falavam de amor duma maneira que eu nem sabia que existia.
E tinham sempre um beijo para me dar, um abraço para me abraçar,
A mim que nunca tinha sabido
Como era bom ter alguém para me acarinhar.

Os malandros não me ralhavam,
Nem me gritavam,
Nem me punham sozinha de castigo
De cada vez que eu me fosse a atrapalhar.
E alguns deles quando me tocavam,
Faziam-me sentir bem,
Faziam-me suspirar, faziam-me querer mais…
Faziam-me esquecer por momentos gostosos,
O que estava á minha espera quando voltasse,
A tristeza de nada poder fazer para ajudar.

Os malandros da minha vida
não se pareciam importar muito com os meus modos por demais desembaraçados,
Nem com a minha falta de sabedoria para descascar uma laranja com garfo e faca,
Nem levavam a mal eu sair da mesa antes do resto das pessoas,
Muito menos tentavam proibir as minhas saias curtas,
As minhas pernas de fora, os meus decotes ousados.
E eu fui começando a preferir a companhia dos malandros…
E o meu pai nem se apercebeu nunca
Que tinha chegado altura de dar uso ás tais pistolas..

“-Vou comprar um cinturão com duas pistolas,
Para afugentar os malandros”
E ontem
Quando a minha melhor amiga me disse
Que me falta aquela coisa que as mulheres da nossa idade têm
E que nos põe de sobreaviso para não sofrermos,
Dei comigo a pensar
A tentar saber
Onde perdi o pedaço que saltou de mim,
E que me impediria de sofrer….
E dei por mim a sentir saudades do meu pai…
De quando tudo era para sempre.
De quando tinha um lugar meu,
Uma casa minha,
Uma terra na qual tinha o direito de estar…
Quando o mundo inteiro cabia na minha sala de visitas,
E os homens do mundo se resumiam
Áqueles simpáticos,
Bem vestidos e bem dispostos amigos do meu pai..
E de quando acreditava que um cinturão com duas pistolas
Era tudo quanto bastava
Para o mundo não me atacar.

            Se o meu pai fosse vivo, punha-te de castigo, ia-te ralhar… porque me fazes chorar.

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