sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Para ficar, ou só para passear

-Vamos voltar? Para ficar, ou mesmo só para passear…
E não soube o que responder…

Vem-me sempre um medo tão grande de regressar!
Porque durante tanto anos,
Guardei uma lembrança que pode não ser a verdadeira.
Porque sempre que me sentia triste ou injustiçada,
Levantava o nariz,
Alisava a saia,
Pensava comigo própria “um dia, volto para casa!”

E se não for como eu me lembro?
Se as estrelas não forem afinal assim tantas?
Se não brilharem como diamantes pendurados do céu?
E pode-se dar o caso, improvável, mas possível,
Como tantos outros casos tristes na minha vida,
Que até nem hajam estrelas no dia em que eu as for visitar…
Como é que faço para não chorar?

-Vamos voltar? Para ficar, ou mesmo só para passear…
E não soube o que responder…

As ruas que guardo na memória,
São grandes, largas, planas e enormes num espaço aberto de ar livre sem fim,
Ladeadas de árvores frondosas, floridas, perfumadas,
Perpendicularmente bem traçadas…
Mas e se não for assim que eu as vá encontrar?
Se não forem mais do que simples ruas,
Simples estradas,
Iguais, sem graça nem diferença
A tantas outras por onde costumo passar?

Se as árvores não tiverem já flores,
Ou se tiverem e elas não forem perfumadas,
Pior, se já nem árvores houver,
Só a terra, os buracos vazios de vida, desolados sem nada?
Pior do que já não haver flores, nem árvores perfumadas
Nem ruas largas, planas e bem traçadas,
Era ainda descobrir que nunca tinham sequer existido.
Que eu as tinha criado, idealizado e inventado,
Na minha tristeza de órfã de pátria e de terra,
Na minha miséria de eterna exilada…

-Vamos voltar? Para ficar, ou mesmo só para passear…
E não soube o que responder…

E vejo o rosto triste do meu pai,
Quando garantia que “havemos todos de regressar!”,
E como ia vendo no calendário pendurado na parede, os anos a passar,
E como ia ficando a cada dia mais velho de tanto esperar,
Rodeado de jornais antigos, de papeis amarelos,
De fotografias marcadas pela humidade impiedosa,
Num baile de espectros e fantasmas dançantes,
Num desassossego de ódios e rancores sem fim,
Perdendo o pouco de vida que corria perto ainda assim.
E vendo-o a ele, vejo-me a mim…
E penso que talvez não valha a pena voltar a um lugar
Que nunca se lembrou de o mandar buscar,
Que nunca quis saber de o procurar,
Que continuou egoistamente a andar,
Enquanto deste lado do mar,
Havia tanta gente a chamar…

-Vamos voltar? Para ficar, ou mesmo só para passear…
E não soube o que responder…

E se eu chorar, se eu me entristecer,
Se perder as fantasias que teci
De que a minha é uma terra linda,
Linda de morrer?
Como é que faço depois,
Para onde é que vou fugir,
Quando a vida me fizer maldades,
E não quiser mais saber de mim,
E me deixar sozinha numa tristeza de abandono sem fim?
Se não puder mais acreditar que um dia vou voltar…
Se não tiver mais lugar nenhum para onde regressar…
Para onde deito os olhos quando me sentir desfalecer?

Porque se tudo tiver sido um sonho exagerado,
Um conto de fadas inventado,
Ampliado,
Retocado,
E nada for tão bonito como as lembranças que eu tinha guardado,
Fico muito mais pobre do que agora,
E muito mais perdida do que já sou,
Porque o sonho se vai embora,
E partindo me deixa sem mais saber sonhar,
Esquecida para sempre, sem remédio no lugar aonde estou.

-Vamos voltar? Para ficar, ou mesmo só para passear…

-Mas sem grandes esperanças,
Sem exageradas fantasias,
Sem querer mais do que ver de novo,
Nem ter outras ambições do que as de tomar banho no mar,
Afundar os pés na areia,
Comer um gelado num café.
Almoçar caril de caranguejo,
Ou comer chamuças ao lanche,
Jantar frango á cafreal e dançar
Num lugar daqueles que existem um pouco por todo o mundo.
Porque essas são coisas possíveis de encontrar.
E são desejos bem possíveis de realizar…

Mais do que isso,
Não me atrevo a sonhar…

-Vamos voltar? Para ficar, ou mesmo só para passear…
-Se me vieres buscar,
Me levares contigo
Sem pedires em troca mais do que um beijo no rosto,
E me emprestares o braço para passear protegida de noite,
E se prometeres que não me deixas sozinha
Nos caminhos que forem mais escuros
Porque tenho um medo danado de falta de luz…
Se…
Se…
Me continuares a fazer sorrir,
Vai ser um prazer!
Porque é que não havia de querer ir?

            Fica esperto, já me convidaram para sair…

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