sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Porque não acredito que alguém me queira fazer mal...

Não acredito que me queiram fazer mal.
Tento sempre resolver os meus problemas com um sorriso…
Nunca grito, nunca destrato as pessoas.
Nunca perco a calma, nunca me descontrolo.
Nunca preciso mostrar medo, nem receio, nem pavor.

Se por acaso alguém me fala mais alto,
Se são mais ríspidos comigo,
Não me lembro de querer fazer da mesma maneira.
Não me lembro de querer responder de forma igual.
Penso sempre em como farei para que tudo fique bem…

Não é porque me programe,
Não é porque me planeie,
É apenas porque sou assim.
Gosto de sorrir,
Gosto que gostem de mim.
E acho que ser simpática é a coisa mais deliciosa do mundo.

Recordo-me sempre de quando tinha uns quinze, dezasseis anos,
Era Carnaval…
Quatro, cinco rapazes, talvez,
Meteram-se á nossa frente…
Eu ia com as amigas do costume, a fazer os disparates do costume…
Elas fugiram espavoridas assim que eles se aproximaram com o seu ar malandro.
Eu fiquei lá, parada e serena.
Não era mais valente do que elas,
Não era mais medrosa do que elas.
Só não acreditei que me fossem fazer mal.
Tudo o que queriam
Era atirar-nos ovos e farinha…
Mas eu falei com eles e pedi-lhes para não fazerem…
E eles simplesmente não fizeram.
E conversaram comigo,
E riram-se das minhas palavras,
Acharam-me graça,
Ficaram meus amigos.
Passaram a proteger-me nas ruas,
Ninguém mais tentou atirar-me ovos nem farinha…
Ainda vejo um deles de vez em quando…

Um condutor no meio do trânsito,
Bateu no farol de trás do meu carro,
Partiu-me o vidro,
Riscou-me a pintura…
Amolgou-me a bagageira.
Não protestei, não insultei, não praguejei…
Ele já estava aflito que chegasse!
Falámos,
Entendemo-nos…
Não fiquei com nenhum dos papeis do seguro dele.
Fiquei-lhe com o numero de telefone,
E, já se passaram uns tempos,
E ainda conversamos quando nos apetece.

Acho que não é preciso ser brusca, nem ríspida,
Não é preciso responder sempre que me atacam.
Não tenho que superar em grosseria o que me dizem.
Nem tenho que estar á defesa com cada pessoa que se aproxima de mim.
Não quero ganhar nada,
Não quero sair vitoriosa de nada.
Só quero ser feliz…

E tenho tido sorte!
Tenho-me dado muito bem assim!
Cruzei caminhos muito escuros,
Dobrei esquinas sem nenhuma visibilidade,
Entrei em lugares sombrios, aonde o sol não brilhava fazia tempo.
Fiz o que se chama de amizades duvidosas em locais proibidos.
E os que me podiam ter magoado,
Eram os próprios que me salvavam
Quando eu precisava,
Que me abraçavam quando eu tinha frio.
Nunca nenhum deles me fez mal algum…
Guardo-os a todos no coração…
Aos que ainda cá estão,
Aos que já partiram e não se despediram de mim,
Aos de quem me perdi nos caminhos da vida.
De vez em quando tento saber de vocês amigos,
E tenho passado muitas vezes pelos nossos lugares,
“lembro-me, éramos todos muito jovens”,
Já não está escrito na nossa parede.
Mas todo o resto pouco mudou,
Só ficou muito mais vazio sem nós.

Continuo a mesma.
A sorrir de forma igual para a vida
E para as pessoas da vida.
Sem desconfianças desnecessárias,
Sem precauções excessivas,
Sem cautelas exageradas.
Apenas acredito que ninguém me vai fazer mal.

As pessoas gostam de mim.
Sempre foi assim comigo,
Desde pequenita
Quando o meu pai me levava com ele á Fazenda,
Em Moçambique
E os colegas dele me adoravam…
E eu gosto das pessoas,
De estar por perto delas,
De ser amiga delas.
Gosto de conversar,
De me interessar,
De coleccionar palavras bonitas em cada lugar que passo.
Não acredito que alguém me queira fazer mal.

Para quê?
Sou a pessoa mais inofensiva do mundo.
Mais sem defesas, mais sem truques de prestidigitação…
Esgueiro-me por entre as pingas grossas dos temporais,
Sem estragar os sapatos de salto…
Molho só o cabelo,
E encharco as roupas,
Mas continuo eu,
A mesma de sempre,
Que canta debaixo da chuva e
Espera por dias melhores.
Porque não acredito que alguém me queira fazer mal…

            E tu fizeste-me recordar de como a vida é bonita, numa altura em que eu estava bastante esquecida.

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