sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sei que não vou ficar como elas!

Não sei como vou fazer para evitar,
Mas sei que não vou ficar como elas.

Mexem-se devagarinho e com cuidado,
Vestem batas escuras de cozinha mesmo quando saem para a rua,
Calçam chinelos largos ou vêm de pantufas…

Têm penteados estranhos,
Construídos em cima de cabelos roxos,
Ou usam cabelos curtos a raiar o pescoço encardido.

Falam sempre de doenças, de medicamentos difíceis com nomes complicados,
Comparam receitas, discutem os nomes dos médicos…
Conhecem a fundo maleitas de que nunca ouvi falar.

Arrastam-se pelas ruas carregadas de sacos de compras,
Couves, batatas, pão, leite…
De olhos postos no chão numa tristeza de sem nada.

Acertam o relógio da vida pelo horário de fazer o almoço.
Encurtam ou alargam os dias consoante acabam de lavar o chão,
Ou de limpar o pó, ou de passajar as meias rotas…

Não sei como vou fazer para evitar,
Mas sei que não vou ficar como elas.

E espreitam por detrás das cortinas fechadas
Quando pensam que ninguém as está a ver.
E sabem as horas de todos saírem e entrarem.

E dão conta de quem fala alto, de quem ri demais,
De quem mostra as pernas, ou tem um decote exagerado.
E ditam leis de decência, e condenam por heresia…
Tal e qual inquisidoras malvadas dos nossos dias.

Criticam-se umas ás outras mesmo quando fingem que não estão a criticar,
Invejam-se umas ás outras como se tivessem alguma coisa digna de se invejar…
E olham o mundo de fora de soslaio,
Como se o mundo tivesse qualquer interesse em as desencaminhar.

Feias,
Envelhecidas,
Escuras de alma,
Empoeiradas…

Não sei como vou fazer para evitar,
Mas sei que não vou ficar como elas.

Juntam-se em grupos com as suas vestes escuras,
E são temíveis assim porque funcionam em matilha…
Varrem a vizinhança com olhares mortiços de quem analisa de olhos cansados,
De quem analisa só por analisar, já com opinião formada, sem hipótese de mudar…

E são donas da verdade,
Da justiça e da razão.
E sabem todas as leis mesmo sem saberem em que século estão…

Opinam, dão sentenças,
Fazem valer a sua opinião,
Sem terem sequer a certeza se ainda têm coração…

São as terríveis “donas de casa” que vivem perto de mim.
São as espectadoras atentas de mais de vinte anos da minha vida.
Até agora têm-me poupado e tenho sabido lidar com elas,
Mas com o passar do tempo a minha paciência vai diminuindo,
E a vontade que tenho de lhes deitar a língua de fora quando passo,
Vai aumentando perigosamente…

Não sei como vou fazer para evitar,
Mas sei que não vou ficar como elas.

            É para contentar gente assim, que te deixas estar? A vida é curta. Manda-as passear!...

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