sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

“- E então, valeu a pena?”

“-E então, valeu a pena?”

Foi assim,
Uma pergunta concreta, simples,
Como ainda não tinha feito a mim própria…

E pensei em tudo que deixei para traz,
E lembrei de tudo o que ficou na outra vida.

Vi-me de novo com vinte, vinte e poucos anos…
Sozinha, de noite fechada, pela estrada escura de alcatrão ruim,
Com pouca iluminação e os carros a passarem,
E eu a andar!
Quilómetros…
ainda não tinha o meu latinhas…
E eu que nem sou uma mulher medrosa,
E que me rio de fantasmas e de assombrações,
De ratos e de cobras,
Tinha medo das sombras, dos barulhos
Que vinham de dentro dos arbustos,
Dos pássaros da noite que rasavam a estrada e piavam maus agoiros…
Dos camiões que abrandavam,
Dos camionistas que espreitavam…
E eu andava, hirta e direita,
A contrariar o meu balançar natural,
Em passadas rápidas, militares, desajeitadas...
Num não me aborreçam, não vos quero nada,
e eles seguiam finalmente pelo negro da estrada.

Tudo porque tinha sido parva,
Porque tinha ficado á espera…
Talvez venha no comboio das sete,
Talvez perdesse e venha no das oito,
De certeza tem que vir no das nove,
Depois só o da meia-noite…
Parva, palerma e burra como só eu sei ser…
E preocupada,
E angustiada numa luta de aceitar,
Ou rejeitar,
Aconteceu-lhe alguma coisa,
Ou foi vadiar…
Teve serão, muito trabalho,
Não me pode avisar,
Ou anda na farra, por aí, a festejar…

“- E então, valeu a pena?”

Mesa posta para jantar de festa,
Casa passada a óleo de cedro e perfumada de cera,
Sala enfeitada,
Numa sucessão de balões de mil cores,
Que festejavam sempre um daqueles dias que eu
Gostava de inventar.
Num esforço tremendo de sempre tentar, tentar…
E o tempo a passar,
O relógio sem parar,
E falta muito,mãe?
Podemos mãe?
Um bocadinho mais…
Deve estar a chegar,
Paciência meninos, vamos continuar a esperar…
E quando a porta finalmente abria
Entrava junto o cheiro a podre de mil alambiques empestados de fedor...
A raiva, a  frustração, o desapontamento, e a tristeza
Eram tantos, eram por todo o lado,
estavam dentro do grito calado,
eram muito mais fortes do que a voz, a lágrima presa...

“- E então, valeu a pena?”

E olho á minha volta agora,
Vejo as paredes quase vazias de uma casa que ainda não me diz nada,
E penso em como nunca achei que fosse passar!
Tanto tempo da minha vida á espera de ser feliz.
Tanto tempo consumido
Numa simples teimosia de esperar,
De ter esperança,
De acreditar…
Porque era para ser para sempre,
Porque estava tudo encaminhado,
Porque estava tudo decidido,
E mudar era loucura,
E desistir do caminho traçado
Era como reconhecer que nunca tinha começado,
era como admitir que tinha fracassado.

“- E então, valeu a pena?”

Valeu muito a pena!
Apesar da falta de quase tudo.
Apesar deste viver sempre na duvida,
Na incerteza...
No não saber o desconhecido daquilo que está por vir…
E porque cada dia é uma aventura,
E cada manhã é um começar de novo…
E andar nas calçadas da vida voltou a ser um gozo,
E beber café sabe a café novamente,
E até ver montras na rua
Recuperou a magia que tinha antigamente…

 E valeu a pena,
Porque fecho a porta á noite,
E me deito descansada...
E não tenho ninguém que me apoquente,
Nem que me mantenha acordada.
Nem que pense ter direitos sobre mim, nem sobre os meus beijos,
Nem sobre os abraços dos meus braços,
Nem sobre os meus desejos.

E porque voltei a sonhar com histórias bonitas de amor sem fim,
Com princesas,
Com príncipes encantados.
Porque vamos sempre a tempo de corrigir aquilo que fizemos de errado.

            E tu és valente, és corajoso…és como sempre te soube, brilhante, forte… querido homem complicado…

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