sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Má, mázinha!

Má! E ela tinha razão…
Não é que eu queira ser má,
Não é que eu faça por mal…
Mas está sempre lá presente,
O indicio, a semente,
Algo que não se explica
E só se sente…
E faz de mim com que eu seja má, mázinha…
Má!

Bem luto,
Bem tento,
Bem prometo,
a mim própria, ao mundo,
Ser diferente.
Mas é inevitável,
Como um susto que se pressente…
Igual a um espectro que se enfrente
Todos os dias,
A todas as horas,
Um diabrete ruim que se ri de mim, de contente…
Má!

Quem queria fugir era eu.
Quem precisava de respirar era eu.
Quem não queria morrer mais, devagarinho,
Era também eu.
Só eu…
Não tinha que ter trazido mais ninguém comigo.
Não podia ter arrastado mais ninguém
para uma guerra
Que era só minha,
Não devia ter provocado baixas em fileiras
Alheias á minha batalha.
Sem me importar,
Sem querer saber,
Sem ponderar.
Como sempre sou,
Como sempre faço…
Má! Tão má…

Ela tinha razão…
Um dia virá
Em que hás-de ser a desgraça desta casa…
Era assim,
Ou era coisa parecida…
Não me lembro bem,
Tantos anos…
Foi sempre assim durante toda a minha vida.
Como um ciclo que se repete,
Um vai e vem de maré teimosa,
Que enamorada da praia nunca parte para longe da mesma rocha.
Movimento tentador que me lambe,
Me assopra,
Me faz pensar que foi embora,
Me deixa sorrir e me agarra depois
Na primeira esquina,
Me aperta de encontro á primeira parede…
Verdade sombria, escura, doentia…
Má! Ela tinha razão, ela sabia…

Mas eu não queria…
Eu resisti,
Eu aguentei.
Não foi de livre vontade,
Nunca foi de livre vontade.
Primeiro sempre sou boazinha.
Obediente, certinha.
Uma linda, linda menina.
Também a vida não me poupou…
O que é que ela queria?
Milagres, impossíveis?
Não sei fazer,
Não sou capaz.
Só sei chorar quando estou triste,
E sofrer quando me fazem chorar…
Tanto, tanto que um dia não aguento,
E fujo,
E corro!
E vou contra o vento,
Sem pensar nos outros,
Sem dar mais tempo…
Má!

E fico assim,
Mole, molinha,
Como um corpo cansado depois de amar…
E ela, a tal maldade malandra
Que mora em mim,
Aproxima-se,
Ronda-me,
Mexe-me,
Tenta-me…
Não me habituaram a muitos carinhos,
Não me deram muito colo,
Não me encheram de beijinhos,
Essas coisas que sempre fazem aos mais pequeninos.
A maldade, é gostosa,
É provocante,
Insinua-se no meio do cinzento do meu limbo.
Toca-me de um jeito que é só dela…
Por baixo, por cima…
Invade-me devagarinho,
Cheia de dedos gostosos
A subirem pelo meu cio…
E é macho e é fêmea,
E é um misto de prazer e de ardor,
Que faz gemer
De gozo,
Que faz chorar de dor,
Mas que sabe bem…
Como sabe bem!…
E ela vem…
E eu deixo…
E eu gozo,
E adoro cada segundo…
Má!

Ás vezes só gostava de perceber…
Como é que ela podia saber?
Mas sabia!...
E eu era má.
E continuo má, mázinha.
Pior, não vejo como deixar de o ser…
Não sei, não aprendi a fazer,
Talvez se desistir,
Se capitular,
Se parar…
Se não quiser mais lutar
Para ser feliz.
Talvez aí…
Aceito o destino,
Abro as pernas ao que tem que ser.
Acolho nos seios
O que já estava escrito.
Rodeio com os braços tudo o que sempre detestei…

Não, não quero!
Para isso não sirvo!
Antes ser má e continuar má, mázinha,
Perversa, mesquinha.
Não vou morrer ainda viva.
Nem me vou deixar amortalhar enquanto ainda respirar.
Prefiro fazer como um tio misterioso que tive,
Tocava piano lá em Moçambique…
Desapareceu…
Bem vestido nesse dia,
Perfumado,
Distante…
Lembro-lhe o cheiro bom,
O cabelo com brilhantina.
Os olhos cinzentos, desvairados, perdidos…
Irmão preferido do meu pai…
Ninguém mais o viu,
Ninguém mais soube.
Minha mãe, dele também dizia
Mau, um homem mau…
Não sei como…
Ela sabia…

            Não estou a dar conta do recado, homem complicado… Ajuda…

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