sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Pede-lhe que pare...

Lembras-te quando me compravas bonecas?
Quando eu corria
Pendurada nos teus calcanhares
“-Compra papá compra, é tão linda!...”
E tu dizias que não, rosto severo e composto,
E no fundo eu sei que só me querias ver pedir.
Porque achavas graça á minha teimosia,
Ao meu espírito de iniciativa, como dizias…
E eu pedia, e pedia…
E trotava alegremente atrás das tuas calças bem engomadas,
Coladinha no rasto da água de colónia com cheiro a ti,
Atrapalhava-te o andar,
Embrulhava-me nos teus botões de punho,
pendurava a minha mão na tua…
“-Compra papá compra, é tão linda!...”
 Conseguia sempre!
Eu sabia que conseguia…
Bem que a minha mãe podia protestar que as filhas eram duas,
Que estragada de mimos já eu estava…
Eu sabia que me ouvias sempre,
E que me trazias a boneca,
Bem embrulhadinha,
Num papel de surpresa e com laçarote de festa,
E que ma davas quando eu menos esperasse,
Com um sorriso contente por me veres feliz.
E eu sei que gostavas quando eu te saltava ao pescoço,
Com a boneca meio desembrulhada na mão, e te enchia a cara de beijos…
E sei que quando mandavas que eu parasse,
Que já chegava,
Que aquelas não eram maneiras,
Estavas alegre e contente,
Porque gostavas de mim,
E porque mais ninguém no mundo
se atrevia a dar-te beijos se não eu.
Só eu sabia que tu não mordias e que a tua cara zangada
Era só uma protecção… mais nada.

Foi há tanto tempo!...
Já não estás por cá há tantos anos!
E já há ninguém que me compre bonecas.
Já não há ninguém que tenha paciência com os meus desejos,
E não há ninguém que ache graça á minha teimosia,
E ao meu “espírito de iniciativa”…

Mas queria pedir-te um favor, papá…
Pede a Ele para parar de fazer maldades comigo!
Deves estar por perto Dele,
Ou teres acesso a alguém que esteja…
Sempre foste bom, honesto, justo, cumpridor.
Tens que estar bem colocado, aí desse lado...

Eu sei, eu sei que não gostas de fazer pedidos,
Eu sei…
Só desta vez, papá…
Diz a Ele que já chega…
Pede para parar…

Vá lá, por favor…
Em memória dos velhos tempos.
Quando eras o meu herói,
E eu era a tua princesinha,
E me perdia contigo no mundo dos cowboys, dos pistoleiros, dos batoteiros
E das bailarinas de cancã…
E entrava junto contigo
nas investigações de detectives britânicos cheios de nevoeiro,
e descobria ao mesmo tempo que eles quem era o assassino,
o ladrão,
o mascarado.
E o Drácula entrava na nossa cozinha, de braço dado com o lobisomem,
Lado a lado com zombies e entidades das florestas negras…

E a mãe dizia lá de dentro para não me contares histórias
Que faziam mal á cabeça e que me podiam assustar.
Ela não sabia,
(Pobre dela que já não conseguia saber quase nada)
Que o que me assustava,
Eram as lágrimas que eu não percebia,
Os queixumes que eu não entendia…
Os nossos filmes... esses eram inofensivos!
Eram gostosos!
Histórias de meia-noite contadas numa cozinha cheia de bolor
No meio de um exílio que nunca mais teve fim...
  
Pede papá!
Pede para Ele parar de me fazer maldades,
Para parar de me torturar,
De me fazer chorar.
Se não é para me dar,
Que se deixe dessa brincadeira cruel de mostrar,
Deixar agarrar, cheirar, tocar
Para depois tirar…
Que se deixe de me fazer ver como a vida que Ele criou
Pode ser bonita,
E como todos os dias podem valer a pena,
Se depois é para me apagar a luz outra vez,
E me deixar de novo perdida no escuro,
Eu não posso pedir, estou de mal com Ele…
Pede tu, papá!
Pede, por favor!

Diz-lhe que pare…
Que arranje outra brincadeira,
Que se divirta de outra maneira…
Eu não quero mais brincar…
Explica-lhe que não é coisa de um Deus que se preze,
Fazer-me tantas maldades!
Não é nada bonito fazer-me triste assim!
Ele é grande, forte e invencível,
Qual é a graça de me fazer chorar?
A mim que sou tão insignificante,
Fraca, pequenina e fácil de assustar?
Feio, mau, pateta e mal educado, é o que Ele é...
Vai lá e ralha com Ele, papá…
É cobardia, é deslealdade…
Não se faz mal aos mais fracos!...

Se Ele não te ouvir,
Como também nunca me ouve a mim,
Então salto-te ao pescoço
Encho-te a cara de beijos,
Perco-me na água de colónia que tem cheiro a ti.
Não volto mais para o chão,
Mesmo quando me mandares sair,
E peço-te boleia…
Leva-me contigo como levavas dantes,
E vamos beber Coca-Cola e comer batatas fritas outra vez!
Vamos ao Scala ou ao Continental,
Vamos passear ao Vasco da Gama,
Não a este que tem cheiro de rio,
Mas ao nosso que cheirava a mar.
Vamos andar nas ruas das acácias sem fim,
Vamos, não interessa para onde, só vamos…
Vamos...

Mas não me faças descer para o chão…
Mas leva-me daqui!...

            E tu, não tens também vergonha de me fazer chorar assim?

2 comentários:

  1. GLÓRIA

    A vida é como uma roda que vai rodando com o tempo:o que està em cima vem para baixo e o que està em baixo vem para cima...mas tudo em câmara lenta....ÂNIMO amiga,vócê não està numa cadeira de rodas,não vive ao relento,tem comida,tem amigos,tem 2 filhos...para quê sofrer por um homem?

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  2. Olá, boa noite Anónimo...
    Não quero nenhuma roda para cima e para baixo. Quero uma plataforma firme e segura. Quero mais do que subir e descer ao ritmo das marés.
    Então e só porque não estou numa cadeira de rodas, não vivo ao relento, tenho comida, dois filhos, amigos, já tenho que ter ânimo? Mas assim a vida era muito fácil:) Era muito lógica, muito explicável através do raciocínio, quase como um cálculo matemático... Que fazer das mil e uma subtilezas que passam pelo espírito e não se enquadram em nenhum dos grupos de que falou? De todas as sensações, sentimentos, emoções que preenchem o coração e que não se conseguem definir sequer? São todos esses bocadinhos pequeninos, e que andam dispersos por aí, que fazem com que se tenha, ou não tenha, ânimo. Eu, por acaso, até tenho bastante ânimo... Verdade, até gosto muito de viver e das coisas bonitas da vida. Mas como gosto, também fico triste e choro. Faz parte de mim :)
    Sofrer por um homem, sofrer por um amor, não se explica. Acontece. Não se sofre "por um homem". Sofre-se pela ideia de um amor que podia acontecer, e que, por uma série de razões, não está a acontecer. De maneira nenhuma se deixa de sofrer por amor, só porque se tem casa, filhos, amigos, comida... São grandezas completamente diferentes. Como a noite e o dia, o sol e a chuva, o fogo e a água.
    Obrigada pelo comentário! Beijinhos,
    Glória

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