sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Um estranho consolo

Há um estranho consolo em não esperar nada.
Um estranho bem estar em não acreditar em mais nada,
E descrer,
E desandar,
Não perceber,
Desconfiar.

Existe um certo prazer em já não ter esperança,
Uma certa atitude de varonil desafio,
De enfrentar de peito aberto,
De total confiança.
Vá, não tenho mais nada!
E agora?
O que se segue?
Eu?
A própria vida?
Tão só? Não há mais para levar?
Nada mais para me tirar?
Mostra-me lá, vá,
Mostra aquilo de que és capaz!

Há um estranho consolo em não esperar nada,
E em não precisar mais de chorar,
De lutar,
De procurar.
Não, não é aceitar,
É ainda assim um duelo,
Um combate,
Entre quem tirou tudo,
E mesmo assim ainda bate,
E entre quem ficou nu,
Mas de pé,
Abanando ao vento agreste da infelicidade.

Um desafio que não se ganha
Nem se perde,
Só se desenrola
Só prossegue,
Até á altura que for do fim.
Até não haver mais eu,
Até não ser mais depois de mim.
E aí então, sim…

Há uma certa alegria em já não ter mais lágrimas para chorar…
Não porque se acabou a tristeza,
Mas porque se esgotou a noção de injustiça,
De saber não merecer,
De se sentir mal aproveitado.
E tudo o que venha é já igual a nada.
E não há dor que suplante a falta de amor.
Nem mágoa que faça mais doer
Do que aquilo que tinha e se veio a perder.

Há um estranho prazer
em perder a vergonha de chorar.

            Quanto tempo mais, me vais deixar a esperar?

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