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A mostrar mensagens de Março, 2012

Não queremos todos as mesmas coisas...

Não queremos todos as mesmas coisas… Lembro-me sempre disso Quando olho as minhas vizinhas, E as vejo tranquilas e descansadas Nas suas existências de ostras sem casca, De semblante sem vida, Retocado a rugas pequeninas.
Lembro-me sempre disso, Quando escuto as suas conversas Sobre árvores, Remédios, doenças, Couves, Casas… Quando reparo nos seus cabelos retorcidos Em totiços e rabos de cavalo entrançados, Quando vejo as suas roupas mal definidas sem idade, num misto da bata riscada de cozinha, com qualquer outra estranha antiguidade.
Não queremos todos as mesmas coisas. Nem elas querem voar, Sair do conforto conhecido do seu chão, Nem eu quero passar o resto da minha vida, A espreitar o mundo por detrás de um portão. Nem elas concebem ser felizes, Sem a rabuja dos netos, As esquisitices dos filhos, O mau feitio dos maridos. Nem eu imagino acabar os meus dias A cuidar dos filhos dos meus filhos, Mergulhada ainda em sarilhos, Entre dores de dentes e ralações, Tratando de joelhos esfolados e remendando calções… , Não q…

Nunca é tarde demais

Ele era o médico da aldeia. Sempre sozinho, sempre cabisbaixo. Diziam as velhas quadrilheiras, Que sabiam dele, Desde outros tempos, Que tinha tido um amor infeliz.
E que por isso, Nunca sorria, E que por isso Ficava sentado ao fim das tardes, Quando a clientela desaparecia, Numa tristeza de gelar o coração, Mudo e quieto esperando o tempo passar, Com aquele ar de solidão, que sempre faz o meu coração gelar.
Tantas vezes o vi ali, Que não me contive, e no jeito descarado que sempre tive, De chegar e meter conversa com o mundo, Aproximei-me dele e disse-lhe “boa tarde”. Falámos do tempo e das chuvas que tardavam. E falámos das maleitas que afligiam a população naquele verão quente. E falámos de como o sol é bonito Quando se prepara para ir dormir no cimo dos montes, com o seu pijama encarnado vestido. E perguntei-lhe porque era ele assim triste… Que desgosto o trazia tão aborrecido…
Tivera uma paixão tardia. Um daqueles amores que quando não chegam aos vinte, Dizia, Chegam aos sessenta, e dobram o coração. Amara um…

Continua a ser minha amiga...

Desculpa se te desiludi, Desculpa se não sou assim como tu pensavas… Perdoa-me por eu não ser perfeita, Perdoa eu ser por demais complicada…
Não sou tão inocente, Nem tão ingénua, Nem a minha vida é tão imaculada…
E já fiz muita coisa feia, E já fui muito posta á prova… E sabes? Nem sempre me saí bem. Nem sempre escolhi os melhores caminhos… Não fui capaz de me manter á altura dos nossos sonhos, Dos planos que tínhamos para os nossos destinos.
Desculpa… Não fiques triste comigo… Nem vás embora… Não me olhes com olhos diferentes! Não sou maravilhosa, Nem sou santa, Mas gosto de ti, Como dantes. E no fundo nada mudou, Ainda sou a mesma…
Só não sou como tu. Só não sou assim tão doce, Tão suave, Tão bonita, Tão despida de fraquezas… Tenho feridas mal fechadas e cicatrizes feias que teimam em doer, Sempre que o tempo muda. E cortes que teimam em sangrar quando o vento lhes dá de frente… E aprendi a usar outros remédios, E outros analgésicos, Diferentes daqueles que tu usas.
Não mudes comigo! Não desistas de ser a minha amiga…

Bonita, simpática, gostosa..

Bonita! Simpática! Gostosa! E eu sei que sou… E sei que me olham quando passo, E que me desejam enquanto ando… E que gostavam, Se pudessem Se eu deixasse, De encostar em mim, De ficar por perto.
Bonita! Simpática! Gostosa! Desde que me lembro de mim… Bonita, pequenita respondona e reguila, Desafio para a paciência de quem tinha que me aturar… Bonita com o meu cabelo encaracolado preso no alto, As bochechas de menina sorridente bem redondas, O sorriso atrevido de quem gostava de medir forças com a vida. Mesmo que medir forças fosse apenas testar a resistência da minha mãe, Ver quanto tempo ela demorava a mandar-me para o castigo, Ou quanto tempo o meu pai demorava a comprar a boneca da minha eleição…
Simpática no mundo dos amigos, Das visitas lá de casa, Do universo das pessoas da rua, Que me viam, Me ouviam Me achavam graça… Me consideravam esperta, desembaraçada, Vivaça, sem ser mal-educada…
Gostosa desde que comecei a ter formas de mulher, A ter peito, A ter cintura, A ter ancas bem desenhadas, Pernas torneadas…
Tão e…

De vez em quando...

De vez em quando entro num atalho, Convidativo, enigmático, apetitoso. Saio da estrada. Sigo pelo cascalho misterioso, Ou pela terra batida enlameada. Sem querer saber, linda, leve, solta…
De vez em quando deixo-me tentar, Ou seduzo a tentação. Gosto do perigo, Gosto do charme de cercar, envolver chamar. De vez em quando esqueço-me de ser eu, E volto a ser pequenina, Desobediente, Traquina, E ainda procuro ser feliz…
Ás vezes dou-me bem, e divirto-me mais do que pensava! Rio, canto e choro, Mas sem me importar muito, Sem de envolver demais. Sem magoar, sem ferir, Nunca deixando ninguém para trás.
Outras vezes estou lá tão perto, Quase a encostar, Prestes a agarrar, pegar… Bastava estender uma mão, Bastava querer realmente ficar. Ou bastava haver alguém para me segurar no braço, Para me fazer desistir de andar.
Desta vez foi diferente. Desta vez acabei mesmo por me magoar…
E não planeei, Não procurei. Só estava. Não fugi, fiquei. Mas acreditei… E enquanto sonhava Fui mais feliz do que sabia poder-se ser.
E quando acordei O m…