sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 15 de março de 2012

Bonita, simpática, gostosa..

Bonita!
Simpática!
Gostosa!
E eu sei que sou…
E sei que me olham quando passo,
E que me desejam enquanto ando…
E que gostavam,
Se pudessem
Se eu deixasse,
De encostar em mim,
De ficar por perto.

Bonita!
Simpática!
Gostosa!
Desde que me lembro de mim…
Bonita, pequenita respondona e reguila,
Desafio para a paciência de quem tinha que me aturar…
Bonita com o meu cabelo encaracolado preso no alto,
As bochechas de menina sorridente bem redondas,
O sorriso atrevido de quem gostava de medir forças com a vida.
Mesmo que medir forças fosse apenas testar a resistência da minha mãe,
Ver quanto tempo ela demorava a mandar-me para o castigo,
Ou quanto tempo o meu pai demorava a comprar a boneca da minha eleição…

Simpática no mundo dos amigos,
Das visitas lá de casa,
Do universo das pessoas da rua,
Que me viam,
Me ouviam
Me achavam graça…
Me consideravam esperta, desembaraçada,
Vivaça, sem ser mal-educada…

Gostosa desde que comecei a ter formas de mulher,
A ter peito,
A ter cintura,
A ter ancas bem desenhadas,
Pernas torneadas…

Tão espantada quando descobri que se sorria
Se meneava,
Se olhava de olhos semicerrados,
Os homens,
Esses símbolos de poder e de autoridade,
Amoleciam perante mim,
Perdiam o tom de voz grossa,
Tornavam-se atenciosos,
Tornavam-se prestáveis.
E eu que sou sorridente por natureza
Que sou simpática porque nasci assim,
Sem fingimentos, sem pretensões,
Dei por mim a ser gostosa,
Porque fazia bater mais forte os corações…

Bonita,
Simpática,
Gostosa…
E de que me serve tudo isso?
Para que preciso de tudo isso,
Se á noite quando me deito na cama,
Estou sozinha?
E quando choro
E fico triste e quero colo,
Estou também sozinha…
E se quando fecho os olhos para sonhar,
O sonho já nem tem rosto claro,
Já nem tem sabor…

De que me serve tudo isso,
Se não consegui manter comigo
Nenhum dos amores que mais amei?
A uns perdi,
De outros, desisti,
Outro não chegaram sequer a ser meus…

Bonita,
Simpática,
Gostosa…
“Tudo isso assusta um homem,”
Disse-me um amigo um dia…
“Não te conseguem guardar na algibeira,
Nem levar na mala para casa…”

Bonita,
Simpática,
Gostosa…
Tudo isso eu trocaria,
Por voltar a ser feliz
Nem que fosse mais um dia…

            Tanto nevoeiro em frente ao teu rosto…

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