sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 24 de março de 2012

Não queremos todos as mesmas coisas...

Não queremos todos as mesmas coisas…
Lembro-me sempre disso
Quando olho as minhas vizinhas,
E as vejo tranquilas e descansadas
Nas suas existências de ostras sem casca,
De semblante sem vida,
Retocado a rugas pequeninas.

Lembro-me sempre disso,
Quando escuto as suas conversas
Sobre árvores,
Remédios, doenças,
Couves,
Casas…
Quando reparo nos seus cabelos retorcidos
Em totiços e rabos de cavalo entrançados,
Quando vejo as suas roupas mal definidas sem idade,
num misto da bata riscada de cozinha,
com qualquer outra estranha antiguidade.

Não queremos todos as mesmas coisas.
Nem elas querem voar,
Sair do conforto conhecido do seu chão,
Nem eu quero passar o resto da minha vida,
A espreitar o mundo por detrás de um portão.
Nem elas concebem ser felizes,
Sem a rabuja dos netos,
As esquisitices dos filhos,
O mau feitio dos maridos.
Nem eu imagino acabar os meus dias
A cuidar dos filhos dos meus filhos,
Mergulhada ainda em sarilhos,
Entre dores de dentes e ralações,
Tratando de joelhos esfolados e remendando calções…
,
Não queremos todos as mesmas coisas,
E elas não percebem
Como posso eu querer mais do que tinha…
Uma casa bonitinha,
com quintal,
linda, pintadinha.
E um muro de volta,
Casota para o cão e flores nos vasos…
Um homem trabalhador,
Que não deixava faltar nada em casa…
Amor, que é isso?
Quem precisa de amor,
Se não enche barriga,
Não mata fome,
Nem mitiga a dor…?
Carinho?
O que é carinho?
Aquilo que se faz na cabeça pelada de um gato pequenino…
Fantasias de desocupadas,
Perca de tempo de mulheres desenvergonhadas.
Sexo,
Tesão,
Desejo,
Para quê? Perguntam…
Se já têm os filhos, se já vieram os netos,
Se estão gordas, anafadas,
Cheias de doenças desconhecidas…
Se o maior prazer que têm nas vidas,
É o prato de comida quente,
Melhorado ao fim de semana,
Rotineiro no resto dos dias…

Não queremos todos as mesmas coisas…
E eu que estremeço se uma aragem me toca mais de perto,
Que respiro com mais força se me olham de certa forma,
Que sinto o coração bater mais forte,
Quando tenho desejo,
E morro de vontade de dar um beijo,
Daqueles molhados,
Gostosos,
Que fazem fechar os olhos e sonhar…
Eu não entendo como conseguem.
Como são capazes de aguentar…

Que gosto pode ter a vida sem se gostar?
Que fazer da esperança, onde a guardar.
Em que bolso a meter,
Quando nada nos dá prazer?
E elas seguem de rosto no chão,
E elas andam sem abanar,
Sem sorrir,
Sem gostar…
E são puritanas,
Não porque são puras,
Mas porque esqueceram como fazer para amar.

Não queremos todos as mesmas coisas…
E eu não quero passar o resto dos meus dias,
De atalaia atrás da janela,
Como elas fazem
De rosto na vidraça da vida de cada um…
Numa busca incessante de novidades,
De emoções…
Num orgasmo sem gemido de falta de sensações…
Nem quero prender os meus cabelos no alto da cabeça,
E pintá-los de tinta roxa,
Nem vestir roupa preta…
E não quero esquecer do bom que é
Quando o homem que quero me apanha de jeito,
Quando me mexe, quando me acorda…
Sem lembrança de panelas,
De hora de lavar o chão,
De reza decorada,
De crochet ao serão.
Só sentir,
Só dar, só pedir,
Só ser capaz de ir,
Sem tirar os pes do chão.

Não queremos todos as mesmas coisas…
Eu quero ser feliz.
Da forma que gosto.
Com o corpo, o coração e a alma,
Tudo o que é meu ardendo em chama,.
Com um climax de gozo em cado rosto
Que me amar, e eu quiser na minha cama.

Até encontrar aquele que será por fim,
O amor que sonhei para mim…
Não para deixar de sentir,
De gozar,
De querer,
Mas para parar de procurar e de me perder.
Porque uma aliança no dedo, e um papel na gaveta,
Não valem mais
Do que o gosto que tenho,
Quando o abraço do Amor me aperta.

Não queremos todos as mesmas coisas…

            E eu queria-te a ti… E tu nunca soubeste muito bem o que querias...


2 comentários:

  1. Qta sinceridade, querida amiga! Infelizmente o mundo é feito apenas de hipocrisias, fingimentos e falsa moralidade...Espero que encontres brevemente esse alguém pra te fazer feliz! Muitos bjs, Veja o comentário q postei no seu texto de domingo sobre uma amiga, Bjos.

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  2. Olá Cristina,
    Há tanto tempo que não falávamos, que saudades!
    Já encontrei esse alguém, já perdi, não sei se encontrei, nem sei se perdi... a minha vida é sempre um carrossel de confusões... A ver vamos, em que tudo vai parar.
    Vou ver o outro comentário, sim, Cristina.Obrigada. Beijinhos,
    Glória

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